FAB fará reconstituição de acidente com cantor

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Publicada em 01/06/2019 às 14:56:00

 

Gabriel Damásio
Está previsto para esta 
semana o início de 
uma segunda etapa nas investigações do acidente aéreo que abalou Sergipe e repercutiu nacionalmente na semana passada: a queda da aeronave Piper PA28 Archer, de prefixo PT-KLO, pertencente ao Aeroclube de Alagoas, que transportava o cantor paraibano Gabriel Diniz - um dos principais ídolos do gênero forró-sertanejo - e os pilotos alagoanos Abraão Farias e Linaldo Xavier. Os três morreram no acidente, ocorrido em uma área de mangue no povoado Porto do Mato, em Estância (Sul). Agora, acontecerá uma análise mais detalhada dos destroços do monomotor, que já estão praticamente recolhidos ao galpão do Aeroclube de Aracaju, sob responsabilidade da Força Aérea Brasileira (FAB). 
A partir desta segunda-feira, os investigadores do 2º Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos (Seripa II), ligados à FAB, devem tentar reconstituir a estrutura da aeronave, a fim de estudar a forma como ela estava montada e tentar identificar se ela sofreu algum tipo de avaria ou interferência externa durante o último voo, ocorrido na manhã da segunda-feira passada. Em seguida, as peças devem ser encaminhadas para um laboratório de análise de destroços mantido pela FAB em Recife (PE), onde outras perícias serão procedidas. Uma das principais partes a ser analisada será o motor da aeronave, a fim de identificar se ele teve algum problema de funcionamento. 
Especialistas da área aeronáutica estimam que uma investigação de acidente aéreo dure em média 18 meses para conclusão. Oficialmente, a FAB afirma que a conclusão das investigações acontecerá "no menor tempo possível, mas a depender da complexidade do acidente" e de seus fatores correlatos. Esclarece ainda que o objetivo não é apontar responsabilidades legais ou criminais, mas identificar e corrigir falhas que podem evitar a ocorrência de novos acidentes. Esta regra está fundamentada na Convenção de Chicago, assinada em 1948 pelos países da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), incluindo o Brasil. O documento reza que "o único objetivo da investigação de acidente será o da prevenção de futuros acidentes" e que "todo procedimento judicial ou administrativo para determinar culpa ou responsabilidade deve ser independente da investigação de acidente aeronáutico".
É o que será feito pela Polícia Federal, que instaurou um inquérito policial para apurar indícios da suposta "prática do crime de atentado contra a segurança de transporte aéreo". Isto porque os ocupantes da aeronave podem ter descumprido uma regulamentação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Segundo a agência, o avião PT-KLO estava com a documentação regular e registrada como aeronave de instrução, podendo ser usada apenas para voos de treinamento. No entanto, o pai de um dos pilotos disse à imprensa alagoana que Gabriel Diniz teria contratado o filho para fretar o voo entre Salvador e Maceió, o que não é permitido para aeronaves de instrução. Por causa dessas informações, a Anac também abriu inquérito e interditou cautelarmente as atividades do Aeroclube de Alagoas. Os dois procedimentos tramitam igualmente em sigilo e sem tempo determinado, podendo resultar em responsabilidades criminais e administrativas para os responsáveis. 
Foi o tempo? - Uma das hipóteses mais apontadas no momento como provável causa do acidente - mas que ainda precisa ser confirmada pelo Seripa II - é uma possível interferência das condições do tempo na região do acidente. O site do projeto independente Letras Ambientais publicou nesta quinta-feira um levantamento feito pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), ligado à Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Ele analisou fotografias de câmeras de segurança, do município de Estância, informações geográficas, imagens de radar meteorológico e imagens de satélites. 
Entre os documentos, está uma carta aeronáutica, elaborada pelo Centro Integrado de Meteorologia Aeronáutica (Cimaer), ligado à FAB, para prever fenômenos meteorológicos no espaço aéreo brasileiro e orientar a elaboração dos planos de voo. A carta divulgada para os dias 27 e 28 de maio aponta que, na área litorânea entre Salvador e Aracaju, havia uma zona de instabilidade, associadas a frentes frias da região do Atlântico Sul. As condições meteorológicas indicadas na carta eram de céu nublado, com nuvens entre 0,5 a 1.800 km de altitude. Na maior parte da rota, havia nuvens baixas e médias, do tipo nimbostratus ou stratocumulus, que provocaram chuvas.
A conclusão da pesquisa é de que as condições meteorológicas da região de Estância estavam totalmente desfavoráveis para a realização de voos naquela tarde, por causa das chuvas e de áreas climáticas de forte turbulência, suficiente para desintegrar aeronaves de pequeno porte, a exemplo da que transportava o cantor. "O ponto mais crítico da rota da aeronave foi exatamente próximo ao meio dia. Em toda a área de Estância, havia uma situação de condições meteorológicas adversas, de ventos intensos em baixos níveis e tempestades localizadas. Exatamente na área de Estância, onde foram encontrados os destroços, naquele intervalo de tempo, a atmosfera estava totalmente desfavorável para o voo", destaca o meteorologista Humberto Barbosa, do Lapis, em entrevista ao Letras Ambientais.
Mais peças - Mesmo com a conclusão oficial do trabalho de recolhimento dos destroços, que foi realizado na região com equipes do Corpo de Bombeiros, das polícias Militar e Federal, da Defesa Civil Municipal de Estância, da própria FAB e com apoio da comunidade local, algumas peças e documentos da aeronave, bem como pertences pessoais das três vítimas, continuam sendo encontradas aos poucos, tanto por pescadores e moradores da comunidade local quanto por técnicos da Administração Estadual do Meio Ambiente (Adema), que permanecem na região para fazer o levantamento dos impactos ambientais provocados pelo desastre. Este levantamento acontece porque a área é considerada de preservação ambiental. 
O presidente da Adema, Gilvan Dias, confirmou na sexta-feira, em entrevista à rádio CBN, que uma lista de passageiros e outras partes da aeronave foram encontradas na quinta - um dia após o encerramento oficial das buscas - em uma área de aproximadamente meio metro de distância do local exato da queda. Todo esse material foi repassado pela Adema para a Polícia Federal, que participa das investigações e ficou em poder de documentos e pertences pessoais das vítimas - ainda pendentes de liberação. "Ainda podemos encontrar outros materiais que podem ter se perdido", admitiu ele, citando como exemplo a bateria da aeronave. Segundo ele, essa bateria pode estar enterrada no mangue e existe a preocupação de que ela contamine mais a área de mangue, por causa das substâncias químicas contidas na peça. 

