Um governo a serviço da desconstrução nacional

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Publicada em 12/04/2019 às 09:43:00

 

* Roberto Amaral
Na residência oficial do embaixador 
brasileiro em Washington, em jan-
tar a representantes da extrema-direita dos EUA, onde tem sua alma, o capitão declarou haver chegado ao poder "não para construir", mas para "desconstruir muita coisa'. Sua palavra está sendo cumprida com dedicação e competência exemplares. A economia soçobra e a dignidade nacional foi ao chão.
A indústria de transformação, em queda continuada, conhece seu pior momento nos dois primeiros meses do novo regime: a atividade caiu 0,2% em relação ao ano passado e 54% de todos os setores tiveram queda, acentuando o recuo da participação industrial no PIB, que não passa de ínfimos 11,3% (no final dos anos 80, representava 30%). Já é a menor desde 1947. Estamos em 40º lugar num ranking de 42 países. O total de desempregados - considerados apenas os que deixaram de procurar emprego, isto é, excluídos os trabalhadores informais, o lumpesinato e os miseráveis que perambulam pelas ruas -permanece na assustadora cifra dos 14 milhões e, como vimos, não há sinais de recuperação da economia, donde se torna  fácil concluir que esse montante só irá crescer. O que há no horizonte, com a "reforma" antissocial da Previdência, é a perspectiva de restrições ao seguro desemprego.  Enquanto isso, o governo insiste em desestabilizar o Mercosul, o principal importador de nossos produtos manufaturados.
Evidentemente, ha método nessa loucura.
As fiesps da vida, dirigidas por figuras menores como os Skaf  e quejandos, nada têm a dizer, pois o 'mercado' só se interessa pela "reforma" da Previdência - penalizando os desempregados e os velhos e poupando os grandes salários - apresentada como panaceia para nos salvar da tragédia econômica.  Essa, todavia, prosseguirá,  pois se alimenta da brutal  sonegação de impostos que tem na avenida Paulista o seu altar.
A desconstrução prossegue.
O capitão hostiliza os países árabes e, sem consulta à nação, simplesmente supondo que afaga Donald Trump ou atendendo às pressões dos setores mais atrasados do neopentecostalismo associado às alas radicais do sionismo, senão por ambas as razões, anuncia a transferência da embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém, onde instala um escritório de negócios, ao tempo em que   determina à  nossa delegação na ONU, contrariando décadas de comportamento exemplar, seguir os EUA nas votações de interesse de Israel. Não satisfeito, arrisca perigosas  provocações ao Hamas. O que pretende? Nossa carne e frango têm no mercado árabe seu maior comprador. Empresas brasileiras exportadoras de aves já ensaiam instalar-se em países do Oriente Médio.
Por motivos que não se deu ao cuidado de explicar, o governo se mete no duelo comercial entre EUA e China, como linha auxiliar da política norte-americana. A China, porém, sabemos todos, ignora o capitão porque lhe convém, comprou 86% do total de soja que o Brasil exportou no ano passado, 50% de todas as vendas da Vale, e é um dos maiores importadores da soja brasileira. Tudo, ao final, termina por  beneficiar os EUA, nosso competidor nessas e em várias outras commodities.
O crescimento do PIB, em 2019, segundo previsões do 'mercado', será inferior  a 2%,  e o Banco Mundial vê o aumento da pobreza no Brasil "após uma década de ouro de 2003 a 2013", mas o governo não vê suas consequências na coesão nacional, enquanto estimula o dissenso, provoca os adversários, incita a  violência e dissemina o medo.
A desconstrução vai em frente.
O projeto do novo regime não consiste, tão-só, em destruir o presente; trata-se, já agora, de evitar o futuro, esmagando as atividades que asseguram, ou assegurariam, nosso progresso, nossa autonomia, nossa independência. Trata-se de destruir a educação e as expectativas de  desenvolvimento em ciência e tecnologia.
O colegiado corporação-mercado, capitão-general, congelou nada menos de 42% do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Dos cerca de R$ 5,079 bilhões previstos no Orçamento para 2019, foram bloqueados R$ 2,132 bilhões. As reservas para pagamento dos bolsistas do CNPq não chegarão a julho.
