Baixa qualificação afeta economia sergipana, aponta pesquisa

Geral


  • A baixa qualificação profissional dificulta a situação de desempregados em Sergipe

 

Gabriel Damásio
O fraco desempenho 
da economia sergi-
pana nos últimos anos, com baixos índices de crescimento, tem como um de seus principais fatores a baixa qualificação da população local. Esta é a constatação do estudo "Observatório do mercado de trabalho sergipano", feito trimestralmente pelo Departamento de Estatística e Ciências Atuariais (Decat), da Universidade Federal de Sergipe (UFS), e da Fundação Municipal do Trabalho (Fundat). A análise se baseia na Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios Contínua (PnadC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com dados levantados entre 2012 e 2019. 
Ela apontou entre outros dados, que 82,97% dos trabalhadores ocupados em Sergipe, na faixa entre 15 e 64 anos, nunca frequentaram qualquer curso de qualificação profissional. E que 98,87% dos trabalhadores ocupados admitiram não frequentar qualquer curso de qualificação atualmente. A maior presença destes trabalhadores está em setores como agropecuária, transporte e armazenagem, e atividades domésticas. Em termos absolutos, falta qualificação para mais de 804 mil trabalhadores ocupados em Sergipe, sendo 465 mil no interior. 
Por outro lado, 940 mil pessoas da mesma faixa etária não conseguiram concluir o Ensino Médio. Considerando "a formação secundária como o mínimo necessário ao funcionamento cidadão, e dado que esse nível de instrução é aquele que apresenta maiores resultados quanto à chance de pobreza", esta é a escolaridade máxima para 68,5% das pessoas desta faixa etária em Aracaju, 88,4% na Região Integrada de Desenvolvimento (RIDE, formada por Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão), e 92% no interior sergipano. 
O resultado é atribuído aos baixos investimentos históricos em educação e qualificação profissional, refletindo em problemas de desigualdade econômica e outros desdobramentos sociais. "A violência atinge a todos, mas as deficiências educacionais afetam sobremaneira os mais pobres e compromete a sua inserção no mercado de trabalho. A baixíssima escolaridade média do trabalhador sergipano inviabiliza ascensão aos cargos de melhor posição e delimita o seu campo de atuação a atividades de baixo conteúdo técnico, portanto facilmente permutável. O trabalhador com baixa educação, com pouca qualificação tende a realizar atividades de baixa qualidade e produtividade, auferindo rendas mínimas e episódicas, com raras e restritas possibilidades de mobilidade laboral ascendente e quase nulas chances de proporcionar aos seus filhos educação que lhes emancipe da pobreza", diz o relatório da pesquisa. 
