Jamson Madureira na noite da cidade

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Publicada em 13/02/2019 às 06:35:00

 

* Gabi Etinger
Jamson Madureira é o artista mais hard core do território sergipano. Tocando e pintando, começou a produzir nos anos 90, com inspiração na linguagem underground dos fanzines xerocados.
Conheci seus desenhos e pinturas em 2005, quando comecei a frequentar galerias de arte em Aracaju. A liberdade do traçado irregular, cheio de ruídos, contrastes e texturas, me marcou. Era diferente da produção sergipana que eu tinha visto até aquele momento, repleta de características modernistas. Tão diferente que Madureira conseguiu colocar Sergipe no eixo Rio-São Paulo ainda em 2005, quando foi convidado para a mostra de novos talentos da Funarte, no Rio de Janeiro. Foi um instante que passou. Me pergunto o por que. A resposta renderia uma pesquisa e quem sabe um bom texto. 
Além das exposições, Madureira criava projetos gráficos naturalmente, atrelando arte e design em sua produção. Ele desenvolvia o material promocional e capas dos discos de suas bandas, com desenhos, pinturas, colagens e Xerox. O equilíbrio das composições, a hierarquia na leitura das informações e o estilo gráfico sujo em consonância com o conceito underground, é puro design. Seria Madureira o primeiro Artista-ETC por essas praias, com seus tentáculos fazedores de tantas artes? 
No início do ano 2000, cria a HQ Automazo, produzida artesanalmente e xerocada para distribuição. As estórias são um vagar alucinado nas entocas noturnas do centro da cidade e do pensamento. Sobe o cheiro de fritura. O clima do não-sol chega até você pelos olhos, ouvidos e nariz. Insônia, sexo e violência entintam o pincel dos artistas caídos. Uma viagem desvairada na qual mutantes mostram a real natureza das pessoas.
Depois da última exposição em 2010 - "Três", na galeria do Sesc, com Marcelo Roque e Tiago Campelo - Madureira sumiu da cena. Chegou a participar da primeira edição do Projeto Caju na Rua, em 2011. No ano seguinte, durante a segunda edição do projeto, estive com ele no galpão onde os cajus eram pintados. Eu produzindo o meu e ele fazendo retoques no dele. Trocamos figurinhas.  
A última vez que o vi foi em abril desse ano, no Sesc, na abertura da exposição 'O grande veleiro', sobre o artista sergipano Arthur Bispo do Rosário. Tal como Bispo, Madureira cria, cria e cria no seu mundo cercado por mutantes. Quando será visto mais uma vez? Por onde ele anda? Será que continua perambulando à noite, com sua máscara de rinoceronte?
* Gabi Etinger, artista visual e designer gráfico, em prefácio de 'Automazo' (2018).

* Gabi Etinger

Jamson Madureira é o artista mais hard core do território sergipano. Tocando e pintando, começou a produzir nos anos 90, com inspiração na linguagem underground dos fanzines xerocados.
Conheci seus desenhos e pinturas em 2005, quando comecei a frequentar galerias de arte em Aracaju. A liberdade do traçado irregular, cheio de ruídos, contrastes e texturas, me marcou. Era diferente da produção sergipana que eu tinha visto até aquele momento, repleta de características modernistas. Tão diferente que Madureira conseguiu colocar Sergipe no eixo Rio-São Paulo ainda em 2005, quando foi convidado para a mostra de novos talentos da Funarte, no Rio de Janeiro. Foi um instante que passou. Me pergunto o por que. A resposta renderia uma pesquisa e quem sabe um bom texto. 
Além das exposições, Madureira criava projetos gráficos naturalmente, atrelando arte e design em sua produção. Ele desenvolvia o material promocional e capas dos discos de suas bandas, com desenhos, pinturas, colagens e Xerox. O equilíbrio das composições, a hierarquia na leitura das informações e o estilo gráfico sujo em consonância com o conceito underground, é puro design. Seria Madureira o primeiro Artista-ETC por essas praias, com seus tentáculos fazedores de tantas artes? 
No início do ano 2000, cria a HQ Automazo, produzida artesanalmente e xerocada para distribuição. As estórias são um vagar alucinado nas entocas noturnas do centro da cidade e do pensamento. Sobe o cheiro de fritura. O clima do não-sol chega até você pelos olhos, ouvidos e nariz. Insônia, sexo e violência entintam o pincel dos artistas caídos. Uma viagem desvairada na qual mutantes mostram a real natureza das pessoas.
Depois da última exposição em 2010 - "Três", na galeria do Sesc, com Marcelo Roque e Tiago Campelo - Madureira sumiu da cena. Chegou a participar da primeira edição do Projeto Caju na Rua, em 2011. No ano seguinte, durante a segunda edição do projeto, estive com ele no galpão onde os cajus eram pintados. Eu produzindo o meu e ele fazendo retoques no dele. Trocamos figurinhas.  
A última vez que o vi foi em abril desse ano, no Sesc, na abertura da exposição 'O grande veleiro', sobre o artista sergipano Arthur Bispo do Rosário. Tal como Bispo, Madureira cria, cria e cria no seu mundo cercado por mutantes. Quando será visto mais uma vez? Por onde ele anda? Será que continua perambulando à noite, com sua máscara de rinoceronte?

* Gabi Etinger, artista visual e designer gráfico, em prefácio de 'Automazo' (2018).