HÁ FOME SIM, SENHOR PRESIDENTE!

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Publicada em 07/08/2019 às 22:34:00

 

* Paulo Franklin
Em mais uma das suas atrapalhadas declarações e ignorando completamente o país que lhe foi confiado o comando, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que "passar fome no Brasil é uma grande mentira". Mais tarde, depois da repercussão negativa da sua fala, ressaltou que "alguns passam fome". Para quem recebe um salário de R$ 60.236,15, sem contar o salário de capitão reformado, é fácil ser insensível a dor de tantos irmãos e irmãs que padecem sem o necessário para matar a fome.
Segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura  (FAO) e dados apresentados pela Cáritas Brasileira, organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), 13 milhões de pessoas ainda passam fome no Brasil (abre.ai/caritas). Isso significa que, mesmo o país tendo saído do Mapa da Fome da ONU em 2014, notadamente pelo conjunto de políticas públicas implementadas nos 13 anos de governos Lula e Dilma, as desigualdades sociais aumentaram entres os anos de 2016 e 2017 e há sérios riscos de o país voltar ao Mapa da Fome. 
As histórias de famílias que passam fome são diversas. Certamente o leitor conhece alguma próxima de si. Uma entre tantas é a do carioca Maxuel Rismo, contada pelo Portal Extra (abre.ai/fomerj). O jovem de 29 anos, pai de quatro crianças com as idades entre 1, 3, 6 e 8 anos, relata muitas vezes deixar de comer para poder alimentar os filhos. Desempregado e tendo que desembolsar R$ 350 por mês para o aluguel, Rismo e a família vive com um salário de R$ 1 mil por mês, renda essa que vem do trabalho da mãe, a jovem Camila Neves, de 24 anos. Além disso, a família recebe R$ 200 de Bolsa Família. Com esse valor, Rismo afirma ser possível se alimentar apenas com arroz e feijão, cardápio que só se modifica quando a situação melhora um pouco e a família inclui ovo nas refeições. 
Com a aprovação em 2010 da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 47/2003, transformada depois na Emenda Constitucional 64/2010 e também chamada de PEC da Alimentação, proposta esta de autoria do então senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), a alimentação passou a constar no rol dos direitos sociais previstos no art. 6º da Carta Magna, significando que agora, além do direito a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados, o Estado tem o dever legal de prover também a alimentação do povo.
Tema da Campanha da Fraternidade idealizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para 2019, as políticas públicas voltadas ao direito humano a uma alimentação adequada pressupõe ações do Estado voltadas aos grupos que vivem em uma situação de maior vulnerabilidade, como destaca a presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Elisabetta Gioconda Iole Giovanna Recine (abre.ai/elisabetta). Para Recine, "a alimentação tem o papel de nutrir não só o nosso corpo mas também é expressão de todo um processo de acúmulo de sabedoria, de cultura e de valores da sociedade". Por isso, lembra a nutricionista, faz-se necessário que o Estado/Governos, que detêm nas mãos o dinheiro público, pondere onde tais recursos serão utilizados com maior prioridade. 
Durante a realização da 41ª Conferência da FAO, ocorrida entre os dias 22 a 29 de junho de 2019, o Papa Francisco, taxado por muitos de "esquerdista", pelo fato de denunciar as injustiças sociais e sempre estar ao lado dos mais necessitados, chamou à atenção dos presentes para uma realidade que muitos fingem não existir: falta interesse social e vontade política em combater a fome. "Para combater a falta de alimento e acesso à água potável, é preciso trabalhar sobre as causas que as provocam. Na origem deste drama, está, sobretudo, a falta de compaixão, o desinteresse de muitos e uma escassa vontade social e política no momento de responder às obrigações internacionais", destacou o pontífice (abre.ai/acidigital). Diante disso, o sacerdote lançou um desafio para todos nós: "escutar o grito desesperado de nossos irmãos", ou seja, vencer a falta de compaixão que nos impede de olhar a dor do outro. 
Embora acredite que isso não vai acontecer, torço para que o Presidente da República desça urgentemente do pedestal que os seus "adoradores" o colocaram e perceba a realidade de miserabilidade que assola muitas famílias no país. A ideia de governança não se resume em imputar culpa nos governos passados por problemas do presente, mas criar políticas públicas que atendam aos clamores sociais. Enquanto o pobre for visto como alguém que só serve para votar e fazer filhos, cada vez mais os olhares se distanciarão daqueles que sofrem por culpa das inúmeras injustiças sociais que ainda se fazem presentes em nosso país. 
* Paulo Franklin é advogado

* Paulo Franklin

Em mais uma das suas atrapalhadas declarações e ignorando completamente o país que lhe foi confiado o comando, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que "passar fome no Brasil é uma grande mentira". Mais tarde, depois da repercussão negativa da sua fala, ressaltou que "alguns passam fome". Para quem recebe um salário de R$ 60.236,15, sem contar o salário de capitão reformado, é fácil ser insensível a dor de tantos irmãos e irmãs que padecem sem o necessário para matar a fome.
Segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura  (FAO) e dados apresentados pela Cáritas Brasileira, organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), 13 milhões de pessoas ainda passam fome no Brasil (abre.ai/caritas). Isso significa que, mesmo o país tendo saído do Mapa da Fome da ONU em 2014, notadamente pelo conjunto de políticas públicas implementadas nos 13 anos de governos Lula e Dilma, as desigualdades sociais aumentaram entres os anos de 2016 e 2017 e há sérios riscos de o país voltar ao Mapa da Fome. 
As histórias de famílias que passam fome são diversas. Certamente o leitor conhece alguma próxima de si. Uma entre tantas é a do carioca Maxuel Rismo, contada pelo Portal Extra (abre.ai/fomerj). O jovem de 29 anos, pai de quatro crianças com as idades entre 1, 3, 6 e 8 anos, relata muitas vezes deixar de comer para poder alimentar os filhos. Desempregado e tendo que desembolsar R$ 350 por mês para o aluguel, Rismo e a família vive com um salário de R$ 1 mil por mês, renda essa que vem do trabalho da mãe, a jovem Camila Neves, de 24 anos. Além disso, a família recebe R$ 200 de Bolsa Família. Com esse valor, Rismo afirma ser possível se alimentar apenas com arroz e feijão, cardápio que só se modifica quando a situação melhora um pouco e a família inclui ovo nas refeições. 
Com a aprovação em 2010 da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 47/2003, transformada depois na Emenda Constitucional 64/2010 e também chamada de PEC da Alimentação, proposta esta de autoria do então senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), a alimentação passou a constar no rol dos direitos sociais previstos no art. 6º da Carta Magna, significando que agora, além do direito a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados, o Estado tem o dever legal de prover também a alimentação do povo.
Tema da Campanha da Fraternidade idealizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para 2019, as políticas públicas voltadas ao direito humano a uma alimentação adequada pressupõe ações do Estado voltadas aos grupos que vivem em uma situação de maior vulnerabilidade, como destaca a presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), Elisabetta Gioconda Iole Giovanna Recine (abre.ai/elisabetta). Para Recine, "a alimentação tem o papel de nutrir não só o nosso corpo mas também é expressão de todo um processo de acúmulo de sabedoria, de cultura e de valores da sociedade". Por isso, lembra a nutricionista, faz-se necessário que o Estado/Governos, que detêm nas mãos o dinheiro público, pondere onde tais recursos serão utilizados com maior prioridade. 
Durante a realização da 41ª Conferência da FAO, ocorrida entre os dias 22 a 29 de junho de 2019, o Papa Francisco, taxado por muitos de "esquerdista", pelo fato de denunciar as injustiças sociais e sempre estar ao lado dos mais necessitados, chamou à atenção dos presentes para uma realidade que muitos fingem não existir: falta interesse social e vontade política em combater a fome. "Para combater a falta de alimento e acesso à água potável, é preciso trabalhar sobre as causas que as provocam. Na origem deste drama, está, sobretudo, a falta de compaixão, o desinteresse de muitos e uma escassa vontade social e política no momento de responder às obrigações internacionais", destacou o pontífice (abre.ai/acidigital). Diante disso, o sacerdote lançou um desafio para todos nós: "escutar o grito desesperado de nossos irmãos", ou seja, vencer a falta de compaixão que nos impede de olhar a dor do outro. 
Embora acredite que isso não vai acontecer, torço para que o Presidente da República desça urgentemente do pedestal que os seus "adoradores" o colocaram e perceba a realidade de miserabilidade que assola muitas famílias no país. A ideia de governança não se resume em imputar culpa nos governos passados por problemas do presente, mas criar políticas públicas que atendam aos clamores sociais. Enquanto o pobre for visto como alguém que só serve para votar e fazer filhos, cada vez mais os olhares se distanciarão daqueles que sofrem por culpa das inúmeras injustiças sociais que ainda se fazem presentes em nosso país. 

* Paulo Franklin é advogado