Como um amor de Carnaval

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Alex e Márcio, a dupla original da naurÊa
Alex e Márcio, a dupla original da naurÊa

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Publicada em 01/03/2019 às 22:35:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O calor nos metais de 
'Matinê' (2017), single 
que celebrou os 16 anos da naurÊa, é o principal valor pronunciado pela trajetória da banda. Para além de qualquer questão formal, ultrapassado o lirismo e a fuleiragem, resta ali uma impressão física de cores quentes, a mais alegre, feito confete de papel picado. O auge criativo do conjunto era passado, mas a reunião da turma ainda rendia um caldo muito bom. 
Ninguém esperava, portanto, pela renúncia de Alex Sant'Anna, que entregou os pontos e pediu as contas, algum tempo depois. Márcio de Dona Litinha acusou o golpe em breve comunicado divulgado há poucos dias, via redes sociais. Ele garante que a naurÊa vive, embora esteja muito bem longe dos palcos e não demonstre disposição para dar a cara a tapa tão cedo, pondo fim a um já prolongado período sabático. 
Por hora, o futuro da banda é uma grande incógnita. A única certeza acima de qualquer dúvida é a urgência de sua música, registrada numa discografia das mais ricas da aldeia - livre, leve e solta, como um amor de Carnaval.
Carnavalizando a cidade - A única constante nas minhas lembranças de Carnaval é o bucho inchado da naurÊa. Antes destes arruaceiros, o artista da terra parecia conformado a um status de gosto duvidoso, ufanista e xenófobo, envergonhado das promessas adormecidas no calor das próprias vergonhas. Era um tempo de tambores desanimados. Os de minha geração não sabiam ainda o que era uma festa boa de verdade.
Foram Marcio de Dona Litinha e Alex Sant'Anna os primeiros a bater tambor com força por estas bandas. Forró mais um pouquinho de tudo. Circular Cidade (2003), o disco de estréia da naurÊa, se prestou a um exercício auto referencial, tendo em vista um manifesto criativo nunca declarado em documento formal. Importava celebrar a carne.
Guitarra, sanfona e zabumba em pé de igualdade. A essa altura do campeonato, pode até soar meio surrado. A adequação de temas próprios do cancioneiro nordestino aos acentos da música pop, contudo, foi acolhida com espanto e entusiasmo. Conquistou um público apaixonado e fiel, que segue a banda até hoje. E abriu a cancela para a juventude carnavalizar aqui mesmo, sob qualquer pretexto, em qualquer época do ano, acordando as madrugadas da cidade.
Samba do Arnesto, Mestre Madruguinha, e toda a música pélvica/rebolativa realizada na aldeia Serigy é credora do impulso festivo e desaforado da naurÊa. As bandas supracitadas, por exemplo, podem até beber em fontes de inspiração diversas, com inflexão e méritos próprios. Mas foi o humor escrachado da naurÊa que nos permitiu a voltar a sorrir com todos os dentes.

O calor nos metais de  'Matinê' (2017), single  que celebrou os 16 anos da naurÊa, é o principal valor pronunciado pela trajetória da banda. Para além de qualquer questão formal, ultrapassado o lirismo e a fuleiragem, resta ali uma impressão física de cores quentes, a mais alegre, feito confete de papel picado. O auge criativo do conjunto era passado, mas a reunião da turma ainda rendia um caldo muito bom. 
Ninguém esperava, portanto, pela renúncia de Alex Sant'Anna, que entregou os pontos e pediu as contas, algum tempo depois. Márcio de Dona Litinha acusou o golpe em breve comunicado divulgado há poucos dias, via redes sociais. Ele garante que a naurÊa vive, embora esteja muito bem longe dos palcos e não demonstre disposição para dar a cara a tapa tão cedo, pondo fim a um já prolongado período sabático. 
Por hora, o futuro da banda é uma grande incógnita. A única certeza acima de qualquer dúvida é a urgência de sua música, registrada numa discografia das mais ricas da aldeia - livre, leve e solta, como um amor de Carnaval.

Carnavalizando a cidade - A única constante nas minhas lembranças de Carnaval é o bucho inchado da naurÊa. Antes destes arruaceiros, o artista da terra parecia conformado a um status de gosto duvidoso, ufanista e xenófobo, envergonhado das promessas adormecidas no calor das próprias vergonhas. Era um tempo de tambores desanimados. Os de minha geração não sabiam ainda o que era uma festa boa de verdade.
Foram Marcio de Dona Litinha e Alex Sant'Anna os primeiros a bater tambor com força por estas bandas. Forró mais um pouquinho de tudo. Circular Cidade (2003), o disco de estréia da naurÊa, se prestou a um exercício auto referencial, tendo em vista um manifesto criativo nunca declarado em documento formal. Importava celebrar a carne.
Guitarra, sanfona e zabumba em pé de igualdade. A essa altura do campeonato, pode até soar meio surrado. A adequação de temas próprios do cancioneiro nordestino aos acentos da música pop, contudo, foi acolhida com espanto e entusiasmo. Conquistou um público apaixonado e fiel, que segue a banda até hoje. E abriu a cancela para a juventude carnavalizar aqui mesmo, sob qualquer pretexto, em qualquer época do ano, acordando as madrugadas da cidade.
Samba do Arnesto, Mestre Madruguinha, e toda a música pélvica/rebolativa realizada na aldeia Serigy é credora do impulso festivo e desaforado da naurÊa. As bandas supracitadas, por exemplo, podem até beber em fontes de inspiração diversas, com inflexão e méritos próprios. Mas foi o humor escrachado da naurÊa que nos permitiu a voltar a sorrir com todos os dentes.