"O Bicho" de Manoel Bandeira e a ditadura de Maduro

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Publicada em 02/03/2019 às 14:28:00

 

*Rangel Alves da Costa
Se vivo estivesse, certamente o poeta Manoel Bandeira (1886-1968) teria sua obra escorraçada e proibida na Venezuela. Seu poema "O bicho" passaria a ser inimigo do regime bolivariano e a sua declamação seria motivo de pena de morte, de fuzilamento em paredão.
Proibido por decreto, sob as mais terríveis ameaças até pela simples leitura, o poeta pernambucano teria sua obra encimando o index dos autores antichavistas, antibolivarianistas, antimaduristas, antivenezuelistas, o maior perigo à "democracia" nacional. Por quê? A palavra nua, verdadeira, incisiva, fere. E a tirania ditatorial não aceita ser ferida.
Ali, no contexto do regime ou que satisfaça os egos bolivarianistas doentios, só cabe o que for para abençoar ou legitimar o ditador. Poemas cantando as glórias, escritos floreando as sagas vitoriosas, livros endeusando os heróis forjados, mensagens sempre enaltecedoras acerca do governante. Tudo mentira. Mas a verdade não possui nenhuma valia.
Quem ainda consegue conviver com o dia a dia do absurdo, certamente sabe muito bem a importância de se manter na cegueira, de esconder o grito e forçar o silêncio, de fingir que nada viu quando tudo assusta. As ruas, esquinas e escondidos, por todo lugar os bichos humanos lutam entre si para se fartar dos restos apodrecidos. Mas ninguém pode dizer nada sobre isso.
Homens e mulheres, velhos e crianças, catando restos, abrindo sacolas de lixo, disputando podridões e correndo aos lixões mais próximos. Aos olhos do poder, nada de ratos, de urubus, da carnicentos, de bichos famintos. Aos olhos igualmente cegos do poder, apenas pessoas usufruindo o melhor da vida, que é a alimentação. "Saudável" e "energética".
Acaso algum desavisado ou alguém discordando da situação, de repente abra a boca e diga da desumanidade, da covardia e do fim de mundo ali existente, então será tratado como bicho mesmo, como verme asqueroso que não merece viver. Então o regime logo cuida de calar de vez e alimentar os lixões.
Quer dizer, um país de fingimentos e um regimento de ilusões doentias. Nada de rui acontece ali. Ou ao menos ninguém pode saber o que de fato acontece. Ora, nada diferente do que ocorreu com o jornalista Jorge Ramos, da Univision. O jornalista foi mostrar ao ditador um vídeo onde a população estava comendo lixo e prontamente teve seu material confiscado e hoje o próprio foi deportado. 
Quer dizer, o ditador se sentiu afrontado pelo fato de o jornalista mostrar que o seu povo estava passando fome e comendo lixo, nos mesmos moldes de bichos vasculhando lixões para se alimentar. E o poema de Bandeira trata exatamente disso: 
"Vi ontem um bicho na imundície do pátio, catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa não examinava nem cheirava: engolia com voracidade. O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem". 
Na Venezuela, o bicho forçadamente gestado pelo desumano e insensível Maduro é também humano e tem que vasculhar restos, lixões e porcarias, para se alimentar. E sem a certeza de que conseguirá sobreviver em meio às atrocidades de uma tirania tão perversa quanto assassina.
Com efeito, o regime bolivariano imposto na Venezuela, aliado ao ditatorialismo tirânico de seu ainda mandatário maior, afeiçoa-se muito mais a um governo de extermínio populacional do que qualquer outra coisa. 
Não seria errôneo dizer que só não está passando pelas agruras da fome, da falta de medicamentos e por todo tipo de sofrimento e aflição, aqueles que continuam sustentando o regime em troca de benesses. 
A cúpula militar certamente se farta de carne de primeira e do bom e do melhor. A cúpula do judiciário se refestela com mesa farta e contas polpudas. A cúpula administrativa e da bajulação também não deixam de ser guarnecidos com o que há de melhor. O Palácio Miraflores continua esbanjando luxo, fartura e egocentrismos. 
E o povo, o povo lá fora, desde o profissional liberal ao homem comum? Este está marcado para morrer. E morrer de fome, morrer por falta de mínima assistência, por falta de remédios, pela punhalada da desesperança e do medo. Crianças espalhadas em lixões, jovens e adultos brigando por sacolões de lixo, todos ávidos por algum alimento. E o que mais dói: sofrer calado e morrer calado! 
Não há como fugir, não há como sair de debaixo das botas da tirania. Qualquer tentativa de salvação da própria vida, através de uma fuga desesperada, será motivo para a prisão e o esquecimento. Quer dizer, na Venezuela atual não há salvação. Para se manter no poder, o sofrimento do povo não tem qualquer importância. E o povo deve ser mantido prisioneiro no seu próprio país para que o tirano se regozije de continuar mantendo o poder e a ordem sobre tudo.
Daí que, se vivo estivesse e avistando as infames imagens da Venezuela e seus seres famintos e desesperados em meios aos restos e aos lixões, o poeta Manoel Bandeira certamente diria: "Meu Deus, aqueles bichos são homens!".
