Sem medo, nem esperança

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Mozart dos ansiolíticos
Mozart dos ansiolíticos

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Publicada em 17/06/2019 às 22:57:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Naquele tempo, os 
discos só nos che-
gavam às mãos depois de certo intervalo, em formato físico. Foi assim que o DJ Cafu ficou rico - às custas da mesada magra de uma molecada bem informada, sem outro meio de conferir as novidades celebradas nas revistas especializadas em música pop, além de visitar a CD Club, na avenida mais bonita de Aracaju.
Eu lembro como se fosse hoje. Quando o Radiohead lançou 'Ok Computer' (1997), justamente em um 16 de junho, todo mundo ficou de queixo caído. Todo mundo, menos eu. Os bolsos virados do avesso me privaram de uma opinião pessoal, formulada no calor do momento. Meses mais tarde, quando um amigo finalmente importou um exemplar do álbum, os clipes na MTV já tinham assentado a impressão corrente: Thom Yorke era considerado um gênio estranho, uma espécie de Mozart dos ansiolíticos.
Lá se vão 22 anos. Agora, o problema não é mais de acesso à informação. Os discos são lançados em plataformas de streaming, chegam aos ouvidos de gregos e troianos ao mesmo tempo, com a velocidade de um click. Difícil é preservar alguma espécie de dado particular entre quatro paredes, a salvo do escrutínio público. 
As consequências de tamanha indiscrição variam, para o bem e para o mal - como o ministro Sérgio Moro, surpreendido em conluio criminoso com o procurador Deltan Dallagnol, sabe muito bem. Muitas vezes, a história acaba em tragédia, quando a intimidade de cidadãos é enxovalhada na forma inescrupulosa de um 'porn revenge', por exemplo. Tão odiento quanto um amante ressentido, no entanto, é o hacker movido por ambição financeira. Os chantagistas de plantão na internet merecem comer o pão que o diabo amassou.
Para aplacar a esperteza de uns e outros, só com esperteza e meia. Pensando assim, o Radiohead divulgou as 18 horas de gravações inéditas que deram origem a 'Ok computer'. Segundo Jonny Greenwood, guitarrista da banda, um hacker exigiu US$ 150 mil para que o material não fosse divulgado na internet. O grupo então publicou o arquivo completo em seu site, por conta própria. O registro está à venda por US$ 23. Os recursos angariados até o fim do mês serão doados para os ativistas do clima reunidos na ONG Extinction Rebellion.
Eu admito, nasci marcado com o signo da nostalgia. Fosse possível, ainda estaria flutuando em líquido amniótico, sem medo, nem esperança, sugando todas as forças de minha mãe. Às vésperas dos vinte anos, eu não tinha dinheiro, ouvia sempre os mesmos discos. Nenhum dos meus amigos sabia, mas àquela altura da vida tudo sempre acaba bem.

Naquele tempo, os  discos só nos che- gavam às mãos depois de certo intervalo, em formato físico. Foi assim que o DJ Cafu ficou rico - às custas da mesada magra de uma molecada bem informada, sem outro meio de conferir as novidades celebradas nas revistas especializadas em música pop, além de visitar a CD Club, na avenida mais bonita de Aracaju.
Eu lembro como se fosse hoje. Quando o Radiohead lançou 'Ok Computer' (1997), justamente em um 16 de junho, todo mundo ficou de queixo caído. Todo mundo, menos eu. Os bolsos virados do avesso me privaram de uma opinião pessoal, formulada no calor do momento. Meses mais tarde, quando um amigo finalmente importou um exemplar do álbum, os clipes na MTV já tinham assentado a impressão corrente: Thom Yorke era considerado um gênio estranho, uma espécie de Mozart dos ansiolíticos.
Lá se vão 22 anos. Agora, o problema não é mais de acesso à informação. Os discos são lançados em plataformas de streaming, chegam aos ouvidos de gregos e troianos ao mesmo tempo, com a velocidade de um click. Difícil é preservar alguma espécie de dado particular entre quatro paredes, a salvo do escrutínio público. 
As consequências de tamanha indiscrição variam, para o bem e para o mal - como o ministro Sérgio Moro, surpreendido em conluio criminoso com o procurador Deltan Dallagnol, sabe muito bem. Muitas vezes, a história acaba em tragédia, quando a intimidade de cidadãos é enxovalhada na forma inescrupulosa de um 'porn revenge', por exemplo. Tão odiento quanto um amante ressentido, no entanto, é o hacker movido por ambição financeira. Os chantagistas de plantão na internet merecem comer o pão que o diabo amassou.
Para aplacar a esperteza de uns e outros, só com esperteza e meia. Pensando assim, o Radiohead divulgou as 18 horas de gravações inéditas que deram origem a 'Ok computer'. Segundo Jonny Greenwood, guitarrista da banda, um hacker exigiu US$ 150 mil para que o material não fosse divulgado na internet. O grupo então publicou o arquivo completo em seu site, por conta própria. O registro está à venda por US$ 23. Os recursos angariados até o fim do mês serão doados para os ativistas do clima reunidos na ONG Extinction Rebellion.
Eu admito, nasci marcado com o signo da nostalgia. Fosse possível, ainda estaria flutuando em líquido amniótico, sem medo, nem esperança, sugando todas as forças de minha mãe. Às vésperas dos vinte anos, eu não tinha dinheiro, ouvia sempre os mesmos discos. Nenhum dos meus amigos sabia, mas àquela altura da vida tudo sempre acaba bem.