Um dos reflexos desta questão se relaciona ao nível de ocupação do trabalhador sergipano e a forma como ele está distribuído no mercado. Em termos absolutos, o total de desocupados no primeiro trimestre de 2019 em todo o estado é de 162.703 pessoas, enquanto que o de trabalhadores informais, ou seja, que atuam em empregos informais e sem carteira assinada, somou 488.205 pessoas, representando pouco mais de 53% da população ativa sergipana. A pesquisa fez uma simulação das perdas para a Previdência social com os informais e desocupados-desempregados. Se todos eles fossem absorvidos pelo mercado formal, com salário médio de R$ 1.628,61 e 8% de alíquota média de contribuição, Sergipe arrecadaria cerca de R$ 254.418.066,69.
"O desemprego aberto é uma das várias faces da pobreza multidimensional em Sergipe, mas é a informalidade, às vezes única estratégia de sobrevivência do trabalhador e perigosamente disfarçada de empreendedorismo, que chama atenção tanto pelo volume quanto pelo prejuízo à seguridade social (...). A cobertura legal ao trabalhador é garantia de proteção e sustentáculo da seguridade social: previdência, saúde e educação são financiadas pela contribuição do trabalhador. A condição de informalidade, além de deletéria, produz outros prejuízos psicológicos e subutiliza as competências do trabalhador posto que este, em tais condições, nem sempre executa atividades bem definidas ou aquelas para as quais possui maior habilidade ou formação", analisa o documento.
Outro aspecto do levantamento está na renda salarial média do trabalhador em Sergipe, também afetada pela baixa escolaridade e a falta de interesse em frequentar cursos profissionalizantes. Os dados do IBGE apontaram que, no ano de 2017, a renda média do trabalho em Sergipe caiu de R$ 1.711,00 para R$ 1.579,00, mantendo-se a parti de então entre R$ 1.620,00 e R$ 1.650,00. Na Capital, os salários ficaram na faixa máxima de R$ 2.700,00, enquanto o interior se garante pelo salário mínimo. "A variação da renda é também resultado da alocação setorial dos empregados. Havendo expansão de emprego em setores de melhor remuneração há também melhoria da renda média. No entanto, a renda média pode aumentar quando os postos de trabalho de menor renda são eliminados", afirma o relatório. 
"Nem-nem" - Dentro dos estudos econômicos sobre o mercado de trabalho, existe um fenômeno que chama muito a atenção: o dos chamados "nem-nem", jovens entre 15 e 29 anos que não estudam e nem trabalham. Dos 557.121 habitantes desta faixa etária em Sergipe, 61,7 mil não têm emprego - formal ou informal - e nem frequentam a escola. De acordo com a pesquisa, a grande maioria deles é de jovens pobres, com renda de até 0,5 salário mínimo. 
"A condição em que o jovem nem estuda e nem trabalha deve ser interpretada como uma das mais severas manifestações de exclusão social. A rejeição por parte do mercado de trabalho tende a desanimá-lo a permanecer na escola, uma vez que esta não lhe facilita o acesso à ocupação. O mercado, por sua vez, opta por trabalhadores mais qualificados por serem mais produtivos e mais aptos a exercerem múltiplas funções. A existência dessa população fora do mercado e da escola implica, portanto, em comprometer o futuro dos jovens pertencentes a famílias de baixa renda seja pela condenação ao trabalho de baixa qualificação, seja pelo desencanto com o aprender", avalia o estudo da UFS.