O Ministério da Educação (MEC), foi abatido com um congelamento de 24,7% das despesas discricionárias. Dos R$ 23,633 bilhões previstos  no orçamento para 2019, nada menos de R$ 5,839 bilhões foram contingenciados, restando para empenho, ao sabor os czares do Ministério da Economia, menos de R$ 18 bilhões. 
Acresce-se a ocupação, por militares, dos cargos técnicos das autarquias das áreas de ciência e tecnologia e educação, dela afastando os quadros da academia. Assim, o CNPq e a CAPES são  campos do ITA e a FINEP está sendo ocupada por coronéis do IME.
Trocando em miúdos: estamos diante do desmonte do sistema nacional de ciência e tecnologia.
O sucessor do colombiano - macaco em cristaleira - já disse a que veio. Para ele as universidades do Nordeste (detesta a escola pública) não deveriam oferecer cursos de filosofia, sociologia e coisas assim, comunizantes, mas se dedicar ao ensino de agronomia, em convênio com Israel.
Mas o desastre é mais amplo ainda.
O capitão age como detergente em nossa dignidade.
Diz-se que copia Trump, seu ícone. Mas há diferenças. O presidente dos EUA é, com todos os seus rompantes e seu risível topete, como em sua bem organizada paranoia,  um nacionalista de fato, adepto do protecionismo em termos de mercado internacional, e, de uma forma ou de outra, está preservando a economia de seu país e gerando emprego. Nada a ver com o que ocorre no lado de baixo do Equador. 
O capitão, versão contemporânea da mais abjeta vira-latice, não cessa de tomar decisões que ora prejudicam nossos produtos, ora são obras de pura lesa-pátria, como a destruição da Petrobras, o programa de privatização selvagem e ao sabor da bacia das almas, e a entrega da base de lançamentos de foguetes de Alcântara, de decisiva e insuperável  importância estratégica para nossa segurança e nossos interesses comerciais. Entregou-a aos EUA para quê? Por quê? A que preço? Não se sabe. Sabe-se, porém, que esta vilania foi a pá de cal no programa espacial brasileiro, de mais de 50 anos. Sabe-se mais, que a política externa  que desacata nossa história e relega a plano secundário nossos interesses, e a entrega de nossa economia, assim a olhos vistos, se fazem  acobertadas pelo  silêncio comprometedor das forças armadas brasileiras que, no passado, teceram uma louvável saga de defesa dos interesses nacionais, de que um só exemplo foi a consolidação do monopólio estatal do petróleo, obra histórica - fundamental para o desenvolvimento e  segurança do país - que teve no general Horta Barbosa seu mais destacado condutor, e no Clube Militar, nele com destaque a atuação do também general Estilac Leal,  um centro de debates. 
As forças armadas de hoje, à mingua de lideranças à altura do desafio histórico que se coloca para os destinos do país, são corresponsáveis por uma política econômica que em nome de um mercado licencioso restringe os direitos sociais e consagra o Estado repressivo, nega a história e professa o anacronismo social, moral, jurídico, religioso. Ao fim e ao cabo, nossas forças armadas são o sujeito e o sustentáculo de  uma política externa que prima pelo entreguismo, palavrão que volta à tona com o governo que sua aliança com o mercado levou ao Planalto.
Perorando sobre o óbvio, o general vice-presidente, em nova e doce vilegiatura, desta feita em palestra em Washington (sempre lá), reconheceu, para estudantes brasileiros, que, se o governo fracassar, a "conta" irá para as forças armadas.
O governo já fracassou e as forças armadas responderão pelo seu fracasso. E a História não esperará por muito tempo.
Para onde caminhamos? Doze soldados do Exército disparam 80 tiros de fuzil contra um carro onde se encontravam  o músico Evaldo Rosa dos Santos, seu sogro, sua mulher, uma amiga,  e uma criança. Mataram o motorista, feriram o carona e, gravemente, um popular que tentou  socorrer as vítimas. O governador do Rio de Janeiro autoriza às tropas da PM o fuzilamento de 'suspeitos', e o capitão-presidente defende a posse e o uso indiscriminados de armas de fogo.
E a pergunta que não pode calar: afinal, quem mandou matar Marielle?
* Roberto Amaral é cientista político (ramaral.org)

* Roberto Amaral

Na residência oficial do embaixador  brasileiro em Washington, em jan- tar a representantes da extrema-direita dos EUA, onde tem sua alma, o capitão declarou haver chegado ao poder "não para construir", mas para "desconstruir muita coisa'. Sua palavra está sendo cumprida com dedicação e competência exemplares. A economia soçobra e a dignidade nacional foi ao chão.
A indústria de transformação, em queda continuada, conhece seu pior momento nos dois primeiros meses do novo regime: a atividade caiu 0,2% em relação ao ano passado e 54% de todos os setores tiveram queda, acentuando o recuo da participação industrial no PIB, que não passa de ínfimos 11,3% (no final dos anos 80, representava 30%). Já é a menor desde 1947. Estamos em 40º lugar num ranking de 42 países. O total de desempregados - considerados apenas os que deixaram de procurar emprego, isto é, excluídos os trabalhadores informais, o lumpesinato e os miseráveis que perambulam pelas ruas -permanece na assustadora cifra dos 14 milhões e, como vimos, não há sinais de recuperação da economia, donde se torna  fácil concluir que esse montante só irá crescer. O que há no horizonte, com a "reforma" antissocial da Previdência, é a perspectiva de restrições ao seguro desemprego.  Enquanto isso, o governo insiste em desestabilizar o Mercosul, o principal importador de nossos produtos manufaturados.
Evidentemente, ha método nessa loucura.As fiesps da vida, dirigidas por figuras menores como os Skaf  e quejandos, nada têm a dizer, pois o 'mercado' só se interessa pela "reforma" da Previdência - penalizando os desempregados e os velhos e poupando os grandes salários - apresentada como panaceia para nos salvar da tragédia econômica.  Essa, todavia, prosseguirá,  pois se alimenta da brutal  sonegação de impostos que tem na avenida Paulista o seu altar.
A desconstrução prossegue.
O capitão hostiliza os países árabes e, sem consulta à nação, simplesmente supondo que afaga Donald Trump ou atendendo às pressões dos setores mais atrasados do neopentecostalismo associado às alas radicais do sionismo, senão por ambas as razões, anuncia a transferência da embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém, onde instala um escritório de negócios, ao tempo em que   determina à  nossa delegação na ONU, contrariando décadas de comportamento exemplar, seguir os EUA nas votações de interesse de Israel. Não satisfeito, arrisca perigosas  provocações ao Hamas. O que pretende? Nossa carne e frango têm no mercado árabe seu maior comprador. Empresas brasileiras exportadoras de aves já ensaiam instalar-se em países do Oriente Médio.
Por motivos que não se deu ao cuidado de explicar, o governo se mete no duelo comercial entre EUA e China, como linha auxiliar da política norte-americana. A China, porém, sabemos todos, ignora o capitão porque lhe convém, comprou 86% do total de soja que o Brasil exportou no ano passado, 50% de todas as vendas da Vale, e é um dos maiores importadores da soja brasileira. Tudo, ao final, termina por  beneficiar os EUA, nosso competidor nessas e em várias outras commodities.
O crescimento do PIB, em 2019, segundo previsões do 'mercado', será inferior  a 2%,  e o Banco Mundial vê o aumento da pobreza no Brasil "após uma década de ouro de 2003 a 2013", mas o governo não vê suas consequências na coesão nacional, enquanto estimula o dissenso, provoca os adversários, incita a  violência e dissemina o medo.
A desconstrução vai em frente.
O projeto do novo regime não consiste, tão-só, em destruir o presente; trata-se, já agora, de evitar o futuro, esmagando as atividades que asseguram, ou assegurariam, nosso progresso, nossa autonomia, nossa independência. Trata-se de destruir a educação e as expectativas de  desenvolvimento em ciência e tecnologia.
O colegiado corporação-mercado, capitão-general, congelou nada menos de 42% do orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Dos cerca de R$ 5,079 bilhões previstos no Orçamento para 2019, foram bloqueados R$ 2,132 bilhões. As reservas para pagamento dos bolsistas do CNPq não chegarão a julho.
