Um dever amaríssimo

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto
Uma estranha no ninho
Uma estranha no ninho

Clique nas imagens para ampliar

Publicada em 01/02/2019 às 06:31:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Há algo de José Dias, 
o personagem cria-
do por Machado de Assis, na presidente da Fundação de Cultura e Arte Aperipê. Não se faz alusão, aqui, aos superlativos do puxa saco, Conceição Vieira não precisa disso. Trata-se, isso sim, da convivência nada natural, estranha aos laços de sangue e de afeto, estabelecida entre o tal agregado e a distinta família de Bentinho. Para manter a sua delicada posição na hierarquia doméstica, o coitado abraçava qualquer tarefa com entusiasmo declarado - sempre um dever amaríssimo!
Para todos os efeitos, Conceição Vieira é uma estranha no ninho. Assim, precisa fazer das tripas coração e se desdobrar em gentilezas, abrindo a porta para qualquer um que a procure, independente de propósito. Esta semana, por exemplo, ela recebeu uma artista visual em seu gabinete (matéria nesta página). Poderia estar em pauta, por exemplo, o destino da Galeria de Arte J Inácio. Mas não, Sueli Nielsen não estava ali para discutir política pública. Ela se deu ao trabalho de ir até lá para fazer uma doação.
Eu vou me abster de entrar no mérito do valor artístico da obra em questão, a escultura 'Nego D'água'. Todo ponto de vista é só a mirada de um ponto. Importa, no entanto, questionar a Funcap a respeito da função estratégica do aparelho cultural sob a responsabilidade da Fundação. A Galeria J Inácio, o Teatro Lourival Baptista (o Atheneu e, sobretudo, o Tobias Barreto, pouco servem ao artista sergipano) e o Centro de Criatividade estão entregues às baratas, enquanto os artistas locais permanecem ao relento, sem um teto para chamar de seu.
Ano passado, quando o Centro de Criatividade completou 33 anos, esta página reclamou a realização de uma festa. Ninguém deu ouvidos. Reformado pelo Governo de Sergipe, após o investimento de alguns milhões de reais, o espaço tem hoje a mesma serventia de um monumental elefante branco. Sem uma agenda voltada para a animação da sensibilidade encastelada nas alturas da Caixa D'água, tudo ali é pedra, sem sombra de gente, sem função social.
Conceição Vieira tomou posse há apenas dez dias, muito pouco tempo para tomar pé da situação de duas emissoras de rádio, uma emissora de televisão, mais todo o equipamento cultural do estado. Mas ela precisa descascar o abacaxi logo, o quanto antes. A julgar pela expectativa apurada por esta página junto ao pessoal que vive de bater tambor nas madrugadas da aldeia, a boa fé de Sueli Nielsen é uma louvável exceção. Ou, por outra, em bom português: A desconfiança é a regra.

Há algo de José Dias,  o personagem cria- do por Machado de Assis, na presidente da Fundação de Cultura e Arte Aperipê. Não se faz alusão, aqui, aos superlativos do puxa saco, Conceição Vieira não precisa disso. Trata-se, isso sim, da convivência nada natural, estranha aos laços de sangue e de afeto, estabelecida entre o tal agregado e a distinta família de Bentinho. Para manter a sua delicada posição na hierarquia doméstica, o coitado abraçava qualquer tarefa com entusiasmo declarado - sempre um dever amaríssimo!
Para todos os efeitos, Conceição Vieira é uma estranha no ninho. Assim, precisa fazer das tripas coração e se desdobrar em gentilezas, abrindo a porta para qualquer um que a procure, independente de propósito. Esta semana, por exemplo, ela recebeu uma artista visual em seu gabinete (matéria nesta página). Poderia estar em pauta, por exemplo, o destino da Galeria de Arte J Inácio. Mas não, Sueli Nielsen não estava ali para discutir política pública. Ela se deu ao trabalho de ir até lá para fazer uma doação.
Eu vou me abster de entrar no mérito do valor artístico da obra em questão, a escultura 'Nego D'água'. Todo ponto de vista é só a mirada de um ponto. Importa, no entanto, questionar a Funcap a respeito da função estratégica do aparelho cultural sob a responsabilidade da Fundação. A Galeria J Inácio, o Teatro Lourival Baptista (o Atheneu e, sobretudo, o Tobias Barreto, pouco servem ao artista sergipano) e o Centro de Criatividade estão entregues às baratas, enquanto os artistas locais permanecem ao relento, sem um teto para chamar de seu.
Ano passado, quando o Centro de Criatividade completou 33 anos, esta página reclamou a realização de uma festa. Ninguém deu ouvidos. Reformado pelo Governo de Sergipe, após o investimento de alguns milhões de reais, o espaço tem hoje a mesma serventia de um monumental elefante branco. Sem uma agenda voltada para a animação da sensibilidade encastelada nas alturas da Caixa D'água, tudo ali é pedra, sem sombra de gente, sem função social.
Conceição Vieira tomou posse há apenas dez dias, muito pouco tempo para tomar pé da situação de duas emissoras de rádio, uma emissora de televisão, mais todo o equipamento cultural do estado. Mas ela precisa descascar o abacaxi logo, o quanto antes. A julgar pela expectativa apurada por esta página junto ao pessoal que vive de bater tambor nas madrugadas da aldeia, a boa fé de Sueli Nielsen é uma louvável exceção. Ou, por outra, em bom português: A desconfiança é a regra.