Bolsonaro assume delírio subimperialista

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Publicada em 05/02/2019 às 05:39:00

 

* Paulo Moreira Leite
Longe de ser uma novidade, o engajamento do governo Jair Bolsonaro no esforço para derrubar o governo Nicolás Maduro marca a reconhecida tentativa de realinhar o Brasil numa postura anti-democrática e pró-imperialista que foi um traço fundamental da ditadura de 64 -- cujo legado o presidente pretende resgatar.
Capaz de oferecer aos golpistas articulados em torno Juan Guaidós as mesmas facilidades de renegociação da dívida venezuelana que foram negadas por Michel Temer em dezembro de 2018, nas vésperas de sua posse, Bolsonaro retoma a escancarada tradição entreguista da política externa brasileira. Numa primeira intervenção direta na situação interna do país, não só promete reescalonar o pagamento de uma dívida de US$ 791 milhões, mas também promete agir em organismos internacionais como o FMI e Banco Mundial para facilitar o auxílio a Venezuela -- caso  Guaidós venha a assumir assumir a cadeira de Maduro. (Folha, 1/2/2019).
Com a mesma visão do atual ministro de Relações Exteriores Eugênio Araújo, mas articulada de modo mais sofisticado e até erudito, o general Golbery do Couto e Silva foi a principal referência na diplomacia do regime militar de 64. Admitia ("sem tergiversações") que o Brasil deveria orientar sua força e riqueza como nação "em benefício de nossos irmãos do norte", a que "nos ligam tantos e tão tradicionais laços de amizade e de interesses, e em defesa ao mesmo tempo da civilização cristã, que é a nossa, contra o imperialismo comunista de origem exótica". Foi assim que o Brasil se afastou da Política Externa Independente, traçada nos governos Jânio Quadros-João Goulart, que recusava alinhamentos automáticos  na Guerra Fria e assumiu uma adesão absoluta aos EUA a partir do golpe de 64.  
O retrospecto histórico mostra o lamentável resultado dessa opção. É impossível descrever o chamado "ciclo de ditaduras militares" no Continente sem reconhecer o papel nefasto desempenhado pelos governos brasileiros como braço auxiliar dos Estados Unidos, que atuaram como uma verdadeira máquina de golpes e intervenções.
No ano seguinte à queda de Goulart, Castello Branco enviou 1100 homens para a República Dominicana, onde consolidaram um governo de confiança de Washington. Em 1971, militares brasileiros tiveram um papel decisivo na coleta de recursos e envio de armas para o golpe de Hugo Banzer, ponto de partida para uma prolongada instabilidade na Bolivia.  Apontado sem rodeios como "agente da CIA" por um veterano da organização, em sua passagem pela embaixada em Montevidéu o embaixador Pio Correa usava do posto para fazer pressões permanentes contra a democracia do país vizinho, derrubada em julho de 1973. Em setembro, na queda de Salvador Allende, montou-se uma comunhão de porões militares, num esquema que também iria se reproduzir na Argentina, três anos depois.   
Embelezado pelo mito  de Brasil-potência, o ativismo anti-democrático do regime militar era tão evidente e tão profundo que deu origem à tese de que, no papel de "irmão menor",  o Brasil  se tornara um país "subimperialista".
Conceito criado por Rui Mauro Marini, que fazia uma crítica do regime de um ponto de vista de esquerda, a noção "subimperialismo" sugeria  que o governo brasileiro  procurava reproduzir, junto a nossos vizinhos, uma versão subdesenvolvida do tratamento dos "nossos irmãos do Norte" -- e procurava ter direito, portanto, às migalhas correspondentes a posição subalterna.
No artigo "Breve Análise da Teoria do  Subimperialismo Brasileiro," o professor Antonio V. B. Mota Filho faz um debate de fundo com essa visão, concluindo que na prática manifestava apenas uma grande ilusão. De um lado, Washington sempre "resistiu a ceder maior espaço ao Brasil," lembra o professor. De outro, mesmo governos nascidos de golpes de Estado apoiados por Brasília jamais aceitaram por um regime de "dupla exploração", preferindo acertar-se diretamente com o verdadeiro patrão, aquele que manda, os Estados Unidos.
Quando, nas horas de crise,  o governo militar imaginou que iria receber auxílio de "nossos irmãos do norte", a reação foi oposta, lembrando que é impossível ignorar  as diferenças de natureza entre império e colônia.
O Brasil foi esmagado na crise da dívida externa, sem nenhuma medida especial de auxílio. Iniciativas autônomas do Estado brasileiro, que poderiam produzir efeitos benéficos no desenvolvimento, como os investimentos numa tecnologia própria de informática, como um programa nuclear autônomo, foram alvo de chantagem aberta e sabotagem subterrânea. As privatizações realizadas no governo Fernando Henrique Cardoso já estavam embutidas na cartilha empresarial do fim do regime militar.
O final foi melancólico: o país subimperialista transformou-se numa supercolônia. Numa rapina que, após 12 anos de resistência nos governos Lula e Dilma, em nossos dias chegou as empresas estatais, no esforço para abrir o mercado interno de qualquer maneira e, acima tudo, aprovar novas medidas para transformar milhões de brasileiros e brasileiras em mão de obra barata. O arrocho salarial do pós-64 foi a primeira parte da selvageria trabalhista que Bolsonaro apoiou como deputado. Como todos sabem agora, um salário mínimo de fome e um mercado interno minúsculo são as duas pernas do subimperialismo.
As Forças Armadas que chegaram a ter um papel real em iniciativas favoráveis a soberania, inclusive na defesa da Petrobras, foram convertidas aos "irmãos do norte".
Alguma dúvida? 
* Paulo Moreira Leite é jornalista e integra a equipe do Jornalistas pela Democracia

