HOLOCAUSTO BRASILEIRO (I)

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Publicada em 14/06/2019 às 22:38:00

 

* Manoel Moacir Costa Macêdo
Holocausto nos registros da história, significa "o sacrifício praticado pelos antigos hebreus, onde as vítimas eram inteiramente queimadas". Na contemporaneidade, novos sentidos definem os holocaustos, a exemplo do "holocausto a brasileira". Abrange linchamentos, expiações, genocídios, mortes, miséria, fome, pobreza, doenças e limpeza étnica. Horrores humanos conhecidos, mas desprezados na história dos vencedores. Não é ao acaso, que os negros são as maiores vítimas de homicídios e linchamentos no Brasil, e as doenças tropicais que atacam os pobres, raras tem curas.
O premiado livro Holocausto Brasileiro, da jornalista mineira Daniela Arbex, constitui uma referência na história brasileira. Difícil de apreender em face de conteúdos chocantes, em linguagem "nua e crua", sincera e sem arrodeio, acrescidos de fotos e depoimentos da "banalidade do mal". Tudo isso, em Minas Gerais, berço do Brasil, sob o sinal da cruz, onde se diz que "Deus é brasileiro". A mensagem ultrapassa o sofrimento de homens, mulheres e crianças no "Centro Hospitalar Psiquiátrico", conhecido como "Colônia", onde pelo menos "60 mil internos morreram". Uma mostra da face cruel da sociedade brasileira. "Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental". Um tradução da desumanidade. Evidências de uma elite capaz de manter privilégios e desigualdades, sufocar rupturas, alimentar a intolerância, e manter o vergonhoso e persistente status quo. 
 A terapia psiquiátrica aplicada por décadas no "Colônia", em essência, não visava a cura dos pobres e desvalidos pacientes. Era um depósito de excluídos e miseráveis de tudo. "O destino de desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, meninas problemáticas, mulheres engravidadas pelos patrões, moças que haviam perdido a virgindade antes do casamento, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, alcóolicos, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos, melancólicos ou simplesmente tímidos. A desumanidade e crueldade planejada". A aplicação por quase um século da "Teoria Eugenista", no silêncio dos bons, sustentava a ideia de limpeza social e justificava os abusos. No dizer do bispo negro e anglicano da África do Sul, Prêmio Nobel da Paz em 1984, Desmond Tutu, símbolo da denúncia do holocausto do apartheid negro: "Se você é neutro em situação de injustiça, você escolheu o lado do opressor". 
O "Colônia", uma analogia tropical do nazismo alemão, que assassinou nos campos de concentração, seis milhões de judeus, afora as dores e sofreres, algumas invisíveis, que o tempo jamais apagará. Escreveu a autora, com a força do vernáculo próprio do jornalista que "os pacientes em sua maioria foram internados a força, e submetidos a condições desumanas, um genocídio cometido pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e sociedade. Nos períodos de maior lotação, dezesseis pessoas, morriam diariamente. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para dezessete faculdades do país, sem que ninguém questionasse. Os corpos eram disputados por abutres humanos. Quando houve excesso de cadáveres no mercado, os corpos foram decompostos em ácido, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida". 
Os pulsares humanos em situações de "provas e expiações", não são generosos e nem do bem, mas cruéis e do mal. Os sistemas de controle social, penetram no consciente, neutralizam o subconsciente, sufocam as indignações e proíbem os ímpetos de agir. Eles não morrem, adormecem na invisibilidade e insensibilidade dos que "não tem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir e nem cérebros para pensar". As ocasiões, revelam as pulsações hibernadas no ser, tal qual os holocaustos em suas atualizadas expressões. [ARBEX, D. Holocausto Brasileiro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019].
* Manoel Moacir Costa Macêdo, Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

O premiado livro Holocausto Brasileiro, da jornalista mineira Daniela Arbex, constitui uma referência na história brasileira. Difícil de apreender em face de conteúdos chocantes, em linguagem "nua e crua", sincera e sem arrodeio, acrescidos de fotos e depoimentos da "banalidade do mal"