*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Se vivo estivesse, certamente o poeta Manoel Bandeira (1886-1968) teria sua obra escorraçada e proibida na Venezuela. Seu poema "O bicho" passaria a ser inimigo do regime bolivariano e a sua declamação seria motivo de pena de morte, de fuzilamento em paredão.
Proibido por decreto, sob as mais terríveis ameaças até pela simples leitura, o poeta pernambucano teria sua obra encimando o index dos autores antichavistas, antibolivarianistas, antimaduristas, antivenezuelistas, o maior perigo à "democracia" nacional. Por quê? A palavra nua, verdadeira, incisiva, fere. E a tirania ditatorial não aceita ser ferida.
Ali, no contexto do regime ou que satisfaça os egos bolivarianistas doentios, só cabe o que for para abençoar ou legitimar o ditador. Poemas cantando as glórias, escritos floreando as sagas vitoriosas, livros endeusando os heróis forjados, mensagens sempre enaltecedoras acerca do governante. Tudo mentira. Mas a verdade não possui nenhuma valia.
Quem ainda consegue conviver com o dia a dia do absurdo, certamente sabe muito bem a importância de se manter na cegueira, de esconder o grito e forçar o silêncio, de fingir que nada viu quando tudo assusta. As ruas, esquinas e escondidos, por todo lugar os bichos humanos lutam entre si para se fartar dos restos apodrecidos. Mas ninguém pode dizer nada sobre isso.
Homens e mulheres, velhos e crianças, catando restos, abrindo sacolas de lixo, disputando podridões e correndo aos lixões mais próximos. Aos olhos do poder, nada de ratos, de urubus, da carnicentos, de bichos famintos. Aos olhos igualmente cegos do poder, apenas pessoas usufruindo o melhor da vida, que é a alimentação. "Saudável" e "energética".
Acaso algum desavisado ou alguém discordando da situação, de repente abra a boca e diga da desumanidade, da covardia e do fim de mundo ali existente, então será tratado como bicho mesmo, como verme asqueroso que não merece viver. Então o regime logo cuida de calar de vez e alimentar os lixões.
Quer dizer, um país de fingimentos e um regimento de ilusões doentias. Nada de rui acontece ali. Ou ao menos ninguém pode saber o que de fato acontece. Ora, nada diferente do que ocorreu com o jornalista Jorge Ramos, da Univision. O jornalista foi mostrar ao ditador um vídeo onde a população estava comendo lixo e prontamente teve seu material confiscado e hoje o próprio foi deportado. 
Quer dizer, o ditador se sentiu afrontado pelo fato de o jornalista mostrar que o seu povo estava passando fome e comendo lixo, nos mesmos moldes de bichos vasculhando lixões para se alimentar. E o poema de Bandeira trata exatamente disso: 
"Vi ontem um bicho na imundície do pátio, catando comida entre os detritos. Quando achava alguma coisa não examinava nem cheirava: engolia com voracidade. O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem". 
Na Venezuela, o bicho forçadamente gestado pelo desumano e insensível Maduro é também humano e tem que vasculhar restos, lixões e porcarias, para se alimentar. E sem a certeza de que conseguirá sobreviver em meio às atrocidades de uma tirania tão perversa quanto assassina.
Com efeito, o regime bolivariano imposto na Venezuela, aliado ao ditatorialismo tirânico de seu ainda mandatário maior, afeiçoa-se muito mais a um governo de extermínio populacional do que qualquer outra coisa. 
Não seria errôneo dizer que só não está passando pelas agruras da fome, da falta de medicamentos e por todo tipo de sofrimento e aflição, aqueles que continuam sustentando o regime em troca de benesses. 
A cúpula militar certamente se farta de carne de primeira e do bom e do melhor. A cúpula do judiciário se refestela com mesa farta e contas polpudas. A cúpula administrativa e da bajulação também não deixam de ser guarnecidos com o que há de melhor. O Palácio Miraflores continua esbanjando luxo, fartura e egocentrismos. 
E o povo, o povo lá fora, desde o profissional liberal ao homem comum? Este está marcado para morrer. E morrer de fome, morrer por falta de mínima assistência, por falta de remédios, pela punhalada da desesperança e do medo. Crianças espalhadas em lixões, jovens e adultos brigando por sacolões de lixo, todos ávidos por algum alimento. E o que mais dói: sofrer calado e morrer calado! 
Não há como fugir, não há como sair de debaixo das botas da tirania. Qualquer tentativa de salvação da própria vida, através de uma fuga desesperada, será motivo para a prisão e o esquecimento. Quer dizer, na Venezuela atual não há salvação. Para se manter no poder, o sofrimento do povo não tem qualquer importância. E o povo deve ser mantido prisioneiro no seu próprio país para que o tirano se regozije de continuar mantendo o poder e a ordem sobre tudo.
Daí que, se vivo estivesse e avistando as infames imagens da Venezuela e seus seres famintos e desesperados em meios aos restos e aos lixões, o poeta Manoel Bandeira certamente diria: "Meu Deus, aqueles bichos são homens!".

*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com