Abraço de afogados

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Publicada em 07/06/2019 às 22:40:00

 

* Emir Sader
Era tradição que todo novo presidente 
do Brasil e da Argentina começasse 
seu mandato visitando o presidente do país vizinho. Porém, as relações entre os dois países mudou realmente, quando Lula e Nestor Kirchner, recém eleitos, abriram uma nova etapa na relação entre o Brasil e a Argentina.
A política norte-americana tinha sido sempre a de tratar de separar e opor os três principais países do continente - Argentina, Brasil e México. Tratavam de que os governantes e os militares do Brasil e da Argentina considerassem o outro país como seu adversário, concorrente e até mesmo principal hipótese de guerra.
Lula e Nestor estabeleceram relações fraternais e de aliança estratégica entre os dois países, que implicava a identidade de interesses e de valores dos dois países, no marco da integração latino-americana. Formaram o eixo a partir do qual se fortaleceu e se expandiu o Mercosul, se criaram Unasul e Celac.
Nunca as relações entre os países da região se intensificaram tanto, nunca foram tão cordiais, nunca se viveu um tempo de relações tão fraternais, pacificas e harmoniosas entre os governos do continente. E nunca os EUA estivera tão isolados na America Latina. Porque os países que prosperavam, diminuíam a exclusão social, promoviam os processos de integração, eram países governados com consciência da soberania nacional e das contradições com o governo norte-americano.
Não por acaso a ação dos EUA de retomar a iniciativa no continente através da estratégia da guerra híbrida, se concentrou inicialmente na Argentina e no Brasil, para buscar desarticular o eixo dos processos de integração latino-americana. Não por acaso foi nesses dois países que ressurgiram os governos mais subservientes a Washington.
Depois de romper com a tradição de visitar-se prioritariamente, os presidentes da Argentina e do Brasil se encontraram em Buenos Aires. Como demoraram para se encontrar, ambos se encontram já em situações de recessão econômica, desemprego recorde e perda de apoio em cada um dos países. Não se sabe quem apoia quem, que grau de desgaste traz um para o outro, quão fraternal foi o abraço de afogado entre Macri e Bolsonaro.
Depois de renunciar à vista a Nova York para, segundo o próprio presidente do Brasil, evitar de levar uma torta na cara, ele foi a Buenos Aires, onde não lhe esperava recepção menos hostil. O abraço que se deram ele e Macri, não era o abraço solidário, de respeito e admiração, mas o abraço de afogados. Sabem que não voltarão a se abraçar. Os argentinos estão prontos para se livrarem de Macri em outubro. Nem o próprio Bolsonaro sabe do seu futuro. Os papéis que assinaram, o vento levará.
Ao contrário dos encontros entre Lula e Nestor, Dilma e Cristina, não havia nenhuma alegria, nenhum projeto de aprofundar a colaboração mútua, nada de solidariedade e projetos de futuro. Sabem que são bonecos, usados para evitar a continuidade de governos queridos pelos povos dos seus país, que servem aos interesses de Washington, que passarão à noite como notas de rodapé.
* Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

* Emir Sader

Era tradição que todo novo presidente  do Brasil e da Argentina começasse  seu mandato visitando o presidente do país vizinho. Porém, as relações entre os dois países mudou realmente, quando Lula e Nestor Kirchner, recém eleitos, abriram uma nova etapa na relação entre o Brasil e a Argentina.
A política norte-americana tinha sido sempre a de tratar de separar e opor os três principais países do continente - Argentina, Brasil e México. Tratavam de que os governantes e os militares do Brasil e da Argentina considerassem o outro país como seu adversário, concorrente e até mesmo principal hipótese de guerra.
Lula e Nestor estabeleceram relações fraternais e de aliança estratégica entre os dois países, que implicava a identidade de interesses e de valores dos dois países, no marco da integração latino-americana. Formaram o eixo a partir do qual se fortaleceu e se expandiu o Mercosul, se criaram Unasul e Celac.
Nunca as relações entre os países da região se intensificaram tanto, nunca foram tão cordiais, nunca se viveu um tempo de relações tão fraternais, pacificas e harmoniosas entre os governos do continente. E nunca os EUA estivera tão isolados na America Latina. Porque os países que prosperavam, diminuíam a exclusão social, promoviam os processos de integração, eram países governados com consciência da soberania nacional e das contradições com o governo norte-americano.
Não por acaso a ação dos EUA de retomar a iniciativa no continente através da estratégia da guerra híbrida, se concentrou inicialmente na Argentina e no Brasil, para buscar desarticular o eixo dos processos de integração latino-americana. Não por acaso foi nesses dois países que ressurgiram os governos mais subservientes a Washington.
Depois de romper com a tradição de visitar-se prioritariamente, os presidentes da Argentina e do Brasil se encontraram em Buenos Aires. Como demoraram para se encontrar, ambos se encontram já em situações de recessão econômica, desemprego recorde e perda de apoio em cada um dos países. Não se sabe quem apoia quem, que grau de desgaste traz um para o outro, quão fraternal foi o abraço de afogado entre Macri e Bolsonaro.
Depois de renunciar à vista a Nova York para, segundo o próprio presidente do Brasil, evitar de levar uma torta na cara, ele foi a Buenos Aires, onde não lhe esperava recepção menos hostil. O abraço que se deram ele e Macri, não era o abraço solidário, de respeito e admiração, mas o abraço de afogados. Sabem que não voltarão a se abraçar. Os argentinos estão prontos para se livrarem de Macri em outubro. Nem o próprio Bolsonaro sabe do seu futuro. Os papéis que assinaram, o vento levará.
Ao contrário dos encontros entre Lula e Nestor, Dilma e Cristina, não havia nenhuma alegria, nenhum projeto de aprofundar a colaboração mútua, nada de solidariedade e projetos de futuro. Sabem que são bonecos, usados para evitar a continuidade de governos queridos pelos povos dos seus país, que servem aos interesses de Washington, que passarão à noite como notas de rodapé.

* Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros