Apontamentos familiares da cangaceira Adília

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Publicada em 26/07/2019 às 07:15:00

 

*Rangel Alves da Costa
Maria Adília de Jesus, a ex-cangaceira e companheira de Canário no bando de Lampião, era um amor de pessoa. Maria Adília de Jesus, a saudosa esposa de Zé Emídio, era igualmente um amor de pessoa. E assim por que as duas Maria Adília são uma só: Adília do Alto de João. 
Tive o prazer e privilégio de conhecê-la e de compartilhar de sua amizade. Era também muita amiga de meus pais Alcino e Peta. Muitas vezes, do Alto de João Paulo atravessava o Riacho Jacaré para ficar quase o dia inteiro em nossa casa na Rua dos Vaqueiros (onde hoje é a casa de Gracinha e cuja avenida leva o nome de Alcino Alves Costa). 
Adília, sempre reservada, não era de conversar com todo mundo, principalmente quando sabia que puxariam pelo seu passado, pelas suas memórias cangaceiras. Não gostava de debulhar esse passado tão desatinado em sua vida. Mas conosco era diferente, pois sempre considerada como da própria casa. Então conversava muito, sorria, respondia às constantes indagações de meu pai e tracejava o dia ao lado de minha mãe nos ofícios tão costumeiros. 
É como se ainda estivasse à sua presença. Eu meninote, traquina, e ela de boa altura, morena trigueira, esbelta, na humilde e singeleza em pessoa. Não foram poucas as vezes que eu a acompanhei ate sua residência no Alto, apenas para caminhar e traquinar por cima do chão batido. Quando ela faleceu em 82, eu já contava com 19 anos de idade, porém dela mais distanciado pelos estudos na capital sergipana. Dolorosa partida de uma mulher tão bondosa e tão guerreira. 
E depois, aos poucos, eu fui me arrependendo cada vez mais por não ter fruído mais da presença de Adília, e tanto como ex-cangaceira como mulher de luta e sabedoria. Saudade grande ainda sinto, mas sempre acalantada pela amizade que passei a ter com os seus filhos. Como se sabe, foram dois filhos nascidos do tempo que conviveu com Canário, sendo João Batista (Joãozinho) e Antônio (este sem notícia do paradeiro, mas talvez morando no sul do país). 
Nas entrevistas que concedeu, a ex-cangaceira sempre negou a existência de dois filhos com Canário, mas a verdade, segundo assevera João Batista, é que foram dois. Confirma dizendo que há um filho mais velho do casal, e este é Antônio, nascido em 37, e entregue para ser criado por Domingos Balão e sua família, na região da fazenda Cassuçú, em Poço Redondo. Hoje, se vivo estiver, reside no Paraná e conta em torno de 82 anos. Joãozinho, depois de alguns anos no Rio de Janeiro, passou a residir em Brasília e de vez em quando aparece em Poço Redondo para visita aos familiares e amigos. 
Também como se sabe, após a morte de Canário em 38, e depois de ter que tomar outro rumo após o fim do cangaço, Adília se uniu a um conterrâneo de nome José Emídio de Sousa (Zé Emídio) e com este teve oito filhos: Judite, Maria José, Valdice, Valdira, Eunice, João, Paulo e Antônio José. Da bondade e gentileza nos filhos, logo se percebe a cortesia e amabilidade humana que era Adília. Os que residem em Poço Redondo, a exemplo de Eunice (Nicinha) e Paulo, são sempre amigáveis e generosos com os visitantes. 
Maria José e Valdice, quando a passeio vindas de São Paulo, igualmente gostam de serem conhecidas como filhas da ex-cangaceira e nunca se negam a prosear sobre sua famosa mãe. Decerto Nicinha é mais reservada, sempre dizendo que não sabe nada sobre a vida cangaceira de sua mãe, mas depois vai tomando gosto pela conversa e vai repassando as informações que dispõe. Mas, como diz, sobre o cangaço pouco pode falar, até mesmo porque sua mãe nunca foi de comentar com os filhos sobre aquele seu período de vida. 
Joãozinho, por sua vez, abre logo o livro do que sabe e ouviu dizer, sempre se mostrando orgulhoso pelos nomes dos pais e mais ainda por ser filho legítimo daquele casal tão famoso. É, pois, pessoa verdadeiramente encantadora. Outro dia, estando no sertão a passeio, logo se mostrou interessado em visitar o Memorial Alcino Alves Costa e o marco histórico em homenagem a Canário (Bernardino Rocha), seu pai, construído logo após a cidade de Poço Redondo, na Fazenda Cururipe, nas beiradas da Estrada Histórica Antônio Conselheiro (Estrada de Curralinho). 
No Memorial foi homenageado, recebendo das mãos de Frei Enoque um diploma concedido pelo Cariri Cangaço. E com ele seguimos ao Marco Histórico de Canário. E seus olhos chegavam a brilhar de admiração pelo reconhecimento às suas raízes. Confessou-me, por fim: 
"Depois de tantos anos, e depois de já ter vindo aqui outras vezes sem que nada disso tivesse acontecido, eu jamais esperava que Poço Redondo tivesse despertado assim para a memória de meu pai, e também pelo amor ainda sentido por minha mãe. Mas quem mais está agradecido não sou eu enquanto filho de Adília e Canário, mas o poço-redondense que vive dentro de mim onde eu estiver". 
*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Maria Adília de Jesus, a ex-cangaceira e companheira de Canário no bando de Lampião, era um amor de pessoa. Maria Adília de Jesus, a saudosa esposa de Zé Emídio, era igualmente um amor de pessoa. E assim por que as duas Maria Adília são uma só: Adília do Alto de João. 
Tive o prazer e privilégio de conhecê-la e de compartilhar de sua amizade. Era também muita amiga de meus pais Alcino e Peta. Muitas vezes, do Alto de João Paulo atravessava o Riacho Jacaré para ficar quase o dia inteiro em nossa casa na Rua dos Vaqueiros (onde hoje é a casa de Gracinha e cuja avenida leva o nome de Alcino Alves Costa). 
Adília, sempre reservada, não era de conversar com todo mundo, principalmente quando sabia que puxariam pelo seu passado, pelas suas memórias cangaceiras. Não gostava de debulhar esse passado tão desatinado em sua vida. Mas conosco era diferente, pois sempre considerada como da própria casa. Então conversava muito, sorria, respondia às constantes indagações de meu pai e tracejava o dia ao lado de minha mãe nos ofícios tão costumeiros. 
É como se ainda estivasse à sua presença. Eu meninote, traquina, e ela de boa altura, morena trigueira, esbelta, na humilde e singeleza em pessoa. Não foram poucas as vezes que eu a acompanhei ate sua residência no Alto, apenas para caminhar e traquinar por cima do chão batido. Quando ela faleceu em 82, eu já contava com 19 anos de idade, porém dela mais distanciado pelos estudos na capital sergipana. Dolorosa partida de uma mulher tão bondosa e tão guerreira. 
E depois, aos poucos, eu fui me arrependendo cada vez mais por não ter fruído mais da presença de Adília, e tanto como ex-cangaceira como mulher de luta e sabedoria. Saudade grande ainda sinto, mas sempre acalantada pela amizade que passei a ter com os seus filhos. Como se sabe, foram dois filhos nascidos do tempo que conviveu com Canário, sendo João Batista (Joãozinho) e Antônio (este sem notícia do paradeiro, mas talvez morando no sul do país). 
Nas entrevistas que concedeu, a ex-cangaceira sempre negou a existência de dois filhos com Canário, mas a verdade, segundo assevera João Batista, é que foram dois. Confirma dizendo que há um filho mais velho do casal, e este é Antônio, nascido em 37, e entregue para ser criado por Domingos Balão e sua família, na região da fazenda Cassuçú, em Poço Redondo. Hoje, se vivo estiver, reside no Paraná e conta em torno de 82 anos. Joãozinho, depois de alguns anos no Rio de Janeiro, passou a residir em Brasília e de vez em quando aparece em Poço Redondo para visita aos familiares e amigos. 
Também como se sabe, após a morte de Canário em 38, e depois de ter que tomar outro rumo após o fim do cangaço, Adília se uniu a um conterrâneo de nome José Emídio de Sousa (Zé Emídio) e com este teve oito filhos: Judite, Maria José, Valdice, Valdira, Eunice, João, Paulo e Antônio José. Da bondade e gentileza nos filhos, logo se percebe a cortesia e amabilidade humana que era Adília. Os que residem em Poço Redondo, a exemplo de Eunice (Nicinha) e Paulo, são sempre amigáveis e generosos com os visitantes. 
Maria José e Valdice, quando a passeio vindas de São Paulo, igualmente gostam de serem conhecidas como filhas da ex-cangaceira e nunca se negam a prosear sobre sua famosa mãe. Decerto Nicinha é mais reservada, sempre dizendo que não sabe nada sobre a vida cangaceira de sua mãe, mas depois vai tomando gosto pela conversa e vai repassando as informações que dispõe. Mas, como diz, sobre o cangaço pouco pode falar, até mesmo porque sua mãe nunca foi de comentar com os filhos sobre aquele seu período de vida. 
Joãozinho, por sua vez, abre logo o livro do que sabe e ouviu dizer, sempre se mostrando orgulhoso pelos nomes dos pais e mais ainda por ser filho legítimo daquele casal tão famoso. É, pois, pessoa verdadeiramente encantadora. Outro dia, estando no sertão a passeio, logo se mostrou interessado em visitar o Memorial Alcino Alves Costa e o marco histórico em homenagem a Canário (Bernardino Rocha), seu pai, construído logo após a cidade de Poço Redondo, na Fazenda Cururipe, nas beiradas da Estrada Histórica Antônio Conselheiro (Estrada de Curralinho). 
No Memorial foi homenageado, recebendo das mãos de Frei Enoque um diploma concedido pelo Cariri Cangaço. E com ele seguimos ao Marco Histórico de Canário. E seus olhos chegavam a brilhar de admiração pelo reconhecimento às suas raízes. Confessou-me, por fim: 
"Depois de tantos anos, e depois de já ter vindo aqui outras vezes sem que nada disso tivesse acontecido, eu jamais esperava que Poço Redondo tivesse despertado assim para a memória de meu pai, e também pelo amor ainda sentido por minha mãe. Mas quem mais está agradecido não sou eu enquanto filho de Adília e Canário, mas o poço-redondense que vive dentro de mim onde eu estiver". 

*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com