Mentiras exigidas

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Publicada em 17/05/2019 às 22:34:00

 

* Antonio Passos
Venho experimentando um sentimento confuso quando ainda me permito ouvir "comentaristas" econômicos na TV e no rádio. Inicialmente, tenho um forte impulso para o riso, pois, as narrativas são explicitamente cômicas, porém, logo em seguida perco a graça. Isso ocorre porque a comicidade aparece como um efeito colateral, entretanto, a intenção é evidentemente maldosa, enganadora e danosa. Usarei sempre o termo "comentaristas" entre aspas, pois, hoje, o que temos, a rigor, são propagandistas.
Dia desses, na emissora CBN, um desses "comentaristas" criticava com veemência o estado como o grande entrave para o sucesso das novas e pequenas empresas. Contudo, dizia que mesmo assim, com o empenho e a dedicação dos aspirantes a empresários, os negócios dariam certo, pois, o mercado é um balcão de grandes oportunidades sempre abertas para aqueles que têm verdadeiro compromisso com o empreendedorismo. Vieram os comerciais e em seguida entrou um consultor financeiro.
Foi então lida uma pergunta enviada por um ouvinte: "eu e minha mulher estamos desempregados, vendemos um imóvel que tínhamos por 150 mil reais e abrimos uma pequena empresa. Qual a melhor aplicação para o nosso dinheiro?". O consultor respondeu: "no caso de vocês é melhor não aplicar agora, pois, pequenos empreendimentos, para dar certo, precisam um bom dinheiro na mão...". Oxente! Antes bastava empenho pessoal, agora é preciso um bom dinheiro para um pequeno negócio progredir?
O exemplo descrito acima foi, digamos, um "ato falho" dos editores. Dois comentários contraditórios entre si transmitidos em sequência. Digo isso porque a discordância, a contraposição de ideias é tudo o que não há hoje entre esses "comentaristas" econômicos do rádio e da TV. Aproveitando um termo muito empregado pelo jornalista Hélio Fernandes, fica a impressão de que todos esses "comentaristas", antes de e para serem contratados, passaram por um condicionamento que os tornou todos "amestrados".
Alguns são nitidamente ingênuos, repetem discursos que ouviram de modo autômato, sem um mínimo resquício de reflexão. Outros, não conseguem esconder a face do egoísmo e da maledicência por trás da máscara de seriedade. Esses, é como se dissessem: "minto, distorço, engano e daí? O povo que se exploda, o importante é garantir o meu". Há ainda os que deixam escapar algum constrangimento. Todos, entretanto, pregam o mesmo dogma, rezam por uma só cartilha que diz: o mercado é o nosso Deus.
Como um argumento irreal torna-se muito difícil de ser sustentado continuadamente - ainda mais em uma atividade como o jornalismo que dialoga cotidianamente com a realidade - saias justas começam a pipocar aqui e ali. Isso está fazendo com que todos ou quase todos os "comentaristas" de economia pareçam atuar em uma comédia-pastelão. Como diz o chavão: seria cômico se não fosse trágico. Vale ainda, para concluir, lembrar uma das famosas frases do dramaturgo Nelson Rodrigues: "toda unanimidade é burra".
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Venho experimentando um sentimento confuso quando ainda me permito ouvir "comentaristas" econômicos na TV e no rádio. Inicialmente, tenho um forte impulso para o riso, pois, as narrativas são explicitamente cômicas, porém, logo em seguida perco a graça. Isso ocorre porque a comicidade aparece como um efeito colateral, entretanto, a intenção é evidentemente maldosa, enganadora e danosa. Usarei sempre o termo "comentaristas" entre aspas, pois, hoje, o que temos, a rigor, são propagandistas.
Dia desses, na emissora CBN, um desses "comentaristas" criticava com veemência o estado como o grande entrave para o sucesso das novas e pequenas empresas. Contudo, dizia que mesmo assim, com o empenho e a dedicação dos aspirantes a empresários, os negócios dariam certo, pois, o mercado é um balcão de grandes oportunidades sempre abertas para aqueles que têm verdadeiro compromisso com o empreendedorismo. Vieram os comerciais e em seguida entrou um consultor financeiro.
Foi então lida uma pergunta enviada por um ouvinte: "eu e minha mulher estamos desempregados, vendemos um imóvel que tínhamos por 150 mil reais e abrimos uma pequena empresa. Qual a melhor aplicação para o nosso dinheiro?". O consultor respondeu: "no caso de vocês é melhor não aplicar agora, pois, pequenos empreendimentos, para dar certo, precisam um bom dinheiro na mão...". Oxente! Antes bastava empenho pessoal, agora é preciso um bom dinheiro para um pequeno negócio progredir?
O exemplo descrito acima foi, digamos, um "ato falho" dos editores. Dois comentários contraditórios entre si transmitidos em sequência. Digo isso porque a discordância, a contraposição de ideias é tudo o que não há hoje entre esses "comentaristas" econômicos do rádio e da TV. Aproveitando um termo muito empregado pelo jornalista Hélio Fernandes, fica a impressão de que todos esses "comentaristas", antes de e para serem contratados, passaram por um condicionamento que os tornou todos "amestrados".
Alguns são nitidamente ingênuos, repetem discursos que ouviram de modo autômato, sem um mínimo resquício de reflexão. Outros, não conseguem esconder a face do egoísmo e da maledicência por trás da máscara de seriedade. Esses, é como se dissessem: "minto, distorço, engano e daí? O povo que se exploda, o importante é garantir o meu". Há ainda os que deixam escapar algum constrangimento. Todos, entretanto, pregam o mesmo dogma, rezam por uma só cartilha que diz: o mercado é o nosso Deus.
Como um argumento irreal torna-se muito difícil de ser sustentado continuadamente - ainda mais em uma atividade como o jornalismo que dialoga cotidianamente com a realidade - saias justas começam a pipocar aqui e ali. Isso está fazendo com que todos ou quase todos os "comentaristas" de economia pareçam atuar em uma comédia-pastelão. Como diz o chavão: seria cômico se não fosse trágico. Vale ainda, para concluir, lembrar uma das famosas frases do dramaturgo Nelson Rodrigues: "toda unanimidade é burra".

* Antonio Passos é jornalista