Era uma vez no Rio...

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Wilson Witzel, aos pulos
Wilson Witzel, aos pulos

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Publicada em 20/08/2019 às 22:40:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O sequestro de um 
ônibus no Rio de 
Janeiro acabou em tragédia. Após três horas e meia de terror, um homem foi abatido pela polícia, em rede nacional de televisão. O episódio sangrento - um sucesso de audiência previsível, bem a gosto de uma sociedade constituída por espetáculos violentos - faz pensar na fragilidade das garantias individuais. Em troca da ilusão de segurança, vale tudo.
Ontem, sob a lona do circo armado na Ponte Rio-Niterói, Sandro, o personagem do documentário 'Ônibus 174', deu de cara com o Capitão Nascimento de 'Tropa de elite'. Os dois filmes são obra do mesmo diretor, odiado pelos cinéfilos das bolhas progressistas. E, no entanto, não há outro cineasta, além de José Padilha, com tamanha disposição para assumir as contradições e fissuras sociais citadas o tempo todo pelas esquerdas.
Faca na caveira, portanto. O Capitão Nascimento vivido por Wagner Moura é, sem nenhum exagero, dos personagens mais fortes, ambivalentes e incômodos do cinema nacional. Há, no maior sucesso comercial de Padilha (o já documentário é um trabalho de méritos reconhecidos, mas não entra nesta conta), um dado de violência doendo na pele dos pretos e pobres situados à margem. O resto do País só sabia dos abusos policiais por "ouvir dizer". 'Tropa de elite' sufocou a classe média maconheira das universidades federais com um saco plástico.
A verdade peca muita vezes por inconveniente. A sentença vale para o aquecimento global e para as fraturas expostas da suposta democracia racial, também. A violência de Estado, criminosa, as suas razões e estratégias, estão perfeitamente materializadas no Caveirão, o blindado utilizado pela polícia militar do Rio de Janeiro para entrar na favela. O filme de Padilha não o rechaça em nenhum momento. Os soldados do Bope, treinados para a guerra, torturam e matam, mas jamais adquirem a feição de monstros. E isso, a esquerda religiosa, do bem contra o mal, jamais perdoará a Padilha.
José Padilha tem sim pecados sobre os quais prestar contas. A sério 'O mecanismo', livremente inspirada nos feitos sabidamente ilícitos da operação Lava Jato, mereceu uma ridícula campanha de boicote à plataforma Netflix. Mas, a bem da verdade, a birra com o diretor é mais antiga. Ele teve a audácia de colocar o País onde bandido bom é bandido morto diante de um espelho, sem fazer nenhuma concessão às sociologias de araque. Uma posição política legítima, alheia ao código binário que anima a militância da internet.
Ontem, a vida imitou a arte, sem nenhuma ponta de lirismo, por força de vários tiros. O governador Wilson Witzel não conteve a alegria e sambou sobre um cadáver, comemorou aos pulos.

O sequestro de um  ônibus no Rio de  Janeiro acabou em tragédia. Após três horas e meia de terror, um homem foi abatido pela polícia, em rede nacional de televisão. O episódio sangrento - um sucesso de audiência previsível, bem a gosto de uma sociedade constituída por espetáculos violentos - faz pensar na fragilidade das garantias individuais. Em troca da ilusão de segurança, vale tudo.
Ontem, sob a lona do circo armado na Ponte Rio-Niterói, Sandro, o personagem do documentário 'Ônibus 174', deu de cara com o Capitão Nascimento de 'Tropa de elite'. Os dois filmes são obra do mesmo diretor, odiado pelos cinéfilos das bolhas progressistas. E, no entanto, não há outro cineasta, além de José Padilha, com tamanha disposição para assumir as contradições e fissuras sociais citadas o tempo todo pelas esquerdas.
Faca na caveira, portanto. O Capitão Nascimento vivido por Wagner Moura é, sem nenhum exagero, dos personagens mais fortes, ambivalentes e incômodos do cinema nacional. Há, no maior sucesso comercial de Padilha (o já documentário é um trabalho de méritos reconhecidos, mas não entra nesta conta), um dado de violência doendo na pele dos pretos e pobres situados à margem. O resto do País só sabia dos abusos policiais por "ouvir dizer". 'Tropa de elite' sufocou a classe média maconheira das universidades federais com um saco plástico.
A verdade peca muita vezes por inconveniente. A sentença vale para o aquecimento global e para as fraturas expostas da suposta democracia racial, também. A violência de Estado, criminosa, as suas razões e estratégias, estão perfeitamente materializadas no Caveirão, o blindado utilizado pela polícia militar do Rio de Janeiro para entrar na favela. O filme de Padilha não o rechaça em nenhum momento. Os soldados do Bope, treinados para a guerra, torturam e matam, mas jamais adquirem a feição de monstros. E isso, a esquerda religiosa, do bem contra o mal, jamais perdoará a Padilha.
José Padilha tem sim pecados sobre os quais prestar contas. A sério 'O mecanismo', livremente inspirada nos feitos sabidamente ilícitos da operação Lava Jato, mereceu uma ridícula campanha de boicote à plataforma Netflix. Mas, a bem da verdade, a birra com o diretor é mais antiga. Ele teve a audácia de colocar o País onde bandido bom é bandido morto diante de um espelho, sem fazer nenhuma concessão às sociologias de araque. Uma posição política legítima, alheia ao código binário que anima a militância da internet.
Ontem, a vida imitou a arte, sem nenhuma ponta de lirismo, por força de vários tiros. O governador Wilson Witzel não conteve a alegria e sambou sobre um cadáver, comemorou aos pulos.