O Solar de Apipucos

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Publicada em 02/03/2019 às 14:23:00

 

Visitamos o Solar de Apipucos. Ele mesmo uma joia da arquitetura do ciclo açucareiro, o casarão do século XIX abriga o precioso Museu Magdalena e Gilberto Freyre e sedia a Fundação Gilberto Freyre, com quase tudo sobre a vida e a obra do sociólogo autor de "Casa-Grande & Senzala".
Em 1940, Gilberto adquiriu a propriedade do Engenho Dois Irmãos, na zona norte do Recife. Mandou restaurá-la e ali passou a residir após seu casamento com a jovem Maria Magdalena, em 1941. Ele já era um cientista e escritor famoso e tinha 41 anos. Ela, uma paraibana também de família abastada e que estudou educação física, tinha 20.
"À ilha do litoral do Rio de Janeiro (emprestada pelo casal Austregésilo de Athayde para a lua de mel) se seguiria a casa de Apipucos. Por um lado, outra quase ilha, cercada de mata por todos os lados, habitada por um casal que passou a ser inexatamente considerado solitário. Inexatamente porque seria muito mais solidário com os demais brasileiros do que distanciado deles", assim descreveu o próprio Gilberto Freyre na autobiografia "De Menino a Homem: de mais de trinta e de quarenta, de sessenta e mais anos".
No casarão, escreveu dois terços de sua variada obra composta por cerca de 30 livros. Escrevia à mão e, dizem, sentado numa poltrona, com a perna espichada sobre o braço do móvel.
"Casa-Grande & Senzala", a obra icônica de 1933, que rechaça as doutrinas racistas de branqueamento do Brasil, ele escreveu entre Lisboa e Stanford, a famosa universidade da Califórnia onde fez o doutorado. Mais jovem, Gilberto Freyre já havia estudado nos Estados Unidos, onde se graduou na Universidade de Baylor, no Texas.
Mas voltando a Apipucos, ele preservou a estrutura original do imóvel que foi casa-sede de engenho, e o enriqueceu com um acervo valioso de obras de arte e objetos pessoais, além da própria biblioteca.  
No primeiro andar o visitante é recebido por incríveis painéis de azulejos portugueses, resgatados em leilão do acervo de uma igreja demolida em Lisboa e trazidos pelo próprio Gilberto Freyre de Portugal. O que se diz é que os painéis não poderiam sair do país e o governo português só o permitiu por se tratar de comprador tão ilustre.
Aliás, uma das peças emblemáticas do museu é a edição com a capa em prata de "Os Lusíadas" presenteada pelo governo de Portugal a Gilberto Freyre. Somente outro brasileiro ganhou a rara edição, o presidente Getúlio Vargas, e o próprio Freyre foi encarregado de trazer para ele o valioso presente.
Ainda no térreo estão a sala de estar, a sala de jantar, o terraço onde Freyre recebia seus convidados, a biblioteca com mais de 40 mil volumes e a poltrona onde lia e escrevia.
São antiquíssimos e pesados móveis de jacarandá, telas das melhores fases de Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro, Pancetti, Cícero Dias e Lula Cardoso Ayres. E também uma preciosa coleção de objetos artísticos de diversos países que Gilberto visitou.
Esse magnífico acervo já foi visto e tocado por visitantes como Aldous Huxley, John dos Passos, Roberto Rosselini, Robert Kennedy, Albert Camus e Arnold Toynbee, entre outros.
No segundo andar, estão os quartos do casal, do filho Fernando Freyre (já morto) e da filha Sonia Freyre, que hoje preside a Fundação. 
Ciente da riqueza do conjunto que formou ao longo da sua trajetória - casa e o que ela abriga - o escritor preparou o imóvel pra ser a Fundação que hoje preserva e propaga sua obra.
A Fundação existe desde 1987, quando Gilberto Freyre morreu, e teve como presidente a viúva Magdalena, morta dez anos depois. A instituição vai passar por uma completa recuperação física e documental e as obras se iniciam no mês de março. A primeira etapa da restauração será custeada pelo BNDES.