* Manoel Moacir Costa Macêdo

Holocausto nos registros da história, significa "o sacrifício praticado pelos antigos hebreus, onde as vítimas eram inteiramente queimadas". Na contemporaneidade, novos sentidos definem os holocaustos, a exemplo do "holocausto a brasileira". Abrange linchamentos, expiações, genocídios, mortes, miséria, fome, pobreza, doenças e limpeza étnica. Horrores humanos conhecidos, mas desprezados na história dos vencedores. Não é ao acaso, que os negros são as maiores vítimas de homicídios e linchamentos no Brasil, e as doenças tropicais que atacam os pobres, raras tem curas.
O premiado livro Holocausto Brasileiro, da jornalista mineira Daniela Arbex, constitui uma referência na história brasileira. Difícil de apreender em face de conteúdos chocantes, em linguagem "nua e crua", sincera e sem arrodeio, acrescidos de fotos e depoimentos da "banalidade do mal". Tudo isso, em Minas Gerais, berço do Brasil, sob o sinal da cruz, onde se diz que "Deus é brasileiro". A mensagem ultrapassa o sofrimento de homens, mulheres e crianças no "Centro Hospitalar Psiquiátrico", conhecido como "Colônia", onde pelo menos "60 mil internos morreram". Uma mostra da face cruel da sociedade brasileira. "Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental". Um tradução da desumanidade. Evidências de uma elite capaz de manter privilégios e desigualdades, sufocar rupturas, alimentar a intolerância, e manter o vergonhoso e persistente status quo. 
 A terapia psiquiátrica aplicada por décadas no "Colônia", em essência, não visava a cura dos pobres e desvalidos pacientes. Era um depósito de excluídos e miseráveis de tudo. "O destino de desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, meninas problemáticas, mulheres engravidadas pelos patrões, moças que haviam perdido a virgindade antes do casamento, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, alcóolicos, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos, melancólicos ou simplesmente tímidos. A desumanidade e crueldade planejada". A aplicação por quase um século da "Teoria Eugenista", no silêncio dos bons, sustentava a ideia de limpeza social e justificava os abusos. No dizer do bispo negro e anglicano da África do Sul, Prêmio Nobel da Paz em 1984, Desmond Tutu, símbolo da denúncia do holocausto do apartheid negro: "Se você é neutro em situação de injustiça, você escolheu o lado do opressor". 
O "Colônia", uma analogia tropical do nazismo alemão, que assassinou nos campos de concentração, seis milhões de judeus, afora as dores e sofreres, algumas invisíveis, que o tempo jamais apagará. Escreveu a autora, com a força do vernáculo próprio do jornalista que "os pacientes em sua maioria foram internados a força, e submetidos a condições desumanas, um genocídio cometido pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e sociedade. Nos períodos de maior lotação, dezesseis pessoas, morriam diariamente. Ao morrer, davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes do manicômio foram vendidos para dezessete faculdades do país, sem que ninguém questionasse. Os corpos eram disputados por abutres humanos. Quando houve excesso de cadáveres no mercado, os corpos foram decompostos em ácido, para que as ossadas pudessem ser comercializadas. Nada se perdia, exceto a vida". 
Os pulsares humanos em situações de "provas e expiações", não são generosos e nem do bem, mas cruéis e do mal. Os sistemas de controle social, penetram no consciente, neutralizam o subconsciente, sufocam as indignações e proíbem os ímpetos de agir. Eles não morrem, adormecem na invisibilidade e insensibilidade dos que "não tem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir e nem cérebros para pensar". As ocasiões, revelam as pulsações hibernadas no ser, tal qual os holocaustos em suas atualizadas expressões. [ARBEX, D. Holocausto Brasileiro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019].

* Manoel Moacir Costa Macêdo, Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra