Bicho de sete cabeças

Geral


  • Antes do Plano Real, ninguém sonhava

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
A inflação é um bicho 
de sete cabeças. Há 
25 anos, quando o bafo quente do monstro consumia o peso morto nos bolsos da brava gente, o presente imediato se impunha, peremptório. Ninguém sonhava. A fé pouca de cada um só dava para dois dedos de café sem açúcar na padaria da esquina.
Os mais velhos lembram como se fosse hoje. De uma hora para outra, o dinheiro suado dos trabalhadores não valia mais nada. No início do mês, todo mundo corria para o supermercado, como se na iminência de um apocalipse zumbi. Fardos de feijão, arroz e papel higiênico abarrotavam as despensas domésticas. No carrinho das compras não sobrava espaço para a poesia.
Por alguma razão estranha, os feitos do Plano Real não são plenamente reconhecidos pelos progressistas e os esquerdistas mais radicais. Paciência. Sem a estabilidade econômica conquistada nos anos de hegemonia política do PSDB, a capacidade de abstração tão cara ao exercício artístico é um luxo. Vá alguém pensar nas implicações da tecnologia nas relações humanas, considerar as distopias ao gosto da Netflix, por exemplo, enquanto o salário vira papel sem valor. Nos olhos dos outros é refresco.
Hoje, com o fim dos anos dourados do PT, quando a era do pleno emprego foi revogada por um exército contando 13 milhões de desempregados, artistas de todas as grandezas usam as mesmas rimas gastas de antes, empenhados numa eterna luta simbólica contra o dragão da maldade. Falam para si mesmos. O grosso da população está atrás do pão de cada dia, não tem cabeça para o teatro de resistência dos privilegiados.
A beleza não se mantém a pão e água. Sem o mínimo de condições materiais, ninguém cria, ninguém olha para além do próprio umbigo. O artista da fome é uma invenção equivocada dos poetas românticos, sem outro remédio além do delírio - um triste consolo para a barriga vazia e os sapatos furados.

A inflação é um bicho  de sete cabeças. Há  25 anos, quando o bafo quente do monstro consumia o peso morto nos bolsos da brava gente, o presente imediato se impunha, peremptório. Ninguém sonhava. A fé pouca de cada um só dava para dois dedos de café sem açúcar na padaria da esquina.
Os mais velhos lembram como se fosse hoje. De uma hora para outra, o dinheiro suado dos trabalhadores não valia mais nada. No início do mês, todo mundo corria para o supermercado, como se na iminência de um apocalipse zumbi. Fardos de feijão, arroz e papel higiênico abarrotavam as despensas domésticas. No carrinho das compras não sobrava espaço para a poesia.
Por alguma razão estranha, os feitos do Plano Real não são plenamente reconhecidos pelos progressistas e os esquerdistas mais radicais. Paciência. Sem a estabilidade econômica conquistada nos anos de hegemonia política do PSDB, a capacidade de abstração tão cara ao exercício artístico é um luxo. Vá alguém pensar nas implicações da tecnologia nas relações humanas, considerar as distopias ao gosto da Netflix, por exemplo, enquanto o salário vira papel sem valor. Nos olhos dos outros é refresco.
Hoje, com o fim dos anos dourados do PT, quando a era do pleno emprego foi revogada por um exército contando 13 milhões de desempregados, artistas de todas as grandezas usam as mesmas rimas gastas de antes, empenhados numa eterna luta simbólica contra o dragão da maldade. Falam para si mesmos. O grosso da população está atrás do pão de cada dia, não tem cabeça para o teatro de resistência dos privilegiados.
A beleza não se mantém a pão e água. Sem o mínimo de condições materiais, ninguém cria, ninguém olha para além do próprio umbigo. O artista da fome é uma invenção equivocada dos poetas românticos, sem outro remédio além do delírio - um triste consolo para a barriga vazia e os sapatos furados.

 


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