Um bolo de gente

Geral

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
À beira dos 40, eu faço 
parte de uma gera-
ção nascida e criada sob o signo da revolução cultural. Antes mesmo de eu dar o primeiro berro, os franceses quebraram tudo com o fim de empossar a imaginação no poder. Os americanos, por sua vez, entupiram a piolheira de ácido e fizeram amor para se opor à guerra. Quando os brasileiros saíram às ruas, dispostos a tudo por eleições diretas, cumpriram o seu destino como povo e me entregaram a liberdade possível de mãos beijadas.
Tamanha herança cobraria um preço. Eu mesmo jamais tive de lutar por nada. Enfrentei, claro, todas as circunstâncias próprias da vida. Escola, trabalho, o fogo imenso das paixões e dinheiro contado. Cercado de privilégios, contudo, sempre apliquei para resgate futuro o capital líquido e certo de um cidadão em pleno gozo de seus direitos. Tudo indica, contra qualquer expectativa, a poupança calculada em termos de direitos e deveres corre o risco de ser confiscada.
O presidente Bolsonaro estica a corda desde o primeiro dia no Palácio do Planalto. E deu motivo para todo mundo pedir a sua cabeça em praça pública. Manifestações de repúdio contra os cortes na educação eram mais ou menos previsíveis. Pela renovação da linguagem expressa nas ruas, em gritos de guerra e cartazes rasurados de próprio punho, entretanto, ninguém esperava.
Este não é um relato em primeira pessoa, mas as minhas fontes são perfeitamente confiáveis. Qualquer um que tomou parte nos protestos dirá o mesmo. Aqui e ali, um Lula Livre ecoou com a força e a convicção de sempre. Mas o que se vê nos vídeos e fotografias que registraram esse dia histórico é um povo dono do próprio nariz, um amontoado de gente que sabe muito bem onde o calo aperta e não deve nada a ninguém, boletos vencidos à parte.
"A alegria tem cheiro de suor". A sentença é assinada por Reinaldo Azevedo, jornalista que a esquerda deu de ler, de uns tempo pra cá, apesar da desconfiança latente. De todo modo, o achado traduz com perfeição o espírito das manifestações populares que varreram o Brasil de norte a sul, última quarta-feira. 
Não é a primeira vez que eu acompanho o curso dos acontecimentos com os olhos abertos, os pés fincados numa esquina da história. Mas desde os caras pintadas, os gritos de guerra ecoando dos trios elétricos e carros de som soam sempre cansados. Nas jornadas de junho, o único rasgo de lirismo foi obra e graça da estratégia black bloc. Não à toa, os mascarados vestidos de preto foram rechaçados pela militância partidária, fracamente atordoada.
Dessa vez foi diferente. Há algo de belo e moral naquele bolo de gente. Quando é assim, a linguagem floresce, apela aos corações, alto e claro.

À beira dos 40, eu faço  parte de uma gera- ção nascida e criada sob o signo da revolução cultural. Antes mesmo de eu dar o primeiro berro, os franceses quebraram tudo com o fim de empossar a imaginação no poder. Os americanos, por sua vez, entupiram a piolheira de ácido e fizeram amor para se opor à guerra. Quando os brasileiros saíram às ruas, dispostos a tudo por eleições diretas, cumpriram o seu destino como povo e me entregaram a liberdade possível de mãos beijadas.
Tamanha herança cobraria um preço. Eu mesmo jamais tive de lutar por nada. Enfrentei, claro, todas as circunstâncias próprias da vida. Escola, trabalho, o fogo imenso das paixões e dinheiro contado. Cercado de privilégios, contudo, sempre apliquei para resgate futuro o capital líquido e certo de um cidadão em pleno gozo de seus direitos. Tudo indica, contra qualquer expectativa, a poupança calculada em termos de direitos e deveres corre o risco de ser confiscada.
O presidente Bolsonaro estica a corda desde o primeiro dia no Palácio do Planalto. E deu motivo para todo mundo pedir a sua cabeça em praça pública. Manifestações de repúdio contra os cortes na educação eram mais ou menos previsíveis. Pela renovação da linguagem expressa nas ruas, em gritos de guerra e cartazes rasurados de próprio punho, entretanto, ninguém esperava.
Este não é um relato em primeira pessoa, mas as minhas fontes são perfeitamente confiáveis. Qualquer um que tomou parte nos protestos dirá o mesmo. Aqui e ali, um Lula Livre ecoou com a força e a convicção de sempre. Mas o que se vê nos vídeos e fotografias que registraram esse dia histórico é um povo dono do próprio nariz, um amontoado de gente que sabe muito bem onde o calo aperta e não deve nada a ninguém, boletos vencidos à parte.
"A alegria tem cheiro de suor". A sentença é assinada por Reinaldo Azevedo, jornalista que a esquerda deu de ler, de uns tempo pra cá, apesar da desconfiança latente. De todo modo, o achado traduz com perfeição o espírito das manifestações populares que varreram o Brasil de norte a sul, última quarta-feira. 
Não é a primeira vez que eu acompanho o curso dos acontecimentos com os olhos abertos, os pés fincados numa esquina da história. Mas desde os caras pintadas, os gritos de guerra ecoando dos trios elétricos e carros de som soam sempre cansados. Nas jornadas de junho, o único rasgo de lirismo foi obra e graça da estratégia black bloc. Não à toa, os mascarados vestidos de preto foram rechaçados pela militância partidária, fracamente atordoada.
Dessa vez foi diferente. Há algo de belo e moral naquele bolo de gente. Quando é assim, a linguagem floresce, apela aos corações, alto e claro.

 


COMPARTILHAR NAS REDES SOCIAIS