Gabriel Damásio

Está previsto para esta  semana o início de  uma segunda etapa nas investigações do acidente aéreo que abalou Sergipe e repercutiu nacionalmente na semana passada: a queda da aeronave Piper PA28 Archer, de prefixo PT-KLO, pertencente ao Aeroclube de Alagoas, que transportava o cantor paraibano Gabriel Diniz - um dos principais ídolos do gênero forró-sertanejo - e os pilotos alagoanos Abraão Farias e Linaldo Xavier. Os três morreram no acidente, ocorrido em uma área de mangue no povoado Porto do Mato, em Estância (Sul). Agora, acontecerá uma análise mais detalhada dos destroços do monomotor, que já estão praticamente recolhidos ao galpão do Aeroclube de Aracaju, sob responsabilidade da Força Aérea Brasileira (FAB). 
A partir desta segunda-feira, os investigadores do 2º Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aéreos (Seripa II), ligados à FAB, devem tentar reconstituir a estrutura da aeronave, a fim de estudar a forma como ela estava montada e tentar identificar se ela sofreu algum tipo de avaria ou interferência externa durante o último voo, ocorrido na manhã da segunda-feira passada. Em seguida, as peças devem ser encaminhadas para um laboratório de análise de destroços mantido pela FAB em Recife (PE), onde outras perícias serão procedidas. Uma das principais partes a ser analisada será o motor da aeronave, a fim de identificar se ele teve algum problema de funcionamento. 
Especialistas da área aeronáutica estimam que uma investigação de acidente aéreo dure em média 18 meses para conclusão. Oficialmente, a FAB afirma que a conclusão das investigações acontecerá "no menor tempo possível, mas a depender da complexidade do acidente" e de seus fatores correlatos. Esclarece ainda que o objetivo não é apontar responsabilidades legais ou criminais, mas identificar e corrigir falhas que podem evitar a ocorrência de novos acidentes. Esta regra está fundamentada na Convenção de Chicago, assinada em 1948 pelos países da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), incluindo o Brasil. O documento reza que "o único objetivo da investigação de acidente será o da prevenção de futuros acidentes" e que "todo procedimento judicial ou administrativo para determinar culpa ou responsabilidade deve ser independente da investigação de acidente aeronáutico".
É o que será feito pela Polícia Federal, que instaurou um inquérito policial para apurar indícios da suposta "prática do crime de atentado contra a segurança de transporte aéreo". Isto porque os ocupantes da aeronave podem ter descumprido uma regulamentação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Segundo a agência, o avião PT-KLO estava com a documentação regular e registrada como aeronave de instrução, podendo ser usada apenas para voos de treinamento. No entanto, o pai de um dos pilotos disse à imprensa alagoana que Gabriel Diniz teria contratado o filho para fretar o voo entre Salvador e Maceió, o que não é permitido para aeronaves de instrução. Por causa dessas informações, a Anac também abriu inquérito e interditou cautelarmente as atividades do Aeroclube de Alagoas. Os dois procedimentos tramitam igualmente em sigilo e sem tempo determinado, podendo resultar em responsabilidades criminais e administrativas para os responsáveis. 

