Ingerência e descaso no futebol feminino do Brasil

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Publicada em 02/07/2019 às 22:25:00

 

* Vânia Azevedo
As últimas participações do Brasil na 
Copa do Mundo de Futebol (seja 
no masculino ou feminino) têm demonstrado que já não estamos com essa bola toda. Resta saber se os nossos adversários evoluíram no futebol ou nós é que paramos no tempo e não acompanhamos as mudanças. Seja lá o que for,  certo é que já não somos os mesmos quando se trata do futebol masculino, e até hoje não dissemos a que viemos quando se trata do futebol feminino. E não é por falta de vontade. Eu diria que o que sobra de vontade nas meninas, falta de boa vontade aos nossos dirigentes. Sim, aqueles que estão no comando do futebol brasileiro, que mesmo quando substituem os que estiveram no comando por longos anos, deixam claro nas suas gestões que os nomes e as cadeiras mudaram, porém o modus operandi permanece o mesmo.
E já que o momento é de Copa do Mundo de Futebol Feminino, é delas que vamos falar. Vamos falar da inocência daquele torcedor que (é maioria, claro!) mais uma vez se reuniu com amigos e familiares para torcer pela nossa incógnita seleção, que só nos é apresentada em competição internacional (Copa do Mundo), no entanto, cobrada com o rigor de quem realmente foi preparada para trazer o título. 
Território permeado de ambiguidades, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) sabota o futebol feminino e destina-lhes um trabalho que está muito aquém daquele que é concedido ao futebol masculino. Tudo começa com a escolha do técnico, sem o menor compromisso com  o fator qualidade, mas o que convém a CBF. O veto à presença de uma técnica no comando da seleção foi motivo de indignação, sem obedecer a qualquer critério técnico, simplesmente Emily Lima foi dispensada para possibilitar o retorno de Vadão - que por sinal conseguiu um feito inédito: o de permanecer como técnico da seleção mesmo depois de  nove derrotas seguidas. Enquanto isso, a treinadora  (Emily) permaneceu no cargo por 10 meses, contabilizando um aproveitamento de 7 vitórias, 5 empates e 1 derrota e deixou a seleção em 2017. Quando ela declara "preciso ir para onde as pessoas me deixem trabalhar", deixa claro as interferências que sofreu na condução do seu trabalho  e que, por não ceder às pressões ou interferências da CBF, evidentemente não serve para o cargo.
Que fique claro: não está em jogo a questão gênero na escolha do comando da seleção feminina, mas a competência. Vale destacar a competência de Renê Simões quando esteve no comando e, para quem ignora o fato, foi ele que se ofereceu para o cargo (dificilmente convidariam alguém do nível dele). Infelizmente o bom trabalho não teve continuidade. O profissionalismo de René Simões priorizou o resgate da dignidade de um grupo que não tinha identidade. Trabalho este que não apenas conduziu ao pódio a desacreditada seleção, como levou a conquista da primeira medalha olímpica do futebol feminino (Atenas 2004);  introduziu no grupo uma filosofia de trabalho onde a auto estima e o respeito foram componentes  indispensáveis para fazer daquela, uma experiência   inesquecível para todos que dela fizeram parte, como descreve o próprio René Simões em seu livro (O dia em que as mulheres viraram a cabeça dos homens). Não podemos ignorar o quanto esse trabalho foi importante como base para a melhor campanha já feita pelas meninas em um mundial, quando disputaram a final em 2007 e conquistaram o vice campeonato, perdendo para a  fortíssima Alemanha, mas tendo  Marta como artilheira da competição.
A questão da mulher no futebol, num país como o Brasil, não pode ser ignorada jamais, pois, como aponta Mesquita & Nascimento "essa evolução se deu acompanhando a emancipação feminina na sociedade", resultando no protagonismo de Marta que se tornou uma das maiores expressões do futebol feminino no mundo e que muito tem contribuído para dar voz a um seguimento do esporte brasileiro para o qual os ouvidos se fecharam. E essa evolução, não só no Brasil, mas em todo mundo, vem sendo acompanhada pela evolução das treinadoras, como muito bem coloca Phil Neville, técnico da Inglaterra. A Copa do Mundo iniciou com nove mulheres no comando de grandes equipes, com destaque para a treinadora  Corinne Diacre (França), pioneira ao treinar o time masculino do Clermont Foot, da segunda divisão da França por três temporadas. 
Até quando teremos que nos contentar com a condição de meros coadjuvantes em competições internacionais de futebol feminino? Por mais quanto tempo  teremos que ver o Brasil ser eliminado precocemente e nos contentarmos apenas com comentários do tipo "estão de parabéns, jogaram de igual para igual" ou "perderam, mas caíram de pé"?  Ao contrário da seleção masculina, o Brasil não tem condições de almejar um título mundial enquanto trata o futebol feminino com tamanho descaso. Se ainda conseguimos resultados até certo ponto relevantes, devemos ao trabalho sério a que algumas atletas  são submetidas em seus clubes no exterior - não desmerecendo o trabalhado realizado em alguns clubes.
Hoje já é possível encontrar na internet vídeos que mostra o desempenho de meninas, algumas ainda criança, esbanjando uma intimidade com a bola que só os bem dotados conseguem ter. É claro que temos muitos talentos por aí a fora. Mas enquanto a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) não tratar o futebol feminino com profissionalismo, estruturando e criando um projeto a  longo prazo;  estimulando a criação de equipes femininas nos clubes  de futebol desse país,  até lá teremos um futebol feminino faz de conta. E mesmo havendo a renovação, certamente serão talentos que desaparecerão mesmo antes de serem devidamente aproveitados. Afinal, quantas grandes atletas já desistiram por não encontrar apoio ou palco para desfilar o seu talento? Inúmeras, todos sabem.  Não é qualquer uma adolescente que tem coragem de deixar sua família com apenas 14 anos e se lançar a própria sorte como fez  Marta. Hoje, dona de seis títulos de melhor jogadora do mundo, chega à Copa do Mundo declarando estar a um ano sem patrocínio. Obviamente isso não aconteceria jamais com um jogador do seu nível no futebol masculino. Por isso não se pode estranhar o comportamento da CBF que, enquanto gerida por homens, reflete o comportamento dos grandes empresários desse país. Enquanto a Austrália sai na frente equiparando salários de homens e mulheres no futebol, as nossas atletas não conseguem treinar integralmente porque precisam trabalhar para se manter.
Não é por acaso que jogadoras como Marta, Pretinha e Cristiane, que carregam com elas o pioneirismo desse esporte no Brasil, carregam também as marcas do preconceito a que sempre estiveram sujeitas. O fato de desfrutarem hoje o privilégio de jogar em grandes clubes do exterior, não apaga na memória as ofensas sofridas ou a difícil tarefa de driblar o machismo daqueles que ainda não compreendem que as mulheres não buscam imitar os homens, mas demonstrar que podem fazer tão bem quanto eles. Por isso, compreensível o lamento de Marta quando se refere a CBF como "uma entidade que não criou nenhum projeto sólido de longo prazo para a modalidade e não soube aproveitar uma geração com tanto potencial", "(...) para que elas substituíssem as que estão saindo". Nessa perspectiva, Marta é só mais uma, além de suas companheiras, querendo ser ouvida por uma entidade que não tem interesse em suas reinvindicações - aliás, nunca teve - já que vê o futebol feminino apenas como uma imposição da FIFA. "Não vai ter Marta, Formiga e Cristiane para sempre", é o desabafo entre lágrimas de Marta enquanto cobra continuidade da modalidade no país, sem esconder a sua frustração diante do descaso da entidade maior do futebol brasileiro.
Aos desavisados, o Brasil é um celeiro de talentos, especialmente no futebol, que possui uma jogadora com o título de seis vezes a melhor do mundo, fato que nem de longe ocorre no masculino. Contudo, mesmo apresentando o futebol que vimos nessa Copa, que nos fez vibrar e sonhar, o Brasil amarga o décimo lugar no ranking da Fifa. Isso explica as palavras de Marta, alertando que "o nível do futebol feminino não permite mais que você treine a hora que quiser", tem que ter organização. O que para uns não passa de um desabafo emocionado pela eliminação no mundial, para o bom entendedor uma denúncia de anos de descaso dos nossos dirigentes para com o futebol feminino. 
