TRÂNSITO, GUERRA E SOCIEDADE

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Publicada em 23/02/2019 às 07:36:00

 

* Manoel Moacir Costa Macêdo
Conceitualmente, o trânsito significa a utilização das vias por pessoas, veículos e animais, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga ou descarga. O trânsito brasileiro, longe de ser um ambiente de tráfego,  transformou-se numa arena de contradições sociais, exteriorizando poder, desigualdade, mando e violência. Um simples olhar, identifica como uma selva mecânica habitada por seres de aço em disputas cruéis e irracionais. Um ganha-perde intermitente. Um demolidor banal de vidas, sem pudor perante a impunidade e os valores da civilização. O significado do comportamento do brasileiro. O jeitinho de burlar a legalidade e a carência de educação e sociabilidade. Uma face da nossa herança e desigualdade. 
Diferente da realidade do trânsito, a sociedade brasileira possui exemplos de convivência entre os diferentes. Valores que qualificam a personalidade da sua gente como alegre e tolerante. A África moldou a nossa cara, cor, comida e festividade. O índio cunhou a rebeldia e o amor aos bens da natureza. Aqui convivem harmonicamente portugueses e brasileiros sem o ódio entre colonizador e colonizado. Árabes e judeus são vistos com harmonia e unidos pela religiosidade. Música, arte, cor, gênero, futebol, suor, sol, cerveja e morena de olhos verdes, definem o Brasil e a sua diversidade. 
Essa brasilidade harmoniosa transfigura-se em trevas e escuridão na brutalidade do trânsito. A rua, espaço democrático, transforma-se em vias autoritárias de automotivos. A casa, ambiente fraterno e familiar, passa para o carro, como propriedade privada e expressão de poder e arrogância. O motorista, em casa é pai, filho, esposo, irmão e amigo, se transforma em egoísta no modo de dirigir na rua. Como explicar esse bestial comportamento do brasileiro no trânsito?  Uma possível resposta, encontra-se no estudo do antropólogo Roberto da Matta, publicado no livro "Fé em Deus e Pé na Tábua", sobre o trânsito brasileiro. Diz ele: "[...] a nossa história projeta-se para o presente, como o bonde puxado a burro, a carruagem e o carro de boi substituíram gradualmente o transporte individual nas cadeirinhas discriminatórias das elites e transformaram-se no ônibus e no automóvel, demonstrando seu desdém pelo transporte público, e o pendor pelo viés hierárquico e discriminatório [...]".
No trânsito, todos estão engajados numa luta de todos contra todos e a única regra é o salve-se quem puder. Predomina a desobediência aos fundamentos legais e de bem-viver, a corrupção das normas e o desrespeito ao ser humano. Nessa arena, aflora a guerra, a competição, a violência e a vantagem. As ruas são dos motores. Elas não são dos humanos. Os motorizados se qualificam como superiores e reproduzem o modelo de transitar imperial de "Carlota Joaquina, a esposa do Rei Dom João VI". Os motoristas usam o carro como um objeto de superioridade social, e a rua como a sua própria casa. Não devem obediência às regras de trânsito, aos princípios constitucionais de ir e vir, ao gosto de caminhar, e aos freios da convivência social. Os crimes no trânsito, não devem ser tipificados como inafiançáveis, mas como atos de barbárie. Não é acidente, mas assassinato. As vidas ceifadas não podem ficar impunes. 
Morrem ano após ano, em acidentes no trânsito, aproximadamente cinquenta mil brasileiros e quase duzentas mil internações. O Brasil é o quarto País do mundo com maior número de mortes no trânsito, atrás da China, Índia e Nigéria, sendo que os dois primeiros, possuem uma população maior que a brasileira.  O trânsito brasileiro mata mais do que a guerra da Síria. No Estado de Sergipe, em anos recentes, morreram em consequência do trânsito, em média, mais do que uma pessoa por dia. As mortes no trânsito são superadas somente por homicídios. Diz o jurista e professor Flávio Gomes: "[...] o Brasil somente deixará de ser um país pobre, ignorante, corrupto e violento, também no trânsito, quando as suas instituições essenciais deixarem de seguir a lógica [de uma sociedade selvagem], para se alinhar aos países evoluídos, que contam em média com cinco a seis mortes para cada cem mil habitantes [...]". Mas, será preciso um grande engajamento do Estado e da sociedade.
* Manoel Moacir Costa Macêdo, Engenheiro Agrônomo e PhD pela University of Sussex, Brigthon, Inglaterra

