Os homens e os livros

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Nem sinal de escritor vivo
Nem sinal de escritor vivo

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Publicada em 18/06/2019 às 23:50:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br 
Amaral Cavalcante 
deu agora para dis-
tribuir livros. Exigente como ele só, decidiu manter em volta, nas prateleiras empoeiradas, somente o essencial. Ontem mesmo, o poeta me apareceu com Gore Vidal, Salman Rushdie e Anthony Burgess embaixo do braço. Um cronista de mão cheia como ele, o maior de todos, não se descobre autor antes de reunir uma Alexandria inteira no peito abarrotado.
Amaral chegou, beliscou um beiju de tapioca, falou da vida e foi embora. Eu fiquei com os livros e a sensação boa de os ter em mãos. A cada um, a fortuna que lhe cabe. De minha parte, asseguro: Nem os faraós do Egito foram um dia tão ricos. 
Livros são caros. Sem acesso à biblioteca pública, eu não conheceria a metade dos escritores na estante da sala. Kafka, Alan Poe, Julio Verne, Oscar Wilde e Guimarães Rosa, por exemplo, os tomei por empréstimo, depois de pular o muro do colégio para matar aula. Soa piegas, mas eu vou lascar assim mesmo: se os delinquentes tivessem literatura à disposição, no meio do caminho entre a escola e a vadiagem, talvez as cadeias de Pindorama não estivessem entupidas de gente.
Muito foi dito sobre a reforma da Biblioteca Pública Epiphanio Dória. Que eu saiba, no entanto, ninguém se ateve à questão fundamental. O Fórum Permanente de Artes Visuais colheu os frutos da subserviência e viu a única galeria de artes mantida pelo estado desalojada. De uma hora para outra, num passe de mágica, meio mundo se lembrou do puxadinho simpático onde funcionava a biblioteca infantil. Politicagem, tempestade em copo d'água. Sobre o acervo da Epiphanio Dória, ninguém deu um pio.
Em uma biblioteca, o artigo mais importante é o livro. Por óbvio, é preciso cuidar das paredes, manter as estantes de pé, fazer o possível para criar um ambiente propício à leitura, confortável, convidativo. Mas nada disso faz sentido se o acervo em questão estiver parado no tempo, esculhambado. 
Os livros mais recentes de Chico Dantas, Antonio Carlos Viana, Jeová Santana e Jozailto Lima foram adquiridos pelo Governo de Sergipe, ou a Epiphanio Dória sobrevive exclusivamente de doações? Uma vez publicadas, as crônicas de Amaral constarão entre os títulos disponíveis? Como se dá a atualização do acervo? Quando eu fugia das aulas de matemática, percorri ali milhares de páginas e não encontrei nem sinal de um escritor vivo.

Amaral Cavalcante  deu agora para dis- tribuir livros. Exigente como ele só, decidiu manter em volta, nas prateleiras empoeiradas, somente o essencial. Ontem mesmo, o poeta me apareceu com Gore Vidal, Salman Rushdie e Anthony Burgess embaixo do braço. Um cronista de mão cheia como ele, o maior de todos, não se descobre autor antes de reunir uma Alexandria inteira no peito abarrotado.
Amaral chegou, beliscou um beiju de tapioca, falou da vida e foi embora. Eu fiquei com os livros e a sensação boa de os ter em mãos. A cada um, a fortuna que lhe cabe. De minha parte, asseguro: Nem os faraós do Egito foram um dia tão ricos. 
Livros são caros. Sem acesso à biblioteca pública, eu não conheceria a metade dos escritores na estante da sala. Kafka, Alan Poe, Julio Verne, Oscar Wilde e Guimarães Rosa, por exemplo, os tomei por empréstimo, depois de pular o muro do colégio para matar aula. Soa piegas, mas eu vou lascar assim mesmo: se os delinquentes tivessem literatura à disposição, no meio do caminho entre a escola e a vadiagem, talvez as cadeias de Pindorama não estivessem entupidas de gente.
Muito foi dito sobre a reforma da Biblioteca Pública Epiphanio Dória. Que eu saiba, no entanto, ninguém se ateve à questão fundamental. O Fórum Permanente de Artes Visuais colheu os frutos da subserviência e viu a única galeria de artes mantida pelo estado desalojada. De uma hora para outra, num passe de mágica, meio mundo se lembrou do puxadinho simpático onde funcionava a biblioteca infantil. Politicagem, tempestade em copo d'água. Sobre o acervo da Epiphanio Dória, ninguém deu um pio.
Em uma biblioteca, o artigo mais importante é o livro. Por óbvio, é preciso cuidar das paredes, manter as estantes de pé, fazer o possível para criar um ambiente propício à leitura, confortável, convidativo. Mas nada disso faz sentido se o acervo em questão estiver parado no tempo, esculhambado. 
Os livros mais recentes de Chico Dantas, Antonio Carlos Viana, Jeová Santana e Jozailto Lima foram adquiridos pelo Governo de Sergipe, ou a Epiphanio Dória sobrevive exclusivamente de doações? Uma vez publicadas, as crônicas de Amaral constarão entre os títulos disponíveis? Como se dá a atualização do acervo? Quando eu fugia das aulas de matemática, percorri ali milhares de páginas e não encontrei nem sinal de um escritor vivo.