TERMINAL DA ATALAIA: POLO ECONÔMICO QUE MOVE OS SONHOS DAS PESSOAS

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Publicada em 17/02/2019 às 01:21:00

Milton Alves  Júnior
Não é fácil lutar contra o desemprego. Em um contexto social onde apenas no Brasil o índice de trabalhadores sem ocupação empregatícia alcança a casa dos 13 milhões, se desdobrar diante da missão de conquistar renda suficiente para manter o mínimo da qualidade de vida familiar exige, sobretudo, oportunidade e disposição. Seguindo nessa linha de raciocínio, em Aracaju centenas de trabalhadores microempreendedores individuais aproveitam a alta estação para ampliar a renda familiar através do comércio. Sem o apoio logístico de veículos particulares, a ‘carta coringa’ desses profissionais autônomos é o transporte coletivo que diariamente circula entre todos os municípios que compõem a região metropolitana da capital sergipana, inclusive, durante as madrugadas com os populares ônibus ‘corujões’.

 

Instalado há menos de 800 metros do principal ponto turístico do Estado de Sergipe – a Orla de Atalaia, na zona Sul -, o Terminal de Integração da Atalaia se transforma protagonista desse sistema durante os finais de semana. Apontado pelos próprios usuários do transporte coletivo como o ponto do ‘fluxo dos fluxos’, o espaço é capaz de receber em um mesmo instante 16 veículos, os quais, juntos, conduzem até 1.104 passageiros. Esse amplo movimento de vendedores transparece com fidelidade o nível de influência do transporte público coletivo no dia-a-dia daqueles que seguem batalhando por dias melhores. A fim de compreender na prática a representatividade operacional do sistema na vida das pessoas, o JORNAL DO DIA acompanhou a rotina de trabalho das autônomas Maria Helena e Rivanda Santos.


Moradora do conjunto Albano Franco, em Nossa Senhora do Socorro, todos os sábados e domingos entre os meses de setembro e fevereiro, Helena, de 58 anos, segue com o filho e uma nora para a zona Sul da capital sergipana. Antes mesmo da temperatura apontar 28° nos termômetros, por volta das 5h50, a família percorre uma distância de 50 metros entre a respectiva residência e o abrigo de ônibus mais próximo, e, em seguida, dá início ao trajeto de 42 quilômetros. É uma maratona. Conforme a vendedora destaca, além da força de espírito em retornar para casa com o dinheiro para quitar algumas pendências, a solidariedade de motoristas e cobradores contribui para seguir na luta.

 

“Meu filho e minha nora são jovens, precisam estudar e vez ou outra eles não podem me ajudar nesse percurso. Quando isso acontece todos os cobradores me ajudam de forma paciente a subir com os produtos e descer lá no terminal da Atalaia. Acho a distância longe, mas sinceramente se não fosse a linha 040 – Marcos Freire / Atalaia -, a situação da minha família seria pior porque não temos condições de comprar um carro com engate e carrocinha”, disse. Os relatos de Maria Helena se confunde com o de Rivanda Santos. Moradora do bairro Industrial, zona Norte de Aracaju, ela busca sempre acessar os primeiros veículos em circulação com destino ao ponto oposto da cidade.

 

Comerciante de sanduiche natural, suco e geladinho – também conhecido como: ‘sacolé’ -, a aracajuana informou já ter se deslocado para a região praiana utilizando bicicleta, mas desistiu da ação por motivos físicos. “Não estou e nunca estive assim tão acima do peso, a questão mesmo era o cansaço de pedalar de volta para casa depois de tanto andar na areia fofa. Já sou ‘sessentona’ e não tenho mais esse pique todo. Uma economia que no final das contas nunca valeu a pena; aprendi isso na prática. Nesses dias de trabalho pego o ônibus bem perto de casa e já desço aqui no Terminal da Atalaia”, declarou. Questionada sobre o movimento intenso de ambulantes no mesmo paradeiro, Rivanda Santos pontuou:

 

