O hit do Carnaval 2019

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A alma e o corpo nu
A alma e o corpo nu

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Publicada em 06/02/2019 às 05:00:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Ano passado, Marce-
lo Crivella passou o 
Carnaval contrito, fechado em copas, não chegou nem perto da Marquês de Sapucaí. Este ano, o prefeito do Rio de Janeiro até considera dar o ar da graça, mas já avisou que não vai sambar. Pastor evangélico, comprometido com um projeto de poder nada beato, o alcaide não é ruim da cabeça. A indisposição com os confetes coloridos da balbúrdia denuncia, antes, uma confusão íntima, fruto da incompatibilidade entre a atividade exercida na administração pública e o ministério religioso.
É de gente como Crivella, ansiosa para conformar o mundo inteiro às próprias convicções, indiferente a usos e costumes, à revelia da Cultura e da Ciência, que a cantora Daniela Mercury tira onda na canção 'Proibido o Carnaval'. Acompanhada do colega Caetano Veloso, ela solta a verbo com ironia fina. Se menina veste rosa e menino veste azul, folião de verdade anda livre, leve e solto. Se calhar, no meio da algazarra, é capaz até de rasgar a roupa e brincar do mesmo modo como veio ao mundo, a alma e o corpo nu.
Já há quem aposte todas a fichas na música, eleita desde já o hit do Carnaval 2019. O ritmo contagiante, ditado pelos tambores da Bahia, mais o senso de oportunidade, com um discurso ancorado no olho do furacão, conclamando uma insurreição orgíaca, a única redenção no horizonte dos pecadores tentados pela folia, dão uma bela banana para a caretice emergente aqui e agora.
Tivesse meios, Crivella proibiria o Carnaval, sim senhor. Sem força política para extinguir a festa por decreto e de uma vez por todas, o prefeito carioca dá-se ao ridículo de adotar uma postura paternalista, estranha às próprias atribuições. Além de pretender confinar os tradicionais blocos de rua entre quatro paredes, sem qualquer explicação plausível, ainda se atreveu a recomendar moderação aos foliões. Felizmente, a fuzarca sempre assume vida própria, não é dócil como as ovelhas, não tem a mesma disposição obediente de um rebanho de gado.
Eu confesso que até ouvir 'Proibido o Carnaval', Daniela Mercury estava perdida em uma esquina de minha memória onde ainda ecoava 'O canto de uma cidade'. A atitude beligerante adotada depois, quando a artista assumiu a relação com uma jornalista, jamais me impressionou de verdade. Agora, o assanhamento do Povo de Deus, a afinidade dos programas bancados pela bancada da bíblia e a bancada da bala, me obrigam a brincar o Carnaval todo santo dia. Contra todas as aparências, eu e ela estamos do mesmo lado.

Ano passado, Marce- lo Crivella passou o  Carnaval contrito, fechado em copas, não chegou nem perto da Marquês de Sapucaí. Este ano, o prefeito do Rio de Janeiro até considera dar o ar da graça, mas já avisou que não vai sambar. Pastor evangélico, comprometido com um projeto de poder nada beato, o alcaide não é ruim da cabeça. A indisposição com os confetes coloridos da balbúrdia denuncia, antes, uma confusão íntima, fruto da incompatibilidade entre a atividade exercida na administração pública e o ministério religioso.
É de gente como Crivella, ansiosa para conformar o mundo inteiro às próprias convicções, indiferente a usos e costumes, à revelia da Cultura e da Ciência, que a cantora Daniela Mercury tira onda na canção 'Proibido o Carnaval'. Acompanhada do colega Caetano Veloso, ela solta a verbo com ironia fina. Se menina veste rosa e menino veste azul, folião de verdade anda livre, leve e solto. Se calhar, no meio da algazarra, é capaz até de rasgar a roupa e brincar do mesmo modo como veio ao mundo, a alma e o corpo nu.
Já há quem aposte todas a fichas na música, eleita desde já o hit do Carnaval 2019. O ritmo contagiante, ditado pelos tambores da Bahia, mais o senso de oportunidade, com um discurso ancorado no olho do furacão, conclamando uma insurreição orgíaca, a única redenção no horizonte dos pecadores tentados pela folia, dão uma bela banana para a caretice emergente aqui e agora.
Tivesse meios, Crivella proibiria o Carnaval, sim senhor. Sem força política para extinguir a festa por decreto e de uma vez por todas, o prefeito carioca dá-se ao ridículo de adotar uma postura paternalista, estranha às próprias atribuições. Além de pretender confinar os tradicionais blocos de rua entre quatro paredes, sem qualquer explicação plausível, ainda se atreveu a recomendar moderação aos foliões. Felizmente, a fuzarca sempre assume vida própria, não é dócil como as ovelhas, não tem a mesma disposição obediente de um rebanho de gado.
Eu confesso que até ouvir 'Proibido o Carnaval', Daniela Mercury estava perdida em uma esquina de minha memória onde ainda ecoava 'O canto de uma cidade'. A atitude beligerante adotada depois, quando a artista assumiu a relação com uma jornalista, jamais me impressionou de verdade. Agora, o assanhamento do Povo de Deus, a afinidade dos programas bancados pela bancada da bíblia e a bancada da bala, me obrigam a brincar o Carnaval todo santo dia. Contra todas as aparências, eu e ela estamos do mesmo lado.