As respostas de Maia e Howarth

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Publicada em 10/04/2019 às 09:30:00

 

* Antonio Passos
Passou na TV, trovejou na internet, 
todo mundo viu, muita gente riu, 
outro tanto não gostou: a reprimenda ríspida dada por Rodrigo Maia em Sérgio Moro. O presidente da câmara federal poderia ter pronunciado o recado dele de modo formalmente moderado, escondendo sentimentalidades, como em regra ocorre entre os ocupantes das altas cúpulas do poder. Porém, nesses primeiros meses do governo Bolsonaro, parece que não está sendo fácil manter os nervos sob a pele - fica a impressão de que Brasília borbulha como um líquido fervente.
Fato é que, sem intenção, o "chega pra lá" disparado por Maia lembrou outro ocorrido há décadas aqui em Aracaju, protagonizado por aquele que se autointitulou o Papa do Diabo: Luiz Howarth. Digo sem intenção, pois, não acredito que o presidente da câmara tenha qualquer informação sobre quem foi o "desconhecido inspirador" dele. Calculo, com alguma chance de acerto, que estávamos em meados da década de 1970 quando circulava em Sergipe, levado pelas ondas do rádio, o nome do astrólogo, místico, esotérico… Professor Luiz Howarth.
Após instalar-se em um vistoso imóvel na Avenida Doutor Carlos Firpo, no centro de Aracaju, nas proximidades da hoje popularmente chamada rodoviária velha, onde comercializou velas e ofereceu consultas astrológicas, em algum momento, o professor Howarth anunciou a criação por ele da igreja do diabo e passou a buscar, como de costume fazem as religiões, fiéis para a nova devoção. Muito mais que antes, após divulgar a associação com o diabo e iniciar ações de catequização, o professor Howarth tornou-se uma celebridade radiofônica.
Não sei se simultaneamente ou logo após a criação da nova igreja, o professor Howarth comunicou ao público em geral que a própria divindade o havia escolhido para exercer a função máxima de Papa do Diabo. O assunto causava bastante espanto e despertava curiosidade. Vez por outra era possível ouvir a voz do professor Howarth no rádio, defendendo com firmeza e convicção a crença na necessidade da devoção ao diabo. Também não sei se a igreja do diabo chegou a ter uma quantidade considerável de seguidores, porém, causou incômodos.
Conta-se - essa é uma narrativa até hoje relembrada em mesas de bar por pessoas com mais de cinquenta anos de idade - que o arcebispo de Aracaju passou a cobrar de forma insistente ao governador do estado uma atitude, no sentido de fazer cessar as atividades da igreja do diabo. Diz o anedotário que com o acirramento do embate um emissário foi enviado com a missão de convocar o professor para um encontro com o arcebispo, ao que ele respondeu: "Não posso, sou o Papa do Diabo, só poderei travar um debate se for com o Papa dos cristãos".
Pois bem, não foi isso o que respondeu Maia ao ser procurado pelo ministro Moro para uma conversa? Eu mesmo vi e ouvi o presidente da câmara na televisão dizendo mais ou menos assim, referindo-se ao ministro Moro: ele está equivocado. Eu sou chefe de um poder e ele é empregado do Bolsonaro, que é chefe de outro poder. Quem tem que vir falar comigo é o Bolsonaro e não ele - se as palavras não foram exatamente essas o sentido resta preservado. Como está escrito acima, "passou na TV, trovejou na internet, todo mundo viu...". Pode ser checado.
Contudo, quero ressaltar que as respostas de Luiz Howarth e Rodrigo Maia aqui comparadas, embora apresentem semelhança na formulação me parecem muito distanciadas, tanto no tocante aos diferentes sentimentos que as motivaram quanto à qualidade da expressão. Howarth aparece no episódio que o envolveu como um safo que encontrou um espirituoso modo de tirar proveito da situação promovendo-se. Já Maia deixou escapar o grito de uma tensa irritação subterrânea, abafada, e levantou poeira como quem derrapa forte em chão de piçarra.
