'No coração de alguém que esteve aqui'

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Um dândi
Um dândi

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Publicada em 30/01/2019 às 06:29:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
A cantora Amorosa 
anda a me fazer pa-
gar a língua. Ano passado, pouco depois de esta página sublinhar a memória pouca dos sergipanos, sob o pretexto de cobrar as homenagens devidas à vida e obra do poeta Araripe Coutinho, ela se valeu de sua condição de membro da Academia de Letras de Aracaju para promover uma sessão solene, avivando a força adormecida de seus versos. 
Declamações, relatos de causos, mais o lançamento de um documentário de Pascoal Maynard, depois exibido pela TV Alese, lembraram o dândi em toda a sua exuberância e desenvoltura. Estava até de bom tamanho, mas Amorosa achou pouco, e volta agora à carga com a exposição 'No coração de alguém que esteve aqui'. 
Dividida em mais de dez ambientes, 'No coração de alguém que esteve aqui' destaca aspectos cronológicos, jargões e conceitos que revelam Araripe Coutinho, sua militância cultural e social, sem esquecer do episódio do Palácio Olímpio Campos, assunto nacional. Além disso, objetos de seu próprio acervo e um espaço interativo também integram a exposição.
Abrigada pela Galeria Jenner Augusto (Sociedade Semear), a mostra celebra o cinquentenário do poeta, exaltando o homem de versos, o jornalista e, sobretudo, a sua personalidade controvertida. Como bem lembra a curadora, Araripe foi amado por uns, odiado por outros. "Mas não passou despercebido por ninguém". 
Lembrança do poeta - Conta-se muitas histórias sobre Araripe Coutinho. Nenhuma faz justiça aos seus versos mais inspirados. 'Nenhum coração' (2008), o seu último suspiro literário, nunca foi páreo para a infinidade de causos protagonizados pelo poeta, de um requinte prosaico. O nu do Palácio Olímpio Campos, escandaloso, periga ser lembrado como o seu maior momento. 
Embora cultivasse uma imagem frívola, a ponto de assinar, em seus últimos dias, uma excelente coluna social, Araripe foi veículo de pelejas existenciais bastante agudas. Viado, preto e pé rapado, ele frequentava as altas rodas da província com a maior naturalidade do mundo, habitué de gente graúda. Quando as luzes apagavam, no entanto, sobrevinham poemas carregados de aflição e o poeta perguntava às paredes: "Quem vai me trazer um pêssego numa tarde de agonia?".
Em público, Araripe ria muito e falava alto. Na folha em branco, na ponta da pena, entretanto, o tom era outro, e ele se lamentava, sem preocupação com as aparências: "Se eu pudesse dizer como anda a minha casa...". 
Nos livros, Araripe confessava o que jamais seria admitido em sociedade, quando o personagem das caras e bocas finalmente se calava. O seu eu lírico tinha sangue correndo nas veias. E se expunha em versos, certo de não ser realmente ouvido (aposta minha), como quem chorasse escondido e lançasse garrafas cheias de lágrimas ao mar.
'No coração de alguém que esteve aqui':
30 de janeiro, a partir das 18 horas, na Sociedade Semear.

A cantora Amorosa  anda a me fazer pa- gar a língua. Ano passado, pouco depois de esta página sublinhar a memória pouca dos sergipanos, sob o pretexto de cobrar as homenagens devidas à vida e obra do poeta Araripe Coutinho, ela se valeu de sua condição de membro da Academia de Letras de Aracaju para promover uma sessão solene, avivando a força adormecida de seus versos. 
Declamações, relatos de causos, mais o lançamento de um documentário de Pascoal Maynard, depois exibido pela TV Alese, lembraram o dândi em toda a sua exuberância e desenvoltura. Estava até de bom tamanho, mas Amorosa achou pouco, e volta agora à carga com a exposição 'No coração de alguém que esteve aqui'. 
Dividida em mais de dez ambientes, 'No coração de alguém que esteve aqui' destaca aspectos cronológicos, jargões e conceitos que revelam Araripe Coutinho, sua militância cultural e social, sem esquecer do episódio do Palácio Olímpio Campos, assunto nacional. Além disso, objetos de seu próprio acervo e um espaço interativo também integram a exposição.
Abrigada pela Galeria Jenner Augusto (Sociedade Semear), a mostra celebra o cinquentenário do poeta, exaltando o homem de versos, o jornalista e, sobretudo, a sua personalidade controvertida. Como bem lembra a curadora, Araripe foi amado por uns, odiado por outros. "Mas não passou despercebido por ninguém". 

Lembrança do poeta - Conta-se muitas histórias sobre Araripe Coutinho. Nenhuma faz justiça aos seus versos mais inspirados. 'Nenhum coração' (2008), o seu último suspiro literário, nunca foi páreo para a infinidade de causos protagonizados pelo poeta, de um requinte prosaico. O nu do Palácio Olímpio Campos, escandaloso, periga ser lembrado como o seu maior momento. 
Embora cultivasse uma imagem frívola, a ponto de assinar, em seus últimos dias, uma excelente coluna social, Araripe foi veículo de pelejas existenciais bastante agudas. Viado, preto e pé rapado, ele frequentava as altas rodas da província com a maior naturalidade do mundo, habitué de gente graúda. Quando as luzes apagavam, no entanto, sobrevinham poemas carregados de aflição e o poeta perguntava às paredes: "Quem vai me trazer um pêssego numa tarde de agonia?".
Em público, Araripe ria muito e falava alto. Na folha em branco, na ponta da pena, entretanto, o tom era outro, e ele se lamentava, sem preocupação com as aparências: "Se eu pudesse dizer como anda a minha casa...". 
Nos livros, Araripe confessava o que jamais seria admitido em sociedade, quando o personagem das caras e bocas finalmente se calava. O seu eu lírico tinha sangue correndo nas veias. E se expunha em versos, certo de não ser realmente ouvido (aposta minha), como quem chorasse escondido e lançasse garrafas cheias de lágrimas ao mar.
'No coração de alguém que esteve aqui':
30 de janeiro, a partir das 18 horas, na Sociedade Semear.