 
* Vânia Azevedo é professora

* Vânia Azevedo

As últimas participações do Brasil na  Copa do Mundo de Futebol (seja  no masculino ou feminino) têm demonstrado que já não estamos com essa bola toda. Resta saber se os nossos adversários evoluíram no futebol ou nós é que paramos no tempo e não acompanhamos as mudanças. Seja lá o que for,  certo é que já não somos os mesmos quando se trata do futebol masculino, e até hoje não dissemos a que viemos quando se trata do futebol feminino. E não é por falta de vontade. Eu diria que o que sobra de vontade nas meninas, falta de boa vontade aos nossos dirigentes. Sim, aqueles que estão no comando do futebol brasileiro, que mesmo quando substituem os que estiveram no comando por longos anos, deixam claro nas suas gestões que os nomes e as cadeiras mudaram, porém o modus operandi permanece o mesmo.
E já que o momento é de Copa do Mundo de Futebol Feminino, é delas que vamos falar. Vamos falar da inocência daquele torcedor que (é maioria, claro!) mais uma vez se reuniu com amigos e familiares para torcer pela nossa incógnita seleção, que só nos é apresentada em competição internacional (Copa do Mundo), no entanto, cobrada com o rigor de quem realmente foi preparada para trazer o título. 
Território permeado de ambiguidades, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) sabota o futebol feminino e destina-lhes um trabalho que está muito aquém daquele que é concedido ao futebol masculino. Tudo começa com a escolha do técnico, sem o menor compromisso com  o fator qualidade, mas o que convém a CBF. O veto à presença de uma técnica no comando da seleção foi motivo de indignação, sem obedecer a qualquer critério técnico, simplesmente Emily Lima foi dispensada para possibilitar o retorno de Vadão - que por sinal conseguiu um feito inédito: o de permanecer como técnico da seleção mesmo depois de  nove derrotas seguidas. Enquanto isso, a treinadora  (Emily) permaneceu no cargo por 10 meses, contabilizando um aproveitamento de 7 vitórias, 5 empates e 1 derrota e deixou a seleção em 2017. Quando ela declara "preciso ir para onde as pessoas me deixem trabalhar", deixa claro as interferências que sofreu na condução do seu trabalho  e que, por não ceder às pressões ou interferências da CBF, evidentemente não serve para o cargo.
Que fique claro: não está em jogo a questão gênero na escolha do comando da seleção feminina, mas a competência. Vale destacar a competência de Renê Simões quando esteve no comando e, para quem ignora o fato, foi ele que se ofereceu para o cargo (dificilmente convidariam alguém do nível dele). Infelizmente o bom trabalho não teve continuidade. O profissionalismo de René Simões priorizou o resgate da dignidade de um grupo que não tinha identidade. Trabalho este que não apenas conduziu ao pódio a desacreditada seleção, como levou a conquista da primeira medalha olímpica do futebol feminino (Atenas 2004);  introduziu no grupo uma filosofia de trabalho onde a auto estima e o respeito foram componentes  indispensáveis para fazer daquela, uma experiência   inesquecível para todos que dela fizeram parte, como descreve o próprio René Simões em seu livro (O dia em que as mulheres viraram a cabeça dos homens). Não podemos ignorar o quanto esse trabalho foi importante como base para a melhor campanha já feita pelas meninas em um mundial, quando disputaram a final em 2007 e conquistaram o vice campeonato, perdendo para a  fortíssima Alemanha, mas tendo  Marta como artilheira da competição.
A questão da mulher no futebol, num país como o Brasil, não pode ser ignorada jamais, pois, como aponta Mesquita & Nascimento "essa evolução se deu acompanhando a emancipação feminina na sociedade", resultando no protagonismo de Marta que se tornou uma das maiores expressões do futebol feminino no mundo e que muito tem contribuído para dar voz a um seguimento do esporte brasileiro para o qual os ouvidos se fecharam. E essa evolução, não só no Brasil, mas em todo mundo, vem sendo acompanhada pela evolução das treinadoras, como muito bem coloca Phil Neville, técnico da Inglaterra. A Copa do Mundo iniciou com nove mulheres no comando de grandes equipes, com destaque para a treinadora  Corinne Diacre (França), pioneira ao treinar o time masculino do Clermont Foot, da segunda divisão da França por três temporadas. 