Quanto ao professor Luiz Howarth e a igreja do diabo, não sei como, foram riscados do mapa. Tal qual o caminhoneiro Arlindo Orlando, desapareceu, escafedeu-se… Em que pese o aparente clima de reconciliação que pousou sobre o planalto central nos dias seguintes à repreensão áspera atirada por Rodrigo Maia, será que ele também corre o risco de sumir do mapa? Não me arriscarei aqui a manifestar qualquer palpite, até porque não sou astrólogo. Em tempo: se curiosos quiserem saber mais sobre Luiz Howarth basta pesquisar no google, está lá.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Passou na TV, trovejou na internet,  todo mundo viu, muita gente riu,  outro tanto não gostou: a reprimenda ríspida dada por Rodrigo Maia em Sérgio Moro. O presidente da câmara federal poderia ter pronunciado o recado dele de modo formalmente moderado, escondendo sentimentalidades, como em regra ocorre entre os ocupantes das altas cúpulas do poder. Porém, nesses primeiros meses do governo Bolsonaro, parece que não está sendo fácil manter os nervos sob a pele - fica a impressão de que Brasília borbulha como um líquido fervente.
Fato é que, sem intenção, o "chega pra lá" disparado por Maia lembrou outro ocorrido há décadas aqui em Aracaju, protagonizado por aquele que se autointitulou o Papa do Diabo: Luiz Howarth. Digo sem intenção, pois, não acredito que o presidente da câmara tenha qualquer informação sobre quem foi o "desconhecido inspirador" dele. Calculo, com alguma chance de acerto, que estávamos em meados da década de 1970 quando circulava em Sergipe, levado pelas ondas do rádio, o nome do astrólogo, místico, esotérico… Professor Luiz Howarth.
Após instalar-se em um vistoso imóvel na Avenida Doutor Carlos Firpo, no centro de Aracaju, nas proximidades da hoje popularmente chamada rodoviária velha, onde comercializou velas e ofereceu consultas astrológicas, em algum momento, o professor Howarth anunciou a criação por ele da igreja do diabo e passou a buscar, como de costume fazem as religiões, fiéis para a nova devoção. Muito mais que antes, após divulgar a associação com o diabo e iniciar ações de catequização, o professor Howarth tornou-se uma celebridade radiofônica.
Não sei se simultaneamente ou logo após a criação da nova igreja, o professor Howarth comunicou ao público em geral que a própria divindade o havia escolhido para exercer a função máxima de Papa do Diabo. O assunto causava bastante espanto e despertava curiosidade. Vez por outra era possível ouvir a voz do professor Howarth no rádio, defendendo com firmeza e convicção a crença na necessidade da devoção ao diabo. Também não sei se a igreja do diabo chegou a ter uma quantidade considerável de seguidores, porém, causou incômodos.
Conta-se - essa é uma narrativa até hoje relembrada em mesas de bar por pessoas com mais de cinquenta anos de idade - que o arcebispo de Aracaju passou a cobrar de forma insistente ao governador do estado uma atitude, no sentido de fazer cessar as atividades da igreja do diabo. Diz o anedotário que com o acirramento do embate um emissário foi enviado com a missão de convocar o professor para um encontro com o arcebispo, ao que ele respondeu: "Não posso, sou o Papa do Diabo, só poderei travar um debate se for com o Papa dos cristãos".
Pois bem, não foi isso o que respondeu Maia ao ser procurado pelo ministro Moro para uma conversa? Eu mesmo vi e ouvi o presidente da câmara na televisão dizendo mais ou menos assim, referindo-se ao ministro Moro: ele está equivocado. Eu sou chefe de um poder e ele é empregado do Bolsonaro, que é chefe de outro poder. Quem tem que vir falar comigo é o Bolsonaro e não ele - se as palavras não foram exatamente essas o sentido resta preservado. Como está escrito acima, "passou na TV, trovejou na internet, todo mundo viu...". Pode ser checado.
Contudo, quero ressaltar que as respostas de Luiz Howarth e Rodrigo Maia aqui comparadas, embora apresentem semelhança na formulação me parecem muito distanciadas, tanto no tocante aos diferentes sentimentos que as motivaram quanto à qualidade da expressão. Howarth aparece no episódio que o envolveu como um safo que encontrou um espirituoso modo de tirar proveito da situação promovendo-se. Já Maia deixou escapar o grito de uma tensa irritação subterrânea, abafada, e levantou poeira como quem derrapa forte em chão de piçarra.
Quanto ao professor Luiz Howarth e a igreja do diabo, não sei como, foram riscados do mapa. Tal qual o caminhoneiro Arlindo Orlando, desapareceu, escafedeu-se… Em que pese o aparente clima de reconciliação que pousou sobre o planalto central nos dias seguintes à repreensão áspera atirada por Rodrigo Maia, será que ele também corre o risco de sumir do mapa? Não me arriscarei aqui a manifestar qualquer palpite, até porque não sou astrólogo. Em tempo: se curiosos quiserem saber mais sobre Luiz Howarth basta pesquisar no google, está lá.

* Antonio Passos é jornalista