Um encontro com Ilma Fontes

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Altos papos
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Publicada em 09/04/2019 às 07:01:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Ao contrário dos ami
gos mais sortudos, 
eu não conheço Ilma Fontes pessoalmente. De vez em quando, um desses sujeitos se gaba do cafezinho em companhia da bruxa, com o fim de me causar inveja. Tomado pelo despeito, eu faço ouvidos moucos e leio um editorial de O Capital em voz alta. 
Bruxa, sim. Dessas que fazem mágica com as palavras. Ilma Fontes é a última encarnação notória de uma rebeldia perfeitamente genuína, que eu mesmo nunca fiz por onde experimentar de verdade. Fizesse música, esta soaria como os acordes de um Kurt Cobain mais esperto. Em lugar da heroína e da paranoia, o barato dos livros, um tantinho de cinismo, altos papos, um baseado.
Certa vez, trombei com a jornalista no meio da rua. Ela passeava com um cachorro enorme, muito gordo e manso, um labrador em desfile magnânimo pelas calçadas do bairro São José. Ilma pediu desculpa, mas me reconhecia de algum lugar: 
- Você não seria filho de Dr. Fulano? 
Não me atrevi a mencionar o prêmio que eu recebi de suas próprias mãos, anos antes, mas aproveitei a oportunidade para remediar o mal da timidez crônica e disse ali mesmo, olhos nos olhos, com todas as letras, tudo o que deveria ter falado de público, na tal cerimônia, em presença de Araripe Coutinho e Amaral Cavalcante. A sua independência e postura sempre me serviram de inspiração. Depois apertei o passo e fui embora, com um saco de pão quente e uma alegria sem tamanho embaixo do braço.
Eu não bebo café com Ilma Fontes, também nunca vi 'O beijo', filmado em Super 8, reproduzido em breve passagem de um documentário formidável de Moema Pascoini. Em compensação, fui leitor assíduo de O Capital por décadas a fio. Somente agora, com a publicação de seus poemas inéditos, os mais viscerais, ela mesmo garante, irei à forra com uns e outros. Sempre haverá quem se queira muito amigo de gente talentosa. A cumplicidade exigida pela poesia, no entanto, dispensa todas as cerimônias e oferece, em troca, verdadeira intimidade.

Ao contrário dos ami gos mais sortudos,  eu não conheço Ilma Fontes pessoalmente. De vez em quando, um desses sujeitos se gaba do cafezinho em companhia da bruxa, com o fim de me causar inveja. Tomado pelo despeito, eu faço ouvidos moucos e leio um editorial de O Capital em voz alta. 
Bruxa, sim. Dessas que fazem mágica com as palavras. Ilma Fontes é a última encarnação notória de uma rebeldia perfeitamente genuína, que eu mesmo nunca fiz por onde experimentar de verdade. Fizesse música, esta soaria como os acordes de um Kurt Cobain mais esperto. Em lugar da heroína e da paranoia, o barato dos livros, um tantinho de cinismo, altos papos, um baseado.
Certa vez, trombei com a jornalista no meio da rua. Ela passeava com um cachorro enorme, muito gordo e manso, um labrador em desfile magnânimo pelas calçadas do bairro São José. Ilma pediu desculpa, mas me reconhecia de algum lugar: 
- Você não seria filho de Dr. Fulano? 
Não me atrevi a mencionar o prêmio que eu recebi de suas próprias mãos, anos antes, mas aproveitei a oportunidade para remediar o mal da timidez crônica e disse ali mesmo, olhos nos olhos, com todas as letras, tudo o que deveria ter falado de público, na tal cerimônia, em presença de Araripe Coutinho e Amaral Cavalcante. A sua independência e postura sempre me serviram de inspiração. Depois apertei o passo e fui embora, com um saco de pão quente e uma alegria sem tamanho embaixo do braço.
Eu não bebo café com Ilma Fontes, também nunca vi 'O beijo', filmado em Super 8, reproduzido em breve passagem de um documentário formidável de Moema Pascoini. Em compensação, fui leitor assíduo de O Capital por décadas a fio. Somente agora, com a publicação de seus poemas inéditos, os mais viscerais, ela mesmo garante, irei à forra com uns e outros. Sempre haverá quem se queira muito amigo de gente talentosa. A cumplicidade exigida pela poesia, no entanto, dispensa todas as cerimônias e oferece, em troca, verdadeira intimidade.