Os amantes da viúva

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Publicada em 08/06/2019 às 14:26:00

 

*Rangel Alves da Costa
Outro dia, o jornalista e escritor Marcos Cardoso escreveu um artigo esclarecedor acerca da situação financeira de muitas prefeituras, suas receitas e seus poderes de sobrevivência para, em síntese, dizer que verdadeiramente não há motivo pra tanto chororô. Segundo o articulista, os recursos repassados logo afastam a situação de penúria e de calamidade. Na verdade, segundo diz, prefeitos existem que choram de barriga cheia. E com plena razão de análise. É bem assim mesmo.
Já escrevi sobre tal dramaticidade espertalhona. Igualmente escrevi sobre a conta da eleição em comparação ao salário na junção dos quatro anos de mandato. O que se tem é a clara intenção de alardeamento da penúria municipal para encobrir muitas coisas, dentre as quais a gestão ineficiente, a falta de obras que atendam às demandas da população, o depauperamento da municipalidade, mas, principalmente, o enriquecimento do gestor e de seus escolhidos. Ora, como é que um município tão empobrecido tem o poder de enriquecer alguns, e em pouco tempo?
O alardeamento de que o município é pobre, que os recursos são insuficientes para a realização de obras, que a situação financeira do país empobreceu os cofres municipais, e outras desculpas para o nada fazer, é tudo conversa pra boi dormir, não passa de embuste e enganação. As situações são corriqueiras e inaceitáveis. Assim que um gestor assume logo vao chorar rios perante a imprensa, sempre dizendo que os cofres foram encontrados vazios e que não sabem o que fazer daí em diante. Mas os cofres, segundo continuam dizendo, continuam sempre vazios. Por outros motivos que eles nunca dizem.
Numa analogia pitoresca, não seria errôneo dizer que administrar atualmente é quase como uma receita de bolo, só bastando não querer trocar os ingredientes, como faz a maioria. Grande parte dos recursos já chega especificado. Recursos próprios para a educação e outros setores, mas que de repente tomam outro rumo como num passe de mágica. Recursos são tirados de alguns fundos para cobrir outros, e assim em diante. Daí faltar merenda e gasolina para o transporte escolar, quando os recursos já foram repassados. Daí a não realização de obras com verbas já garantidas.
Alardeia-se a penúria por esperteza, apenas isso. Espalham a desgraça e a crise apenas como modo de ocultar outras realidades. Municípios pobres e prefeitos ricos, municípios caindo aos pedaços e gestores comprando fazendas em outros estados, municípios vivendo à míngua e administradores zombando da população com seus desregramentos e luxos e esbanjamentos descomunais. E será que apenas com o salário recebido - que sempre é vultoso para a realidade - daria para um gestor enriquecer tanto assim e com rapidez de raio? Alguma coisa de podre há no reino da municipalidade, disso não há como duvidar.
Até hoje ainda não apareceu nenhum enviado dos céus que se candidate a prefeito apenas por abnegação, pelo gosto ao trabalho e o amor à municipalidade. Todos que se candidatam possuem intenções maiores - e sempre misteriosas - além da simples vitória. Os objetivos são sempre outros, e obscuros, muito obscuros, Ou desavergonhamento mesmo, na mais pura expressão da palavra. É o olho na viúva que sempre move a disputa. Segundo a sabedoria popular, viúva é a denominação comumente dada às prefeituras municipais, e por motivos tão conhecidos como melindrosos.
Viúva rica, generosa e graciosa. Viúva que é sonho de todo amante, pois nela o poder, a riqueza e o fausto. Viúva de breve relacionamento - ou de mandato amoroso com tempo determinado -, mas que sempre garante sair de seus braços de anel dourado e conta polpuda. A viúva, caridosa demais que é, permite praticar nepotismo, praticar um vergonhoso joguete de empreguismo. Quem é que não quer uma viúva que de tão boa lhe entrega as chaves dos cofres? Assim acontece com a viúva da municipalidade, aquela velha senhora tão desejada e que recebe o nome de prefeitura.
Para alcançar suas chaves se faz de tudo. A mentira é sempre o maior mote. A mentira da honestidade, das boas intenções, da vontade de trabalhar, do respeito ao povo e ao município, do senso transformador, da ética e do compromisso com o trabalho. Todo candidato diz isso, mas quantos eleitos perseguem a dignidade e a decência? Ora, um candidato que para ser eleito gasta o equivalente a dez vezes mais do que vai ganhar no seu tempo de gestão, logo estará demonstrando suas reais intenções. 
Prefeituras existem que são verdadeiras organizações criminosas nas mãos de gestores mestres na rapinagem. Cosa Nostra seria um termo mais apropriado. Ao invés de administrar com decência e honestidade, os gestores transformam as prefeituras em grandes máfias, onde o capo é o prefeito e alguns escolhidos servem como sottocapos, consiglieres e soldatos. Todos ladrões. Formam uma famiglia cujos sustentáculos de roubalheira estão nas licitações viciadas, no patrocínio de shows, na transformação da merenda escolar em bolacha e ki-suco, nos desvios de verbas para contas bancárias particulares, dentre outras práticas insidiosas.
Em Sergipe, estado pequeno onde o ouvi dizer chega acompanhado da confirmação visual, é muito fácil perceber a ostentação, o enriquecimento ilícito e a riqueza camuflada, repentinamente surgida nas pessoas que fazem parte das administrações municipais, incluindo familiares dos gestores. A realidade é essa, incluindo as perseguições e as ameaças a todos que ousarem dizer que o preito beltrano ou sicrano não é santo.
*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Outro dia, o jornalista e escritor Marcos Cardoso escreveu um artigo esclarecedor acerca da situação financeira de muitas prefeituras, suas receitas e seus poderes de sobrevivência para, em síntese, dizer que verdadeiramente não há motivo pra tanto chororô. Segundo o articulista, os recursos repassados logo afastam a situação de penúria e de calamidade. Na verdade, segundo diz, prefeitos existem que choram de barriga cheia. E com plena razão de análise. É bem assim mesmo.
Já escrevi sobre tal dramaticidade espertalhona. Igualmente escrevi sobre a conta da eleição em comparação ao salário na junção dos quatro anos de mandato. O que se tem é a clara intenção de alardeamento da penúria municipal para encobrir muitas coisas, dentre as quais a gestão ineficiente, a falta de obras que atendam às demandas da população, o depauperamento da municipalidade, mas, principalmente, o enriquecimento do gestor e de seus escolhidos. Ora, como é que um município tão empobrecido tem o poder de enriquecer alguns, e em pouco tempo?
O alardeamento de que o município é pobre, que os recursos são insuficientes para a realização de obras, que a situação financeira do país empobreceu os cofres municipais, e outras desculpas para o nada fazer, é tudo conversa pra boi dormir, não passa de embuste e enganação. As situações são corriqueiras e inaceitáveis. Assim que um gestor assume logo vao chorar rios perante a imprensa, sempre dizendo que os cofres foram encontrados vazios e que não sabem o que fazer daí em diante. Mas os cofres, segundo continuam dizendo, continuam sempre vazios. Por outros motivos que eles nunca dizem.
Numa analogia pitoresca, não seria errôneo dizer que administrar atualmente é quase como uma receita de bolo, só bastando não querer trocar os ingredientes, como faz a maioria. Grande parte dos recursos já chega especificado. Recursos próprios para a educação e outros setores, mas que de repente tomam outro rumo como num passe de mágica. Recursos são tirados de alguns fundos para cobrir outros, e assim em diante. Daí faltar merenda e gasolina para o transporte escolar, quando os recursos já foram repassados. Daí a não realização de obras com verbas já garantidas.
Alardeia-se a penúria por esperteza, apenas isso. Espalham a desgraça e a crise apenas como modo de ocultar outras realidades. Municípios pobres e prefeitos ricos, municípios caindo aos pedaços e gestores comprando fazendas em outros estados, municípios vivendo à míngua e administradores zombando da população com seus desregramentos e luxos e esbanjamentos descomunais. E será que apenas com o salário recebido - que sempre é vultoso para a realidade - daria para um gestor enriquecer tanto assim e com rapidez de raio? Alguma coisa de podre há no reino da municipalidade, disso não há como duvidar.
Até hoje ainda não apareceu nenhum enviado dos céus que se candidate a prefeito apenas por abnegação, pelo gosto ao trabalho e o amor à municipalidade. Todos que se candidatam possuem intenções maiores - e sempre misteriosas - além da simples vitória. Os objetivos são sempre outros, e obscuros, muito obscuros, Ou desavergonhamento mesmo, na mais pura expressão da palavra. É o olho na viúva que sempre move a disputa. Segundo a sabedoria popular, viúva é a denominação comumente dada às prefeituras municipais, e por motivos tão conhecidos como melindrosos.
Viúva rica, generosa e graciosa. Viúva que é sonho de todo amante, pois nela o poder, a riqueza e o fausto. Viúva de breve relacionamento - ou de mandato amoroso com tempo determinado -, mas que sempre garante sair de seus braços de anel dourado e conta polpuda. A viúva, caridosa demais que é, permite praticar nepotismo, praticar um vergonhoso joguete de empreguismo. Quem é que não quer uma viúva que de tão boa lhe entrega as chaves dos cofres? Assim acontece com a viúva da municipalidade, aquela velha senhora tão desejada e que recebe o nome de prefeitura.
Para alcançar suas chaves se faz de tudo. A mentira é sempre o maior mote. A mentira da honestidade, das boas intenções, da vontade de trabalhar, do respeito ao povo e ao município, do senso transformador, da ética e do compromisso com o trabalho. Todo candidato diz isso, mas quantos eleitos perseguem a dignidade e a decência? Ora, um candidato que para ser eleito gasta o equivalente a dez vezes mais do que vai ganhar no seu tempo de gestão, logo estará demonstrando suas reais intenções. 
Prefeituras existem que são verdadeiras organizações criminosas nas mãos de gestores mestres na rapinagem. Cosa Nostra seria um termo mais apropriado. Ao invés de administrar com decência e honestidade, os gestores transformam as prefeituras em grandes máfias, onde o capo é o prefeito e alguns escolhidos servem como sottocapos, consiglieres e soldatos. Todos ladrões. Formam uma famiglia cujos sustentáculos de roubalheira estão nas licitações viciadas, no patrocínio de shows, na transformação da merenda escolar em bolacha e ki-suco, nos desvios de verbas para contas bancárias particulares, dentre outras práticas insidiosas.
Em Sergipe, estado pequeno onde o ouvi dizer chega acompanhado da confirmação visual, é muito fácil perceber a ostentação, o enriquecimento ilícito e a riqueza camuflada, repentinamente surgida nas pessoas que fazem parte das administrações municipais, incluindo familiares dos gestores. A realidade é essa, incluindo as perseguições e as ameaças a todos que ousarem dizer que o preito beltrano ou sicrano não é santo.

*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com