Pesquisa estuda a cadeia produtiva do umbu

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Pesquisador coleta fruta para análise no sertão sergipano
Pesquisador coleta fruta para análise no sertão sergipano

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Publicada em 02/03/2019 às 15:01:00

 

Kátia Azevedo/Projeto Opará
O umbuzeiro é uma árvore símbolo do sertão nordestino e típica da caatinga. Tem grande relevância ecológica e econômica. Armazena água nas raízes e mesmo na época de estiagem floresce e coloca frutos. É também fonte geradora de renda para a agricultura familiar. Proteger e produzir as matrizes nativas deste fruto de forma sustentável é o objetivo da pesquisa Diagnóstico da Cadeia Produtiva do Umbu (Spondias tuberosa Arruda), realizada em parceria entre o Projeto Opará: águas do rio São Francisco e o Campus Sertão da Universidade Federal de Sergipe (UFS). 
O estudo é realizado pelo projeto Opará, patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental e pelo Governo Federal, com a proposta de  subsidiar o planejamento da produção do umbu no Assentamento Jacaré-Curituba, no semiárido sergipano, a partir de informações sobre o cultivo, colheita e consumo dos frutos na região. A pesquisa partiu de uma construção coletiva, entre integrantes da equipe do projeto Opará e agricultores/as da região, por ocasião da primeira fase do projeto entre julho de 2013 a março de 2016.
O estudo foi iniciado em novembro de 2018 com um inventário florístico realizado por estudantes e professores da UFS em lotes irrigados e sequeiros e áreas de reserva florestal ou em processo de restauração ambiental para compreender a forma de distribuição das matrizes no assentamento Jacaré-Curituba. 
Na segunda etapa da pesquisa em janeiro deste ano, foram mapeados 60 umbuzeiros, sendo 23 em área de sequeiro e 37 na área irrigada. Ao total, foram catalogados 290 umbuzeiros, sendo 207 em lotes sem irrigação, e 83 em áreas de atividades produtivas com irrigação no assentamento. As árvores são etiquetadas com placas de alumínio e caracterizadas fenotipicamente em relação ao diâmetro a altura do peito (DAP), área de copa e altura. A partir do levantamento da população, serão selecionadas algumas matrizes para que seja realizado o estudo da fenologia da espécie. 
A partir do mapeamento serão desenvolvidas novas ações envolvendo matrizes de umbuzeiro a exemplo do plantio de 8 mil espécies nativas em áreas de restauração florestal do projeto Opará: águas do rio São Francisco. 
Além dos dados científicos, o estudo revela a organização econômica dos produtores com o umbu. Um dos resultados obtidos até agora pela pesquisa revela que entre os 62 agricultores cadastrados pelo levantamento, 10% comercializam o umbu diretamente ou via atravessadores e apenas 1% faz o beneficiamento com comercialização em feira livres. "Embora a região seja detentora de um grande número de umbuzeiros, a fruta apresenta um potencial econômico ainda pouco valorizado. Prova disso é que não existem dados disponibilizados sobre o umbu por órgãos que contabilizam as produções, apesar da sua relevância produtiva e ecológica", destaca a coordenadora da pesquisa e professora do Núcleo de Graduação de Agroindústria do Campus Sertão, Anny Kelly Vasconcelos de Oliveira Lima, que estuda as propriedades do umbu há mais de uma década.