“aqui é o ‘fluxo dos fluxos’ (risos). Depois que fiquei desempregada e me tornei vendedora ambulante percebi o quanto muitas pessoas são solidárias dentro e fora dos ônibus e terminais de integração. Até hoje, ao longo desses mais de 10 anos de venda informal, nunca, em momento algum, fui desrespeitada. Talvez se eu não tivesse o amparo do sistema de ônibus coletivo possivelmente já teria buscado outra forma de ganhar dinheiro. Não conseguiria manter o ritmo”. Para o Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros do Município de Aracaju (Setransp), por se tratar de um serviço de caráter essencial, conforme reza a própria Constituição Federal, em seu artigo 30 – que defende o direito de ir e vir dos cidadãos -, o sistema deve intensificar as ações humanistas.


Paralelo ao progresso na vida dos usuários, o sistema possui ainda como meta contribuir no desenvolvimento das cidades. Dados apresentados ao JORNAL DO DIA pela Federação dos Transportes indicam que o Brasil é formado por capitais que exigem maior mobilidade e formam a base industrial do país – nelas residem 60% da produção industrial bruta e concentram-se os grandes núcleos produtivos –, gerando a necessidade cada vez maior de sistemas de transporte que garantam uma boa qualidade de vida à população. Alberto Almeida, presidente do Setransp, compreende a importância do sistema na operacionalidade dos vendedores autônomos.

 

“É gratificante e ao mesmo tempo desafiador nos deparar com relatos como esses dos trabalhadores que através do transporte coletivo batalham contra o desemprego. A nossa meta é ampliar as nossas ações para que o sistema permaneça se desenvolvendo e interferindo positivamente na vida de cada cidadão. Esse avanço somente será possível se for humanizado”, declarou. Por ano, a fim de qualificar a relação pública entre funcionários e passageiros, o Setransp realiza treinamentos e cursos profissionalizantes destinados, em especial, aos motoristas e cobradores. Quanto à importância do terminal de integração da Atalaia para o fortalecimento do mecanismo econômico regional, Alberto Almeida reconheceu o espaço como ‘final de linha’ para muitos passageiros, e destacou os demais instalados na região metropolitana.

 

“O movimento realmente no Terminal da Atalaia durante os finais de semana é sempre agitado não apenas pelos vendedores que lá desembarcam e seguem para a Orla, como também pelos próprios banhistas que buscam o local para amenizar a temperatura do verão. Antes dessas pessoas chegarem ao este paradeiro, muitas possivelmente passaram por outros terminais”, disse. Sobre o sistema realizado na Região Metropolitana de Aracaju Alberto Almeida destacou: “independentemente de onde o passageiro reside, o sistema integrado possibilita levá-lo de um extremo ao outro pagando uma só tarifa, e é justamente aí que conseguimos contribuir na logística dos trabalhadores, sejam eles autônomos ou que atuam em bares, restaurantes e na rede de hotelaria”.

 

Tempo – Paralelo ao conforto presente nos veículos que circulam com a linha 007 - Atalaia / Bairro Industrial, a comerciante Rivanda Santos enalteceu o tempo gasto com o transporte coletivo. Cálculos pessoais indicam que ela gastava em média duas horas e 20 minutos entre os deslocamentos de bicicleta. Com o serviço público coletivo o tempo de translado cai para uma hora e dez minutos. Como se não bastasse a comodidade em minimizar os esforços físicos, a passageira diz utilizar essa economia de tempo para intensificar as vendas e ampliar a renda arrecadada em cada novo dia de batalha contra o desemprego.

 

“Percebi que essa minha economia de dinheiro com a passagem não estava valendo a pena. Para completar, constatei na prática que optando pelo ônibus minha produtividade aumentou e a arrecadação também. Subo no ônibus das 5h30 ou no máximo 6h, e volto geralmente na condução das 16h30”, declarou a passageira que concluiu afirmando: “se parar para observar que invisto R$8 por dia para subir e descer do ônibus praticamente na porta da minha casa... não tenho o que questionar; tenho apenas o que agradecer”.

 

 FOTOS SÃO DE: WANDYCLER JÚNIOR