Foi o tempo? - Uma das hipóteses mais apontadas no momento como provável causa do acidente - mas que ainda precisa ser confirmada pelo Seripa II - é uma possível interferência das condições do tempo na região do acidente. O site do projeto independente Letras Ambientais publicou nesta quinta-feira um levantamento feito pelo Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), ligado à Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Ele analisou fotografias de câmeras de segurança, do município de Estância, informações geográficas, imagens de radar meteorológico e imagens de satélites. 
Entre os documentos, está uma carta aeronáutica, elaborada pelo Centro Integrado de Meteorologia Aeronáutica (Cimaer), ligado à FAB, para prever fenômenos meteorológicos no espaço aéreo brasileiro e orientar a elaboração dos planos de voo. A carta divulgada para os dias 27 e 28 de maio aponta que, na área litorânea entre Salvador e Aracaju, havia uma zona de instabilidade, associadas a frentes frias da região do Atlântico Sul. As condições meteorológicas indicadas na carta eram de céu nublado, com nuvens entre 0,5 a 1.800 km de altitude. Na maior parte da rota, havia nuvens baixas e médias, do tipo nimbostratus ou stratocumulus, que provocaram chuvas.
A conclusão da pesquisa é de que as condições meteorológicas da região de Estância estavam totalmente desfavoráveis para a realização de voos naquela tarde, por causa das chuvas e de áreas climáticas de forte turbulência, suficiente para desintegrar aeronaves de pequeno porte, a exemplo da que transportava o cantor. "O ponto mais crítico da rota da aeronave foi exatamente próximo ao meio dia. Em toda a área de Estância, havia uma situação de condições meteorológicas adversas, de ventos intensos em baixos níveis e tempestades localizadas. Exatamente na área de Estância, onde foram encontrados os destroços, naquele intervalo de tempo, a atmosfera estava totalmente desfavorável para o voo", destaca o meteorologista Humberto Barbosa, do Lapis, em entrevista ao Letras Ambientais.

Mais peças - Mesmo com a conclusão oficial do trabalho de recolhimento dos destroços, que foi realizado na região com equipes do Corpo de Bombeiros, das polícias Militar e Federal, da Defesa Civil Municipal de Estância, da própria FAB e com apoio da comunidade local, algumas peças e documentos da aeronave, bem como pertences pessoais das três vítimas, continuam sendo encontradas aos poucos, tanto por pescadores e moradores da comunidade local quanto por técnicos da Administração Estadual do Meio Ambiente (Adema), que permanecem na região para fazer o levantamento dos impactos ambientais provocados pelo desastre. Este levantamento acontece porque a área é considerada de preservação ambiental. 
O presidente da Adema, Gilvan Dias, confirmou na sexta-feira, em entrevista à rádio CBN, que uma lista de passageiros e outras partes da aeronave foram encontradas na quinta - um dia após o encerramento oficial das buscas - em uma área de aproximadamente meio metro de distância do local exato da queda. Todo esse material foi repassado pela Adema para a Polícia Federal, que participa das investigações e ficou em poder de documentos e pertences pessoais das vítimas - ainda pendentes de liberação. "Ainda podemos encontrar outros materiais que podem ter se perdido", admitiu ele, citando como exemplo a bateria da aeronave. Segundo ele, essa bateria pode estar enterrada no mangue e existe a preocupação de que ela contamine mais a área de mangue, por causa das substâncias químicas contidas na peça.