Gabriel Damásio

O fraco desempenho  da economia sergi- pana nos últimos anos, com baixos índices de crescimento, tem como um de seus principais fatores a baixa qualificação da população local. Esta é a constatação do estudo "Observatório do mercado de trabalho sergipano", feito trimestralmente pelo Departamento de Estatística e Ciências Atuariais (Decat), da Universidade Federal de Sergipe (UFS), e da Fundação Municipal do Trabalho (Fundat). A análise se baseia na Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios Contínua (PnadC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com dados levantados entre 2012 e 2019. 
Ela apontou entre outros dados, que 82,97% dos trabalhadores ocupados em Sergipe, na faixa entre 15 e 64 anos, nunca frequentaram qualquer curso de qualificação profissional. E que 98,87% dos trabalhadores ocupados admitiram não frequentar qualquer curso de qualificação atualmente. A maior presença destes trabalhadores está em setores como agropecuária, transporte e armazenagem, e atividades domésticas. Em termos absolutos, falta qualificação para mais de 804 mil trabalhadores ocupados em Sergipe, sendo 465 mil no interior. 
Por outro lado, 940 mil pessoas da mesma faixa etária não conseguiram concluir o Ensino Médio. Considerando "a formação secundária como o mínimo necessário ao funcionamento cidadão, e dado que esse nível de instrução é aquele que apresenta maiores resultados quanto à chance de pobreza", esta é a escolaridade máxima para 68,5% das pessoas desta faixa etária em Aracaju, 88,4% na Região Integrada de Desenvolvimento (RIDE, formada por Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora do Socorro e São Cristóvão), e 92% no interior sergipano. 
O resultado é atribuído aos baixos investimentos históricos em educação e qualificação profissional, refletindo em problemas de desigualdade econômica e outros desdobramentos sociais. "A violência atinge a todos, mas as deficiências educacionais afetam sobremaneira os mais pobres e compromete a sua inserção no mercado de trabalho. A baixíssima escolaridade média do trabalhador sergipano inviabiliza ascensão aos cargos de melhor posição e delimita o seu campo de atuação a atividades de baixo conteúdo técnico, portanto facilmente permutável. O trabalhador com baixa educação, com pouca qualificação tende a realizar atividades de baixa qualidade e produtividade, auferindo rendas mínimas e episódicas, com raras e restritas possibilidades de mobilidade laboral ascendente e quase nulas chances de proporcionar aos seus filhos educação que lhes emancipe da pobreza", diz o relatório da pesquisa. 
Um dos reflexos desta questão se relaciona ao nível de ocupação do trabalhador sergipano e a forma como ele está distribuído no mercado. Em termos absolutos, o total de desocupados no primeiro trimestre de 2019 em todo o estado é de 162.703 pessoas, enquanto que o de trabalhadores informais, ou seja, que atuam em empregos informais e sem carteira assinada, somou 488.205 pessoas, representando pouco mais de 53% da população ativa sergipana. A pesquisa fez uma simulação das perdas para a Previdência social com os informais e desocupados-desempregados. Se todos eles fossem absorvidos pelo mercado formal, com salário médio de R$ 1.628,61 e 8% de alíquota média de contribuição, Sergipe arrecadaria cerca de R$ 254.418.066,69.
"O desemprego aberto é uma das várias faces da pobreza multidimensional em Sergipe, mas é a informalidade, às vezes única estratégia de sobrevivência do trabalhador e perigosamente disfarçada de empreendedorismo, que chama atenção tanto pelo volume quanto pelo prejuízo à seguridade social (...). A cobertura legal ao trabalhador é garantia de proteção e sustentáculo da seguridade social: previdência, saúde e educação são financiadas pela contribuição do trabalhador. A condição de informalidade, além de deletéria, produz outros prejuízos psicológicos e subutiliza as competências do trabalhador posto que este, em tais condições, nem sempre executa atividades bem definidas ou aquelas para as quais possui maior habilidade ou formação", analisa o documento.
Outro aspecto do levantamento está na renda salarial média do trabalhador em Sergipe, também afetada pela baixa escolaridade e a falta de interesse em frequentar cursos profissionalizantes. Os dados do IBGE apontaram que, no ano de 2017, a renda média do trabalho em Sergipe caiu de R$ 1.711,00 para R$ 1.579,00, mantendo-se a parti de então entre R$ 1.620,00 e R$ 1.650,00. Na Capital, os salários ficaram na faixa máxima de R$ 2.700,00, enquanto o interior se garante pelo salário mínimo. "A variação da renda é também resultado da alocação setorial dos empregados. Havendo expansão de emprego em setores de melhor remuneração há também melhoria da renda média. No entanto, a renda média pode aumentar quando os postos de trabalho de menor renda são eliminados", afirma o relatório. 

"Nem-nem" - Dentro dos estudos econômicos sobre o mercado de trabalho, existe um fenômeno que chama muito a atenção: o dos chamados "nem-nem", jovens entre 15 e 29 anos que não estudam e nem trabalham. Dos 557.121 habitantes desta faixa etária em Sergipe, 61,7 mil não têm emprego - formal ou informal - e nem frequentam a escola. De acordo com a pesquisa, a grande maioria deles é de jovens pobres, com renda de até 0,5 salário mínimo. 
"A condição em que o jovem nem estuda e nem trabalha deve ser interpretada como uma das mais severas manifestações de exclusão social. A rejeição por parte do mercado de trabalho tende a desanimá-lo a permanecer na escola, uma vez que esta não lhe facilita o acesso à ocupação. O mercado, por sua vez, opta por trabalhadores mais qualificados por serem mais produtivos e mais aptos a exercerem múltiplas funções. A existência dessa população fora do mercado e da escola implica, portanto, em comprometer o futuro dos jovens pertencentes a famílias de baixa renda seja pela condenação ao trabalho de baixa qualificação, seja pelo desencanto com o aprender", avalia o estudo da UFS.

 


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