Marcos Cardoso

Visitamos o Solar de Apipucos. Ele mesmo uma joia da arquitetura do ciclo açucareiro, o casarão do século XIX abriga o precioso Museu Magdalena e Gilberto Freyre e sedia a Fundação Gilberto Freyre, com quase tudo sobre a vida e a obra do sociólogo autor de "Casa-Grande & Senzala".
Em 1940, Gilberto adquiriu a propriedade do Engenho Dois Irmãos, na zona norte do Recife. Mandou restaurá-la e ali passou a residir após seu casamento com a jovem Maria Magdalena, em 1941. Ele já era um cientista e escritor famoso e tinha 41 anos. Ela, uma paraibana também de família abastada e que estudou educação física, tinha 20.
"À ilha do litoral do Rio de Janeiro (emprestada pelo casal Austregésilo de Athayde para a lua de mel) se seguiria a casa de Apipucos. Por um lado, outra quase ilha, cercada de mata por todos os lados, habitada por um casal que passou a ser inexatamente considerado solitário. Inexatamente porque seria muito mais solidário com os demais brasileiros do que distanciado deles", assim descreveu o próprio Gilberto Freyre na autobiografia "De Menino a Homem: de mais de trinta e de quarenta, de sessenta e mais anos".
No casarão, escreveu dois terços de sua variada obra composta por cerca de 30 livros. Escrevia à mão e, dizem, sentado numa poltrona, com a perna espichada sobre o braço do móvel.
"Casa-Grande & Senzala", a obra icônica de 1933, que rechaça as doutrinas racistas de branqueamento do Brasil, ele escreveu entre Lisboa e Stanford, a famosa universidade da Califórnia onde fez o doutorado. Mais jovem, Gilberto Freyre já havia estudado nos Estados Unidos, onde se graduou na Universidade de Baylor, no Texas.
Mas voltando a Apipucos, ele preservou a estrutura original do imóvel que foi casa-sede de engenho, e o enriqueceu com um acervo valioso de obras de arte e objetos pessoais, além da própria biblioteca.  
No primeiro andar o visitante é recebido por incríveis painéis de azulejos portugueses, resgatados em leilão do acervo de uma igreja demolida em Lisboa e trazidos pelo próprio Gilberto Freyre de Portugal. O que se diz é que os painéis não poderiam sair do país e o governo português só o permitiu por se tratar de comprador tão ilustre.
Aliás, uma das peças emblemáticas do museu é a edição com a capa em prata de "Os Lusíadas" presenteada pelo governo de Portugal a Gilberto Freyre. Somente outro brasileiro ganhou a rara edição, o presidente Getúlio Vargas, e o próprio Freyre foi encarregado de trazer para ele o valioso presente.
Ainda no térreo estão a sala de estar, a sala de jantar, o terraço onde Freyre recebia seus convidados, a biblioteca com mais de 40 mil volumes e a poltrona onde lia e escrevia.
São antiquíssimos e pesados móveis de jacarandá, telas das melhores fases de Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro, Pancetti, Cícero Dias e Lula Cardoso Ayres. E também uma preciosa coleção de objetos artísticos de diversos países que Gilberto visitou.
Esse magnífico acervo já foi visto e tocado por visitantes como Aldous Huxley, John dos Passos, Roberto Rosselini, Robert Kennedy, Albert Camus e Arnold Toynbee, entre outros.No segundo andar, estão os quartos do casal, do filho Fernando Freyre (já morto) e da filha Sonia Freyre, que hoje preside a Fundação. 
Ciente da riqueza do conjunto que formou ao longo da sua trajetória - casa e o que ela abriga - o escritor preparou o imóvel pra ser a Fundação que hoje preserva e propaga sua obra.
A Fundação existe desde 1987, quando Gilberto Freyre morreu, e teve como presidente a viúva Magdalena, morta dez anos depois. A instituição vai passar por uma completa recuperação física e documental e as obras se iniciam no mês de março. A primeira etapa da restauração será custeada pelo BNDES.