* Paulo Moreira Leite

Longe de ser uma novidade, o engajamento do governo Jair Bolsonaro no esforço para derrubar o governo Nicolás Maduro marca a reconhecida tentativa de realinhar o Brasil numa postura anti-democrática e pró-imperialista que foi um traço fundamental da ditadura de 64 -- cujo legado o presidente pretende resgatar.
Capaz de oferecer aos golpistas articulados em torno Juan Guaidós as mesmas facilidades de renegociação da dívida venezuelana que foram negadas por Michel Temer em dezembro de 2018, nas vésperas de sua posse, Bolsonaro retoma a escancarada tradição entreguista da política externa brasileira. Numa primeira intervenção direta na situação interna do país, não só promete reescalonar o pagamento de uma dívida de US$ 791 milhões, mas também promete agir em organismos internacionais como o FMI e Banco Mundial para facilitar o auxílio a Venezuela -- caso  Guaidós venha a assumir assumir a cadeira de Maduro. (Folha, 1/2/2019).
Com a mesma visão do atual ministro de Relações Exteriores Eugênio Araújo, mas articulada de modo mais sofisticado e até erudito, o general Golbery do Couto e Silva foi a principal referência na diplomacia do regime militar de 64. Admitia ("sem tergiversações") que o Brasil deveria orientar sua força e riqueza como nação "em benefício de nossos irmãos do norte", a que "nos ligam tantos e tão tradicionais laços de amizade e de interesses, e em defesa ao mesmo tempo da civilização cristã, que é a nossa, contra o imperialismo comunista de origem exótica". Foi assim que o Brasil se afastou da Política Externa Independente, traçada nos governos Jânio Quadros-João Goulart, que recusava alinhamentos automáticos  na Guerra Fria e assumiu uma adesão absoluta aos EUA a partir do golpe de 64.  
O retrospecto histórico mostra o lamentável resultado dessa opção. É impossível descrever o chamado "ciclo de ditaduras militares" no Continente sem reconhecer o papel nefasto desempenhado pelos governos brasileiros como braço auxiliar dos Estados Unidos, que atuaram como uma verdadeira máquina de golpes e intervenções.
No ano seguinte à queda de Goulart, Castello Branco enviou 1100 homens para a República Dominicana, onde consolidaram um governo de confiança de Washington. Em 1971, militares brasileiros tiveram um papel decisivo na coleta de recursos e envio de armas para o golpe de Hugo Banzer, ponto de partida para uma prolongada instabilidade na Bolivia.  Apontado sem rodeios como "agente da CIA" por um veterano da organização, em sua passagem pela embaixada em Montevidéu o embaixador Pio Correa usava do posto para fazer pressões permanentes contra a democracia do país vizinho, derrubada em julho de 1973. Em setembro, na queda de Salvador Allende, montou-se uma comunhão de porões militares, num esquema que também iria se reproduzir na Argentina, três anos depois.   
Embelezado pelo mito  de Brasil-potência, o ativismo anti-democrático do regime militar era tão evidente e tão profundo que deu origem à tese de que, no papel de "irmão menor",  o Brasil  se tornara um país "subimperialista".
Conceito criado por Rui Mauro Marini, que fazia uma crítica do regime de um ponto de vista de esquerda, a noção "subimperialismo" sugeria  que o governo brasileiro  procurava reproduzir, junto a nossos vizinhos, uma versão subdesenvolvida do tratamento dos "nossos irmãos do Norte" -- e procurava ter direito, portanto, às migalhas correspondentes a posição subalterna.
No artigo "Breve Análise da Teoria do  Subimperialismo Brasileiro," o professor Antonio V. B. Mota Filho faz um debate de fundo com essa visão, concluindo que na prática manifestava apenas uma grande ilusão. De um lado, Washington sempre "resistiu a ceder maior espaço ao Brasil," lembra o professor. De outro, mesmo governos nascidos de golpes de Estado apoiados por Brasília jamais aceitaram por um regime de "dupla exploração", preferindo acertar-se diretamente com o verdadeiro patrão, aquele que manda, os Estados Unidos.
Quando, nas horas de crise,  o governo militar imaginou que iria receber auxílio de "nossos irmãos do norte", a reação foi oposta, lembrando que é impossível ignorar  as diferenças de natureza entre império e colônia.
O Brasil foi esmagado na crise da dívida externa, sem nenhuma medida especial de auxílio. Iniciativas autônomas do Estado brasileiro, que poderiam produzir efeitos benéficos no desenvolvimento, como os investimentos numa tecnologia própria de informática, como um programa nuclear autônomo, foram alvo de chantagem aberta e sabotagem subterrânea. As privatizações realizadas no governo Fernando Henrique Cardoso já estavam embutidas na cartilha empresarial do fim do regime militar.
O final foi melancólico: o país subimperialista transformou-se numa supercolônia. Numa rapina que, após 12 anos de resistência nos governos Lula e Dilma, em nossos dias chegou as empresas estatais, no esforço para abrir o mercado interno de qualquer maneira e, acima tudo, aprovar novas medidas para transformar milhões de brasileiros e brasileiras em mão de obra barata. O arrocho salarial do pós-64 foi a primeira parte da selvageria trabalhista que Bolsonaro apoiou como deputado. Como todos sabem agora, um salário mínimo de fome e um mercado interno minúsculo são as duas pernas do subimperialismo.
As Forças Armadas que chegaram a ter um papel real em iniciativas favoráveis a soberania, inclusive na defesa da Petrobras, foram convertidas aos "irmãos do norte".
Alguma dúvida? 

* Paulo Moreira Leite é jornalista e integra a equipe do Jornalistas pela Democracia