‘Corujões’: sistema que mantém a Grande Aracaju conectada nas madrugadas

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Publicada em 19/02/2019 às 04:13:00

Milton Alves  Júnior
Se for botar na ponta do lápis, são ao menos 710 quilômetros de trajeto percorrido todas as madrugadas. Entre às 0h e 4h, interligado diretamente ao Terminal da Atalaia, na zona Sul da capital sergipana, Aracaju, o sistema de transporte coletivo oferta à centenas de passageiros a oportunidade de seguir ou retornar do trabalho através dos populares ônibus corujões. Com exceção de épocas festivas como o mês de junho, dezembro e primeira quinzena de janeiro, diariamente são 12 linhas que circulam entre as cidades de Aracaju, Nossa Senhora do Socorro, e São Cristóvão. Um sistema pontual, rápido e com decadentes índices de assaltos.


Para comprovar a tranquilidade desse sistema proporcionado nas madrugadas, dados apresentados pela Secretaria de Estado da Segurança Pública de Sergipe (SSP/SE) indicam que o número de ocorrências nos horários comerciais - das 6h às 22h -, foi de 43. Nenhum deles no período em que circulam os corujões. Esses dados são referentes aos primeiros 45 dias desse ano. Esse levantamento é compartilhado pelo Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros de Aracaju (Setransp), o qual avalia o cenário como reflexo dos dados positivos já contabilizados no ano passado quando foi possível se deparar com uma redução real de 68,80% no índice de assaltos. Essa porcentagem é um comparativo entre 2016 e 2018.

A contabilidade da SSP indica que no ano passado foram 508 ocorrências, onde 12 foram registradas nas madrugadas. Sistema seguro, passageiro satisfeito. Estudante da Universidade Federal de Sergipe (UFS), localizado no Conjunto Rosa Elze, município de São Cristóvão, Silas Carvalho, de 34 anos, diz necessitar do serviço todos os dias quando retorna do trabalho. Vigilante, após o expediente acadêmico ele garante se sentir à vontade ao retornar para casa após mais um dia de serviço. Além de garantir nunca ter presenciado uma ação criminosa, ele enaltece a oportunidade de gastar menos de 25 minutos entre o Conjunto Augusto Franco, zona Sul de Aracaju, e o Eduardo Gomes, em São Cristóvão.


“Costumo dizer que minha vida tem se tornado em um boomerang. Eu saio da aula que fica perto da minha casa, corto Aracaju, e vou trabalhar no outro extremo. Na ida eu vou de coletivo tradicional, mas na volta eu venho de corujão e gosto muito. Poucas pessoas, tranquilo, e o melhor, bem rápido pela falta de tantos carros nas ruas. Medo de assalto todos nós temos, mas nunca me tornei vítima, nem presenciei nada”, declarou. Outro aspecto positivo apresentado pelo contribuinte está na possibilidade de, nas madrugadas, descer em locais fora dos abrigos de ônibus. Essa medida é aprovada pela Prefeitura de Aracaju, por intermédio da Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT), desde que o ônibus não necessite mudar o respectivo itinerário.

“Conhecemos os motoristas; sempre muito atenciosos. Quando estamos cansados eles nos deixam dormir, e até avisam quando está chegando perto de onde desço. Quando estamos ainda na ativa ficam puxando conversa sobre vários assuntos. Sei que a demanda de passageiros é pequena, ainda mais em Aracaju, e justamente por ter essa consciência eu agradeço pelo serviço disponibilizado”, disse. Ao JORNAL DO DIA a SMTT informou que o órgão possui uma ouvidoria que costuma protocolar reclamações e sugestões dos passageiros. Desde o mês de setembro do ano passado a central não recebe nenhuma queixa sobre o serviço em circulação nas madrugadas.

Reconhecimento - Na avaliação do presidente do Setransp, Alberto Almeida, a manutenção operacional do sistema cumpre a missão do transporte coletivo que é, dentre outras atribuições, atender aos usuários do sistema que ajudam a manter as cidades em funcionamento quando milhares estão dormindo. Além do exemplo protagonizado por Silas Carvalho, o representante do Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros indica que a maioria dos passageiros usuários dos corujões é formada por garçons, cozinheiras, além de profissionais que atuam em pizzarias e redes de hotéis e pousadas.

 

“Existe um grupo de profissionais tanto na SMTT quanto no Setransp que se dedica justamente para atende às demandas dos corujões. Temos conhecimento de que o índice de passageiros nesse turno é bem menor que o registrado nos horários comerciais, mas não podemos deixar desamparados aqueles que seguem trabalhando quando a cidade está recarregando as energias”, afirmou. Por não apresentar demanda para essa faixa horária, o município da Barra dos Coqueiros é a única cidade pertencente à Região Metropolitana que não dispõe do serviço. Conforme destacado pelo Setransp, ela pode ser inserida mediante comprovação de necessidade.

 

“O sistema é para todos e está disponível para agregar com o maior zelo todas as novas rotas que demonstrem necessidade real de circulação dos corujões. A nossa meta é continuar atendendo bem os passageiros e garantir o serviço logístico 24 horas por dia”, destacou Alberto Almeida. As linhas em circulação são: 1003C – B. Industrial / Zona Sul; 1003B – B. Industrial / Terminal Marcos Freire; 1003A – B. Industrial / Rosa Elze; 1002C – BR-235 – M. Freire I; 1002B – BR-235 – Rosa Elze; 1002A – BR235 – Atalaia; 1001C – Marechal Rondon / Mercado Central; 1001B – Marechal Rondon / Residencial Costa Nova; 1001A – Marechal Rondon / Piabeta; 1003 – Atalaia / Bugio; 1002 – Atalaia / Fernando Collor; e 1001 – Atalaia / Eduardo Gomes.

 

Estoquista de supermercado, o aracajuano Wendell Bispo é outro cidadão beneficiado pelo serviço. Em caso semelhante ao vivenciado pelo estudante universitário, ele inicia as atividades no final da noite e segue atuando até às 4h. O passageiro declarou ao JD possuir automóvel, mas diante da agilidade e da comodidade, opta por utilizar o corujão. “Confesso que acho até mais seguro. Saio de casa por volta das 21h, começo a trabalhar às 22h, e saio no final da madrugada. Pego um dos últimos veículos em circulação até o retorno dos demais ônibus das garagens”, disse.

 

Wendell reside na Avenida Maranhão, zona Norte, e utiliza a linha 1003 – CORUJÃO 03. Somente esse itinerário percorre 40,61 km. “Além do mais, como trabalho pegando peso e organizando produtos, o cansaço é normal, faz parte da nossa rotina e tem dias que realmente não conseguiria dirigir ou conduzir uma moto. O corujão realmente é uma benção, e fico satisfeito pelo serviço prestado. Como o ônibus não é cheio, dá até para esticar as pernas antes de chegar em casa”, concluiu. O serviço nas madrugadas é realizado desde 2013 quando foi reativado. Em 2017, 30 ônibus novos foram adquiridos e inseridos no sistema.

 

FOTOS: WANDYCLER JÚNIOR