O Ministério da Educação (MEC), foi abatido com um congelamento de 24,7% das despesas discricionárias. Dos R$ 23,633 bilhões previstos  no orçamento para 2019, nada menos de R$ 5,839 bilhões foram contingenciados, restando para empenho, ao sabor os czares do Ministério da Economia, menos de R$ 18 bilhões. 
Acresce-se a ocupação, por militares, dos cargos técnicos das autarquias das áreas de ciência e tecnologia e educação, dela afastando os quadros da academia. Assim, o CNPq e a CAPES são  campos do ITA e a FINEP está sendo ocupada por coronéis do IME.
Trocando em miúdos: estamos diante do desmonte do sistema nacional de ciência e tecnologia.
O sucessor do colombiano - macaco em cristaleira - já disse a que veio. Para ele as universidades do Nordeste (detesta a escola pública) não deveriam oferecer cursos de filosofia, sociologia e coisas assim, comunizantes, mas se dedicar ao ensino de agronomia, em convênio com Israel.
Mas o desastre é mais amplo ainda.
O capitão age como detergente em nossa dignidade.
Diz-se que copia Trump, seu ícone. Mas há diferenças. O presidente dos EUA é, com todos os seus rompantes e seu risível topete, como em sua bem organizada paranoia,  um nacionalista de fato, adepto do protecionismo em termos de mercado internacional, e, de uma forma ou de outra, está preservando a economia de seu país e gerando emprego. Nada a ver com o que ocorre no lado de baixo do Equador. 
O capitão, versão contemporânea da mais abjeta vira-latice, não cessa de tomar decisões que ora prejudicam nossos produtos, ora são obras de pura lesa-pátria, como a destruição da Petrobras, o programa de privatização selvagem e ao sabor da bacia das almas, e a entrega da base de lançamentos de foguetes de Alcântara, de decisiva e insuperável  importância estratégica para nossa segurança e nossos interesses comerciais. Entregou-a aos EUA para quê? Por quê? A que preço? Não se sabe. Sabe-se, porém, que esta vilania foi a pá de cal no programa espacial brasileiro, de mais de 50 anos. Sabe-se mais, que a política externa  que desacata nossa história e relega a plano secundário nossos interesses, e a entrega de nossa economia, assim a olhos vistos, se fazem  acobertadas pelo  silêncio comprometedor das forças armadas brasileiras que, no passado, teceram uma louvável saga de defesa dos interesses nacionais, de que um só exemplo foi a consolidação do monopólio estatal do petróleo, obra histórica - fundamental para o desenvolvimento e  segurança do país - que teve no general Horta Barbosa seu mais destacado condutor, e no Clube Militar, nele com destaque a atuação do também general Estilac Leal,  um centro de debates. 
As forças armadas de hoje, à mingua de lideranças à altura do desafio histórico que se coloca para os destinos do país, são corresponsáveis por uma política econômica que em nome de um mercado licencioso restringe os direitos sociais e consagra o Estado repressivo, nega a história e professa o anacronismo social, moral, jurídico, religioso. Ao fim e ao cabo, nossas forças armadas são o sujeito e o sustentáculo de  uma política externa que prima pelo entreguismo, palavrão que volta à tona com o governo que sua aliança com o mercado levou ao Planalto.
Perorando sobre o óbvio, o general vice-presidente, em nova e doce vilegiatura, desta feita em palestra em Washington (sempre lá), reconheceu, para estudantes brasileiros, que, se o governo fracassar, a "conta" irá para as forças armadas.
O governo já fracassou e as forças armadas responderão pelo seu fracasso. E a História não esperará por muito tempo.
Para onde caminhamos? Doze soldados do Exército disparam 80 tiros de fuzil contra um carro onde se encontravam  o músico Evaldo Rosa dos Santos, seu sogro, sua mulher, uma amiga,  e uma criança. Mataram o motorista, feriram o carona e, gravemente, um popular que tentou  socorrer as vítimas. O governador do Rio de Janeiro autoriza às tropas da PM o fuzilamento de 'suspeitos', e o capitão-presidente defende a posse e o uso indiscriminados de armas de fogo.
E a pergunta que não pode calar: afinal, quem mandou matar Marielle?

* Roberto Amaral é cientista político (ramaral.org)