No trânsito, todos estão engajados numa luta de todos contra todos e a única regra é o salve-se quem puder. Predomina a desobediência aos fundamentos legais e de bem-viver, a corrupção das normas e o desrespeito ao ser humano. Nessa arena, aflora a guerra, a competição, a violência e a vantagem. As ruas são dos motores. Elas não são dos humanos

* Manoel Moacir Costa Macêdo

Conceitualmente, o trânsito significa a utilização das vias por pessoas, veículos e animais, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga ou descarga. O trânsito brasileiro, longe de ser um ambiente de tráfego,  transformou-se numa arena de contradições sociais, exteriorizando poder, desigualdade, mando e violência. Um simples olhar, identifica como uma selva mecânica habitada por seres de aço em disputas cruéis e irracionais. Um ganha-perde intermitente. Um demolidor banal de vidas, sem pudor perante a impunidade e os valores da civilização. O significado do comportamento do brasileiro. O jeitinho de burlar a legalidade e a carência de educação e sociabilidade. Uma face da nossa herança e desigualdade. 
Diferente da realidade do trânsito, a sociedade brasileira possui exemplos de convivência entre os diferentes. Valores que qualificam a personalidade da sua gente como alegre e tolerante. A África moldou a nossa cara, cor, comida e festividade. O índio cunhou a rebeldia e o amor aos bens da natureza. Aqui convivem harmonicamente portugueses e brasileiros sem o ódio entre colonizador e colonizado. Árabes e judeus são vistos com harmonia e unidos pela religiosidade. Música, arte, cor, gênero, futebol, suor, sol, cerveja e morena de olhos verdes, definem o Brasil e a sua diversidade. 
Essa brasilidade harmoniosa transfigura-se em trevas e escuridão na brutalidade do trânsito. A rua, espaço democrático, transforma-se em vias autoritárias de automotivos. A casa, ambiente fraterno e familiar, passa para o carro, como propriedade privada e expressão de poder e arrogância. O motorista, em casa é pai, filho, esposo, irmão e amigo, se transforma em egoísta no modo de dirigir na rua. Como explicar esse bestial comportamento do brasileiro no trânsito?  Uma possível resposta, encontra-se no estudo do antropólogo Roberto da Matta, publicado no livro "Fé em Deus e Pé na Tábua", sobre o trânsito brasileiro. Diz ele: "[...] a nossa história projeta-se para o presente, como o bonde puxado a burro, a carruagem e o carro de boi substituíram gradualmente o transporte individual nas cadeirinhas discriminatórias das elites e transformaram-se no ônibus e no automóvel, demonstrando seu desdém pelo transporte público, e o pendor pelo viés hierárquico e discriminatório [...]".
No trânsito, todos estão engajados numa luta de todos contra todos e a única regra é o salve-se quem puder. Predomina a desobediência aos fundamentos legais e de bem-viver, a corrupção das normas e o desrespeito ao ser humano. Nessa arena, aflora a guerra, a competição, a violência e a vantagem. As ruas são dos motores. Elas não são dos humanos. Os motorizados se qualificam como superiores e reproduzem o modelo de transitar imperial de "Carlota Joaquina, a esposa do Rei Dom João VI". Os motoristas usam o carro como um objeto de superioridade social, e a rua como a sua própria casa. Não devem obediência às regras de trânsito, aos princípios constitucionais de ir e vir, ao gosto de caminhar, e aos freios da convivência social. Os crimes no trânsito, não devem ser tipificados como inafiançáveis, mas como atos de barbárie. Não é acidente, mas assassinato. As vidas ceifadas não podem ficar impunes. 
Morrem ano após ano, em acidentes no trânsito, aproximadamente cinquenta mil brasileiros e quase duzentas mil internações. O Brasil é o quarto País do mundo com maior número de mortes no trânsito, atrás da China, Índia e Nigéria, sendo que os dois primeiros, possuem uma população maior que a brasileira.  O trânsito brasileiro mata mais do que a guerra da Síria. No Estado de Sergipe, em anos recentes, morreram em consequência do trânsito, em média, mais do que uma pessoa por dia. As mortes no trânsito são superadas somente por homicídios. Diz o jurista e professor Flávio Gomes: "[...] o Brasil somente deixará de ser um país pobre, ignorante, corrupto e violento, também no trânsito, quando as suas instituições essenciais deixarem de seguir a lógica [de uma sociedade selvagem], para se alinhar aos países evoluídos, que contam em média com cinco a seis mortes para cada cem mil habitantes [...]". Mas, será preciso um grande engajamento do Estado e da sociedade.

* Manoel Moacir Costa Macêdo, Engenheiro Agrônomo e PhD pela University of Sussex, Brigthon, Inglaterra