A professora enfatiza que no período de baixa produção o umbu dá uma média de 350kg de frutos em uma única árvore. Na época de safra, entre janeiro a março, o fruto é muitas vezes desperdiçado por falta de uma orientação para fins de processamento e exploração do seu potencial socioeconômico. "Neste cenário, o diagnóstico pretende fornecer informações sobre a cadeia produtiva do umbu, com dados sobre as plantações, comercialização in natura nas feiras livres e supermercados. Através deste mapeamento queremos oferecer cursos de beneficiamento sobre processamento da fruta em doces, sucos e geleias, polpa e outros produtos que agregam valor econômico e geram mais uma renda para o agricultor, além de fortalecer experiências produtivas das mulheres no campo através de cooperativas", informa.  
Para a professora, a pesquisa também promove uma intervenção importante ao incentivar a integração local com as comunidades e levar resultados com impactos socioambientais positivos estimulando a proteção dos recursos naturais e o fortalecimento social e econômico da região.  "É de extrema importância que este conhecimento que adquirimos na Universidade saia dos seus muros e seja levado para as nossas áreas de atuação na sociedade", observa. 
É o que pensa também o estudante do Campus Sertão e estagiário do Projeto Opará: águas do rio São Francisco, Eugênio da Silva Santos. Natural do município sergipano de Muribeca, o universitário estuda o tema da cadeia produtiva do umbu no trabalho de conclusão de curso de Engenharia Agronômica. "Mesmo não morando em região da caatinga, sempre fui apaixonado por suas riquezas naturais como as plantas que sobrevivem em um clima não muito propício. A pesquisa possibilita justamente trabalhar com o umbuzeiro que tem importância econômica, social, ambiental e cultural", ressalta.
Para a estudante e estagiária do Projeto Opará: águas do rio São Francisco, Marcia Ferreira Neri, que também participa da pesquisa, o estudo sobre o umbu é uma oportunidade de experimentação prática que envolve o conhecimento adquirido na universidade, a relação com os agricultores e assentados e maior contato com as distinções geográficas e formas de cultivo diferentes. "Trocamos experiências e saberes com os agricultores locais e percebemos que o conhecimento científico em interação com as comunidades pode contribuir para a prática de boas experiências socioambientais", enfatiza.   
Filha de assentados, Márcia observou em conversa com produtores entrevistados que o umbu não é somente uma fruta, "mas usado de forma sustentável também é uma fonte de renda, e sua preservação também significa manter viva a identidade da cultura local. O umbuzeiro que dá frutos também dá sombra e é um espaço no qual a família se reúne, conversa, interage. É uma forma de socialização cultural muito própria da região e cultivada por muitas gerações", ressalta a estudante.
Participante da pesquisa, o agricultor João Pereira da Silva, morador da Agrovila Pereira, faz questão de manter a tradição de cultivar o umbuzeiro nos lotes da família. "Não tem árvore melhor no sertão. No tempo de sol a caatinga pode ficar seca, mas o umbuzeiro é carregado de folhagem que alimenta os animais. Quero que meus netos plantem umbuzeiros para os filhos deles saberem que o umbu é o melhor fruto da região, que continuem o costume de conversar embaixo de um pé de umbuzeiro depois do almoço. Ainda hoje lá em casa é assim com meus filhos e netos.", diz.     
O agricultor Adagildo Andrade, que vende umbu nas feiras da região com a família, gostou de saber através da pesquisa que é possível uma nova forma de organização econômica do fruto. "Se a gente criar uma cooperativa para o aproveitamento do umbu vai ser bom para toda a comunidade, mais renda para as famílias. É uma árvore que dá muito fruto quando não chove e se a gente aprender a usar o umbu o ano inteiro vai melhorar o nosso sustento", comenta.   

Kátia Azevedo/Projeto Opará

O umbuzeiro é uma árvore símbolo do sertão nordestino e típica da caatinga. Tem grande relevância ecológica e econômica. Armazena água nas raízes e mesmo na época de estiagem floresce e coloca frutos. É também fonte geradora de renda para a agricultura familiar. Proteger e produzir as matrizes nativas deste fruto de forma sustentável é o objetivo da pesquisa Diagnóstico da Cadeia Produtiva do Umbu (Spondias tuberosa Arruda), realizada em parceria entre o Projeto Opará: águas do rio São Francisco e o Campus Sertão da Universidade Federal de Sergipe (UFS). 
O estudo é realizado pelo projeto Opará, patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental e pelo Governo Federal, com a proposta de  subsidiar o planejamento da produção do umbu no Assentamento Jacaré-Curituba, no semiárido sergipano, a partir de informações sobre o cultivo, colheita e consumo dos frutos na região. A pesquisa partiu de uma construção coletiva, entre integrantes da equipe do projeto Opará e agricultores/as da região, por ocasião da primeira fase do projeto entre julho de 2013 a março de 2016.
O estudo foi iniciado em novembro de 2018 com um inventário florístico realizado por estudantes e professores da UFS em lotes irrigados e sequeiros e áreas de reserva florestal ou em processo de restauração ambiental para compreender a forma de distribuição das matrizes no assentamento Jacaré-Curituba. 
Na segunda etapa da pesquisa em janeiro deste ano, foram mapeados 60 umbuzeiros, sendo 23 em área de sequeiro e 37 na área irrigada. Ao total, foram catalogados 290 umbuzeiros, sendo 207 em lotes sem irrigação, e 83 em áreas de atividades produtivas com irrigação no assentamento. As árvores são etiquetadas com placas de alumínio e caracterizadas fenotipicamente em relação ao diâmetro a altura do peito (DAP), área de copa e altura. A partir do levantamento da população, serão selecionadas algumas matrizes para que seja realizado o estudo da fenologia da espécie. 
A partir do mapeamento serão desenvolvidas novas ações envolvendo matrizes de umbuzeiro a exemplo do plantio de 8 mil espécies nativas em áreas de restauração florestal do projeto Opará: águas do rio São Francisco. 
Além dos dados científicos, o estudo revela a organização econômica dos produtores com o umbu. Um dos resultados obtidos até agora pela pesquisa revela que entre os 62 agricultores cadastrados pelo levantamento, 10% comercializam o umbu diretamente ou via atravessadores e apenas 1% faz o beneficiamento com comercialização em feira livres. "Embora a região seja detentora de um grande número de umbuzeiros, a fruta apresenta um potencial econômico ainda pouco valorizado. Prova disso é que não existem dados disponibilizados sobre o umbu por órgãos que contabilizam as produções, apesar da sua relevância produtiva e ecológica", destaca a coordenadora da pesquisa e professora do Núcleo de Graduação de Agroindústria do Campus Sertão, Anny Kelly Vasconcelos de Oliveira Lima, que estuda as propriedades do umbu há mais de uma década.
A professora enfatiza que no período de baixa produção o umbu dá uma média de 350kg de frutos em uma única árvore. Na época de safra, entre janeiro a março, o fruto é muitas vezes desperdiçado por falta de uma orientação para fins de processamento e exploração do seu potencial socioeconômico. "Neste cenário, o diagnóstico pretende fornecer informações sobre a cadeia produtiva do umbu, com dados sobre as plantações, comercialização in natura nas feiras livres e supermercados. Através deste mapeamento queremos oferecer cursos de beneficiamento sobre processamento da fruta em doces, sucos e geleias, polpa e outros produtos que agregam valor econômico e geram mais uma renda para o agricultor, além de fortalecer experiências produtivas das mulheres no campo através de cooperativas", informa.  
Para a professora, a pesquisa também promove uma intervenção importante ao incentivar a integração local com as comunidades e levar resultados com impactos socioambientais positivos estimulando a proteção dos recursos naturais e o fortalecimento social e econômico da região.  "É de extrema importância que este conhecimento que adquirimos na Universidade saia dos seus muros e seja levado para as nossas áreas de atuação na sociedade", observa. 
É o que pensa também o estudante do Campus Sertão e estagiário do Projeto Opará: águas do rio São Francisco, Eugênio da Silva Santos. Natural do município sergipano de Muribeca, o universitário estuda o tema da cadeia produtiva do umbu no trabalho de conclusão de curso de Engenharia Agronômica. "Mesmo não morando em região da caatinga, sempre fui apaixonado por suas riquezas naturais como as plantas que sobrevivem em um clima não muito propício. A pesquisa possibilita justamente trabalhar com o umbuzeiro que tem importância econômica, social, ambiental e cultural", ressalta.
Para a estudante e estagiária do Projeto Opará: águas do rio São Francisco, Marcia Ferreira Neri, que também participa da pesquisa, o estudo sobre o umbu é uma oportunidade de experimentação prática que envolve o conhecimento adquirido na universidade, a relação com os agricultores e assentados e maior contato com as distinções geográficas e formas de cultivo diferentes. "Trocamos experiências e saberes com os agricultores locais e percebemos que o conhecimento científico em interação com as comunidades pode contribuir para a prática de boas experiências socioambientais", enfatiza.   
Filha de assentados, Márcia observou em conversa com produtores entrevistados que o umbu não é somente uma fruta, "mas usado de forma sustentável também é uma fonte de renda, e sua preservação também significa manter viva a identidade da cultura local. O umbuzeiro que dá frutos também dá sombra e é um espaço no qual a família se reúne, conversa, interage. É uma forma de socialização cultural muito própria da região e cultivada por muitas gerações", ressalta a estudante.
Participante da pesquisa, o agricultor João Pereira da Silva, morador da Agrovila Pereira, faz questão de manter a tradição de cultivar o umbuzeiro nos lotes da família. "Não tem árvore melhor no sertão. No tempo de sol a caatinga pode ficar seca, mas o umbuzeiro é carregado de folhagem que alimenta os animais. Quero que meus netos plantem umbuzeiros para os filhos deles saberem que o umbu é o melhor fruto da região, que continuem o costume de conversar embaixo de um pé de umbuzeiro depois do almoço. Ainda hoje lá em casa é assim com meus filhos e netos.", diz.     
O agricultor Adagildo Andrade, que vende umbu nas feiras da região com a família, gostou de saber através da pesquisa que é possível uma nova forma de organização econômica do fruto. "Se a gente criar uma cooperativa para o aproveitamento do umbu vai ser bom para toda a comunidade, mais renda para as famílias. É uma árvore que dá muito fruto quando não chove e se a gente aprender a usar o umbu o ano inteiro vai melhorar o nosso sustento", comenta.