Até quando teremos que nos contentar com a condição de meros coadjuvantes em competições internacionais de futebol feminino? Por mais quanto tempo  teremos que ver o Brasil ser eliminado precocemente e nos contentarmos apenas com comentários do tipo "estão de parabéns, jogaram de igual para igual" ou "perderam, mas caíram de pé"?  Ao contrário da seleção masculina, o Brasil não tem condições de almejar um título mundial enquanto trata o futebol feminino com tamanho descaso. Se ainda conseguimos resultados até certo ponto relevantes, devemos ao trabalho sério a que algumas atletas  são submetidas em seus clubes no exterior - não desmerecendo o trabalhado realizado em alguns clubes.
Hoje já é possível encontrar na internet vídeos que mostra o desempenho de meninas, algumas ainda criança, esbanjando uma intimidade com a bola que só os bem dotados conseguem ter. É claro que temos muitos talentos por aí a fora. Mas enquanto a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) não tratar o futebol feminino com profissionalismo, estruturando e criando um projeto a  longo prazo;  estimulando a criação de equipes femininas nos clubes  de futebol desse país,  até lá teremos um futebol feminino faz de conta. E mesmo havendo a renovação, certamente serão talentos que desaparecerão mesmo antes de serem devidamente aproveitados. Afinal, quantas grandes atletas já desistiram por não encontrar apoio ou palco para desfilar o seu talento? Inúmeras, todos sabem.  Não é qualquer uma adolescente que tem coragem de deixar sua família com apenas 14 anos e se lançar a própria sorte como fez  Marta. Hoje, dona de seis títulos de melhor jogadora do mundo, chega à Copa do Mundo declarando estar a um ano sem patrocínio. Obviamente isso não aconteceria jamais com um jogador do seu nível no futebol masculino. Por isso não se pode estranhar o comportamento da CBF que, enquanto gerida por homens, reflete o comportamento dos grandes empresários desse país. Enquanto a Austrália sai na frente equiparando salários de homens e mulheres no futebol, as nossas atletas não conseguem treinar integralmente porque precisam trabalhar para se manter.
Não é por acaso que jogadoras como Marta, Pretinha e Cristiane, que carregam com elas o pioneirismo desse esporte no Brasil, carregam também as marcas do preconceito a que sempre estiveram sujeitas. O fato de desfrutarem hoje o privilégio de jogar em grandes clubes do exterior, não apaga na memória as ofensas sofridas ou a difícil tarefa de driblar o machismo daqueles que ainda não compreendem que as mulheres não buscam imitar os homens, mas demonstrar que podem fazer tão bem quanto eles. Por isso, compreensível o lamento de Marta quando se refere a CBF como "uma entidade que não criou nenhum projeto sólido de longo prazo para a modalidade e não soube aproveitar uma geração com tanto potencial", "(...) para que elas substituíssem as que estão saindo". Nessa perspectiva, Marta é só mais uma, além de suas companheiras, querendo ser ouvida por uma entidade que não tem interesse em suas reinvindicações - aliás, nunca teve - já que vê o futebol feminino apenas como uma imposição da FIFA. "Não vai ter Marta, Formiga e Cristiane para sempre", é o desabafo entre lágrimas de Marta enquanto cobra continuidade da modalidade no país, sem esconder a sua frustração diante do descaso da entidade maior do futebol brasileiro.
Aos desavisados, o Brasil é um celeiro de talentos, especialmente no futebol, que possui uma jogadora com o título de seis vezes a melhor do mundo, fato que nem de longe ocorre no masculino. Contudo, mesmo apresentando o futebol que vimos nessa Copa, que nos fez vibrar e sonhar, o Brasil amarga o décimo lugar no ranking da Fifa. Isso explica as palavras de Marta, alertando que "o nível do futebol feminino não permite mais que você treine a hora que quiser", tem que ter organização. O que para uns não passa de um desabafo emocionado pela eliminação no mundial, para o bom entendedor uma denúncia de anos de descaso dos nossos dirigentes para com o futebol feminino.  
* Vânia Azevedo é professora