Surpresa nenhuma

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Publicada em 18/06/2019 às 23:28:00

 

* Antonio Passos
Cid Adão da Silva precisou dar uma 
passada em um shopping. Já de 
saída, após pagar o ticket do estacionamento, avistou um velho conhecido sentado em um café. O camarada parecia tão sorumbático que Cid mudou de direção e foi ao encontro dele saber se estava ocorrendo algum problema.
Ao aproximar-se da mesa, antes de fazer qualquer pergunta, Cid Adão foi surpreendido por Guerrinha - como era carinhosamente chamado pelos amigos - que levantou a vista e tomou a iniciativa da conversa:
- Vem aí o agourento Cid Adão. Já sei que vai tirar a maior onda comigo, não é? Mas fique logo você sabendo que isso aí é uma sacanagem e não vai dar em nada. Isso é escuta ilegal, viu? É crime.
- Guerrinha, eu estou surpreso com o modo como você está me recebendo. Eu não tenho a menor ideia do que você está falando…
- Sei, não tem não. Tô vendo sua cara de sonso. De besta você não tem nada…
- Eu avistei você sentado aí, com uma postura largada, olhar distante, semblante sisudo, achei que poderia haver algum problema e me aproximei pra lhe cumprimentar e saber se está tudo bem. Foi só isso…
- Tá bom. Puxe uma cadeira e sente aí. Mas, já vou avisando, se for pra fazer gozação comigo é melhor cair fora…
- Mas, afinal, Guerrinha, por qual motivo eu faria gozação com você?
- Cid você é manso, educado, não gosta de briga, mas, eu sei que você é meio comunista. Deve tá na maior alegria com essa indecência que está acontecendo, essa muvuca toda que estão fazendo com a gravação ilegal da conversa do juiz Moro… E se for tudo verdade, o que é que tem demais? Só porque ele trabalhou em equipe orientando os procuradores, qual o problema?
- Ah, então é isso? Comentou Cid Adão.
- Sim, é isso sim. O que mais você queria que fosse? Isso já não basta?
- Veja, Guerrinha, eu não sou jurista, porém, o que todo mundo sabe é que é dever do juiz ser imparcial, se manter equidistante das partes envolvidas no processo e considerar com respeito as argumentações vindas tanto da acusação quanto da defesa…
Antes que Cid Adão terminasse a fala, Guerrinha interrompeu quase gritando:
- Eu não disse que você é comunista! Olhe aí a prova… Eu não disse que você só veio aqui pra tirar onda comigo, pra incriminar o juiz Moro… Não disse? Isso tudo é mentira, rapaz. Tá todo mundo de boca aberta com essa invasão. Aposto que nem você acredita no que está sendo divulgado.
- Guerrinha, eu respeito seu ponto de vista, mas, pra falar a verdade, pra mim não houve surpresa nenhuma, só confirmação. Pelas atitudes de Moro e do procurador Dallagnol eu já tinha uma ideia sobre o modo como esses processos foram conduzidos. As gravações que estão sendo divulgadas agora, pra mim, são apenas a elucidação de algo que estava muito insinuado…
Nesse ponto, Guerrinha interrompeu a conversa com um soco na mesa. Após alguns segundos de silêncio, disse:
- Chega! Eu avisei que não queria falar sobre esse assunto. Se você insiste, então fique falando sozinho.
Guerrinha levantou-se, deu as costas e saiu… Ao também levantar-se Cid Adão foi chamado por uma funcionária do estabelecimento e convidado a pagar o café tomado e esquecido por Guerrinha. Já do lado de fora dirigindo o automóvel, ao chegar na cancela, foi advertido de que extrapolou o tempo e teve que voltar para complementar o pagamento.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Cid Adão da Silva precisou dar uma  passada em um shopping. Já de  saída, após pagar o ticket do estacionamento, avistou um velho conhecido sentado em um café. O camarada parecia tão sorumbático que Cid mudou de direção e foi ao encontro dele saber se estava ocorrendo algum problema.
Ao aproximar-se da mesa, antes de fazer qualquer pergunta, Cid Adão foi surpreendido por Guerrinha - como era carinhosamente chamado pelos amigos - que levantou a vista e tomou a iniciativa da conversa:
- Vem aí o agourento Cid Adão. Já sei que vai tirar a maior onda comigo, não é? Mas fique logo você sabendo que isso aí é uma sacanagem e não vai dar em nada. Isso é escuta ilegal, viu? É crime.
- Guerrinha, eu estou surpreso com o modo como você está me recebendo. Eu não tenho a menor ideia do que você está falando…
- Sei, não tem não. Tô vendo sua cara de sonso. De besta você não tem nada…
- Eu avistei você sentado aí, com uma postura largada, olhar distante, semblante sisudo, achei que poderia haver algum problema e me aproximei pra lhe cumprimentar e saber se está tudo bem. Foi só isso…
- Tá bom. Puxe uma cadeira e sente aí. Mas, já vou avisando, se for pra fazer gozação comigo é melhor cair fora…
- Mas, afinal, Guerrinha, por qual motivo eu faria gozação com você?
- Cid você é manso, educado, não gosta de briga, mas, eu sei que você é meio comunista. Deve tá na maior alegria com essa indecência que está acontecendo, essa muvuca toda que estão fazendo com a gravação ilegal da conversa do juiz Moro… E se for tudo verdade, o que é que tem demais? Só porque ele trabalhou em equipe orientando os procuradores, qual o problema?
- Ah, então é isso? Comentou Cid Adão.
- Sim, é isso sim. O que mais você queria que fosse? Isso já não basta?
- Veja, Guerrinha, eu não sou jurista, porém, o que todo mundo sabe é que é dever do juiz ser imparcial, se manter equidistante das partes envolvidas no processo e considerar com respeito as argumentações vindas tanto da acusação quanto da defesa…
Antes que Cid Adão terminasse a fala, Guerrinha interrompeu quase gritando:
- Eu não disse que você é comunista! Olhe aí a prova… Eu não disse que você só veio aqui pra tirar onda comigo, pra incriminar o juiz Moro… Não disse? Isso tudo é mentira, rapaz. Tá todo mundo de boca aberta com essa invasão. Aposto que nem você acredita no que está sendo divulgado.
- Guerrinha, eu respeito seu ponto de vista, mas, pra falar a verdade, pra mim não houve surpresa nenhuma, só confirmação. Pelas atitudes de Moro e do procurador Dallagnol eu já tinha uma ideia sobre o modo como esses processos foram conduzidos. As gravações que estão sendo divulgadas agora, pra mim, são apenas a elucidação de algo que estava muito insinuado…
Nesse ponto, Guerrinha interrompeu a conversa com um soco na mesa. Após alguns segundos de silêncio, disse:
- Chega! Eu avisei que não queria falar sobre esse assunto. Se você insiste, então fique falando sozinho.
Guerrinha levantou-se, deu as costas e saiu… Ao também levantar-se Cid Adão foi chamado por uma funcionária do estabelecimento e convidado a pagar o café tomado e esquecido por Guerrinha. Já do lado de fora dirigindo o automóvel, ao chegar na cancela, foi advertido de que extrapolou o tempo e teve que voltar para complementar o pagamento.

* Antonio Passos é jornalista