De volta ao país da galhofa

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 01/02/2019 às 06:14:00

 

* Antonio Passos
Nas décadas de 1970 e 1980 o Brasil era o país da galhofa, quase sempre negativamente comparado com outras nações. Não que em algum momento anterior não o tenha sido. Refiro-me ao período acima especificado por ser um tempo do qual tenho lembrança direta. O brasileiro, de modo geral, naquela época, era descrito como um povo explorado, pisoteado, humilhado, mas, dócil e ordeiro, daí toda a zombaria. Dizia-se que éramos um país riquíssimo, porém, com uma nação pobre e caracterizada por gritantes desigualdades. O Brasil parecia continuar uma colônia, como fora oficialmente entre 1500 e 1822 - um povo submetido a interesses alheios.
Anos depois, estudando história, aprendi que houve períodos nos quais o Brasil caminhou no sentido de construção da autonomia nacional e da democratização dos recursos. Também aprendi que sempre existiram brasileiros lutando pela soberania do país e por justiça social, porém, mais especificamente nos anos 1970, esses eram temas quase proibidos entre nós. Em um bairro popular de Aracaju, onde vivi quase inteiramente aquela década, não se falava desses assuntos, a não ser muito reservadamente. Nas famílias, de modo geral, pais e mães temiam quando uma filha ou um filho manifestava interesse por questões políticas.
Já nos anos 1980 o Brasil foi banhado por uma onda democrática e com isso, as gozações sobre as nossas condições políticas e sociais tornaram-se mais explícitas. Com o afrouxamento repressivo e a retomada da liberdade de expressão, ressurge também, no burburinho das ruas, a manifestação do desejo de romper com aquela situação que nos colocava na condição de alvos da galhofa. Todas as zombarias que nos eram dirigidas sempre estavam associadas ao comando político do país, ao modo como nós brasileiros nos "deixávamos" governar. Assim, ganhou muita força e expressão o desejo de ruptura do regime político.
Veio então a redemocratização, lenta e gradual. Na primeira eleição, ainda indireta, de um civil para a presidência da república, após 21 anos de governos militares, uma fatalidade colocou no comando do país José Sarney - um autêntico representante do coronelismo. O governo foi desastroso e as gozações continuaram. Surge então, do nada, um político alagoano, nacionalmente inexpressivo, lançado às alturas por muita propaganda embrulhada em jornalismo, praticada abertamente pelas redes de TV. É então eleito Fernando Collor que continua dando sustentação à caricatura de república do faz de conta, atribuída ao Brasil.
No governo Itamar Franco, eleito vice de Collor e herdeiro da presidência após o titular ter renunciado, começam a ser esboçadas condutas políticas que acenam na direção da conquista de maior respeitabilidade pelo Brasil. Enfim, na última década do século XX, com o plano real, a superação da inflação galopante e a estabilização econômica, renasce no país um sentimento de autoestima nacional. Depois da era FHC, iniciam-se os governos trabalhistas que, além da estabilidade econômica, focam a inclusão social. De patinho feio, de alvo das gozações, o Brasil passa a ser destaque internacional, agora positivamente.
Porém, chegamos à 2018 e o perfil da equipe que foi anunciada e comanda o governo desde 1º de janeiro de 2019, apontou na direção de uma volta do Brasil à velha condição de país da zombaria. Um governo no qual o chanceler e a outras figuras estratégicas manifestam uma ideologia que parece ter sido copiada diretamente dos filmes de Rambo ou do Homem de Ferro. Uma equipe para a qual uma pastora sensacionalista foi nomeada ministra de estado e manifesta a intenção de adotar políticas públicas que sirvam para impor os dogmas morais dela. Uma ministra da agricultura comprometida com agrotóxicos…
A lista das decepções que foram sendo acumuladas no decorrer dos meses finais de 2018, a cada anúncio de mais um nome para compor o "novo" governo restou grande, senão total. Após essas nomeações, o ranço de um velho bolor que remete ao tempo no qual o Brasil era apenas uma colônia escravagista, quando ser um estado nacional independente era apenas um projeto, impregnou a administração pública federal. Desejo estar errado. Gostaria de vir a publicar aqui, em algum momento futuro, que me enganei ao fazer a presente avaliação. Contudo, pelo que está colocado, hoje, desconfio que estamos de volta ao país da galhofa.
Galhofa para quem pode olhar de cima ou de longe, ou ainda para quem consegue rir da própria desgraça… Não para todos.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Nas décadas de 1970 e 1980 o Brasil era o país da galhofa, quase sempre negativamente comparado com outras nações. Não que em algum momento anterior não o tenha sido. Refiro-me ao período acima especificado por ser um tempo do qual tenho lembrança direta. O brasileiro, de modo geral, naquela época, era descrito como um povo explorado, pisoteado, humilhado, mas, dócil e ordeiro, daí toda a zombaria. Dizia-se que éramos um país riquíssimo, porém, com uma nação pobre e caracterizada por gritantes desigualdades. O Brasil parecia continuar uma colônia, como fora oficialmente entre 1500 e 1822 - um povo submetido a interesses alheios.
Anos depois, estudando história, aprendi que houve períodos nos quais o Brasil caminhou no sentido de construção da autonomia nacional e da democratização dos recursos. Também aprendi que sempre existiram brasileiros lutando pela soberania do país e por justiça social, porém, mais especificamente nos anos 1970, esses eram temas quase proibidos entre nós. Em um bairro popular de Aracaju, onde vivi quase inteiramente aquela década, não se falava desses assuntos, a não ser muito reservadamente. Nas famílias, de modo geral, pais e mães temiam quando uma filha ou um filho manifestava interesse por questões políticas.
Já nos anos 1980 o Brasil foi banhado por uma onda democrática e com isso, as gozações sobre as nossas condições políticas e sociais tornaram-se mais explícitas. Com o afrouxamento repressivo e a retomada da liberdade de expressão, ressurge também, no burburinho das ruas, a manifestação do desejo de romper com aquela situação que nos colocava na condição de alvos da galhofa. Todas as zombarias que nos eram dirigidas sempre estavam associadas ao comando político do país, ao modo como nós brasileiros nos "deixávamos" governar. Assim, ganhou muita força e expressão o desejo de ruptura do regime político.
Veio então a redemocratização, lenta e gradual. Na primeira eleição, ainda indireta, de um civil para a presidência da república, após 21 anos de governos militares, uma fatalidade colocou no comando do país José Sarney - um autêntico representante do coronelismo. O governo foi desastroso e as gozações continuaram. Surge então, do nada, um político alagoano, nacionalmente inexpressivo, lançado às alturas por muita propaganda embrulhada em jornalismo, praticada abertamente pelas redes de TV. É então eleito Fernando Collor que continua dando sustentação à caricatura de república do faz de conta, atribuída ao Brasil.
No governo Itamar Franco, eleito vice de Collor e herdeiro da presidência após o titular ter renunciado, começam a ser esboçadas condutas políticas que acenam na direção da conquista de maior respeitabilidade pelo Brasil. Enfim, na última década do século XX, com o plano real, a superação da inflação galopante e a estabilização econômica, renasce no país um sentimento de autoestima nacional. Depois da era FHC, iniciam-se os governos trabalhistas que, além da estabilidade econômica, focam a inclusão social. De patinho feio, de alvo das gozações, o Brasil passa a ser destaque internacional, agora positivamente.
Porém, chegamos à 2018 e o perfil da equipe que foi anunciada e comanda o governo desde 1º de janeiro de 2019, apontou na direção de uma volta do Brasil à velha condição de país da zombaria. Um governo no qual o chanceler e a outras figuras estratégicas manifestam uma ideologia que parece ter sido copiada diretamente dos filmes de Rambo ou do Homem de Ferro. Uma equipe para a qual uma pastora sensacionalista foi nomeada ministra de estado e manifesta a intenção de adotar políticas públicas que sirvam para impor os dogmas morais dela. Uma ministra da agricultura comprometida com agrotóxicos…
A lista das decepções que foram sendo acumuladas no decorrer dos meses finais de 2018, a cada anúncio de mais um nome para compor o "novo" governo restou grande, senão total. Após essas nomeações, o ranço de um velho bolor que remete ao tempo no qual o Brasil era apenas uma colônia escravagista, quando ser um estado nacional independente era apenas um projeto, impregnou a administração pública federal. Desejo estar errado. Gostaria de vir a publicar aqui, em algum momento futuro, que me enganei ao fazer a presente avaliação. Contudo, pelo que está colocado, hoje, desconfio que estamos de volta ao país da galhofa.
Galhofa para quem pode olhar de cima ou de longe, ou ainda para quem consegue rir da própria desgraça… Não para todos.

* Antonio Passos é jornalista