Até quando?

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Publicada em 22/08/2019 às 23:02:00

 

* Marcio Pochmann 
O antigo mosaico que compunha a sociedade urbana e industrial iniciada a partir da Revolução de 1930 encontra-se, nos dias de hoje, profundamente dilacerado. Com o ingresso passivo e subordinado do Brasil à globalização neoliberal, a industrialização que constituía a coluna vertebral da nação até a década de 1980 passou a ser desfeita, deslocando as "placas tectônicas" da estrutura sobre a qual a sociedade encontrava-se até então assentada.
Sem a reversão do processo precoce da desindustrialização, a sociedade salarial que estava ainda em constituição na periferia do capitalismo mundial terminou sendo fortemente afetada pela ruína crescente das classes média e trabalhadora industrial.
Na mesma toada, o que havia de burguesia erigida sob a base do oitavo principal setor manufatureiro do mundo foi se desfigurando pela conversão dos serviços de comerciantes de bens industriais importados e de rentistas das aplicações nos mercados especulativos.
Emergiu, assim, crescente polarização movida por guerra de posições no interior da terceirização da economia e das diferentes frações e classes em plena desestruturação da sociedade que tinha até então como principal charme, a intensa e desigual mobilidade social geracional e intergeracional.
Nesse sentido, o atraso que se impunha e se acumulava diante da desossatura social conseguia ser retardado durante o ciclo político da Nova República (1985-2016) por força da Constituição dirigente de 1988 e do progressismo dos governos do PT (2003-2014), apesar dos ataques neoliberais da "era dos Fernandos" (1990-2002).
Diante de constantes ameaças da explosão social, as possibilidades de avanços pareciam artificiais, funcionando como uma espécie de armazenamento sem horizonte de destino a postergar o empoçamento do mal maior e crescente.
Mas a escassez de materialidade a sustentar uma estrutura produtiva vigorosa tornava incapaz a oferta de alternativas viáveis para o médio e longo prazos sem reformas estruturais, postergadas recorrentemente por maiorias políticas curtoprazistas e instáveis num capitalismo dominado pela especialização primário-exportador e pelo rentismo.
Por conta disso, a década de 2010 que apontava - logo no seu início - para o decênio sem atropelos, registrou, a partir de 2015, inequívoca e considerável reversão de trajetória. Na primeira metade dos anos de 2010 (2010-2014), por exemplo, a economia brasileira cresceu 3,2% como média anual, sinalizando o pleno emprego e a redução contínua da pobreza e desigualdade na renda do trabalho.
Entre os anos de 2015 a 2019, contudo, a produção nacional passou a decrescer mais de 1% como média anual, fazendo com que o desemprego saltasse para um terço da População Economicamente Ativa a procurar por trabalho inexistente. Além disso, a pobreza e a desigualdade de renda deixaram de diminuir para, então, não mais parar de aumentar.
A brutal inflexão na trajetória que tornou perdida a segunda década do século 21 se deveu fundamentalmente a duas razões principais - pelo menos - identificadas ao que ocorreu justamente em 2014.
De um lado, os partidos reunidos em torno da candidatura presidencial de Aécio Neves não aceitaram a derrota, pela primeira vez desde a constituição do ciclo político da Nova República, como questionaram o resultado eleitoral e empurraram para o parlamento, local que detinham maioria dos votos, para - numa espécie de terceiro turno - interromper o governo democraticamente eleito da presidente Dilma Rousseff.
De outro, a operação denominada Lava Jato que integrada por parcela da elite do estamentos estatal pertencente ao sistema "U" (MPU, TCU, PJ, DPF, SRF e outros) interferiu no processo eleitoral de 2018 e em seu resultado subsequente. Ademais, atuou decisivamente também para destruir as poucas e vitais cadeias produtivas nacionais (petróleo e gás, construção civil, indústria naval, entre outras) e contribuir severamente para o aniquilamento das possibilidades de alguma vitalidade no conjunto da economia nacional.
O cenário de fratura social exposta tende a se aprofundar ainda mais no governo Bolsonaro de destruição nacional. O passo seguinte desse percurso rumo ao desastre social tende a ser derradeira materialização dos movimentos insurrecionais e desintegração da nação. Até quando?
 
* Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas (Publicado originalmente na Rede Brasil Atual)

O cenário de fratura social exposta tende a se aprofundar ainda mais no governo Bolsonaro de destruição nacional. O passo seguinte desse percurso rumo ao desastre social tende a ser derradeira materialização dos movimentos insurrecionais e desintegração da nação

* Marcio Pochmann 

O antigo mosaico que compunha a sociedade urbana e industrial iniciada a partir da Revolução de 1930 encontra-se, nos dias de hoje, profundamente dilacerado. Com o ingresso passivo e subordinado do Brasil à globalização neoliberal, a industrialização que constituía a coluna vertebral da nação até a década de 1980 passou a ser desfeita, deslocando as "placas tectônicas" da estrutura sobre a qual a sociedade encontrava-se até então assentada.
Sem a reversão do processo precoce da desindustrialização, a sociedade salarial que estava ainda em constituição na periferia do capitalismo mundial terminou sendo fortemente afetada pela ruína crescente das classes média e trabalhadora industrial.
Na mesma toada, o que havia de burguesia erigida sob a base do oitavo principal setor manufatureiro do mundo foi se desfigurando pela conversão dos serviços de comerciantes de bens industriais importados e de rentistas das aplicações nos mercados especulativos.
Emergiu, assim, crescente polarização movida por guerra de posições no interior da terceirização da economia e das diferentes frações e classes em plena desestruturação da sociedade que tinha até então como principal charme, a intensa e desigual mobilidade social geracional e intergeracional.
Nesse sentido, o atraso que se impunha e se acumulava diante da desossatura social conseguia ser retardado durante o ciclo político da Nova República (1985-2016) por força da Constituição dirigente de 1988 e do progressismo dos governos do PT (2003-2014), apesar dos ataques neoliberais da "era dos Fernandos" (1990-2002).
Diante de constantes ameaças da explosão social, as possibilidades de avanços pareciam artificiais, funcionando como uma espécie de armazenamento sem horizonte de destino a postergar o empoçamento do mal maior e crescente.
Mas a escassez de materialidade a sustentar uma estrutura produtiva vigorosa tornava incapaz a oferta de alternativas viáveis para o médio e longo prazos sem reformas estruturais, postergadas recorrentemente por maiorias políticas curtoprazistas e instáveis num capitalismo dominado pela especialização primário-exportador e pelo rentismo.
Por conta disso, a década de 2010 que apontava - logo no seu início - para o decênio sem atropelos, registrou, a partir de 2015, inequívoca e considerável reversão de trajetória. Na primeira metade dos anos de 2010 (2010-2014), por exemplo, a economia brasileira cresceu 3,2% como média anual, sinalizando o pleno emprego e a redução contínua da pobreza e desigualdade na renda do trabalho.
Entre os anos de 2015 a 2019, contudo, a produção nacional passou a decrescer mais de 1% como média anual, fazendo com que o desemprego saltasse para um terço da População Economicamente Ativa a procurar por trabalho inexistente. Além disso, a pobreza e a desigualdade de renda deixaram de diminuir para, então, não mais parar de aumentar.
A brutal inflexão na trajetória que tornou perdida a segunda década do século 21 se deveu fundamentalmente a duas razões principais - pelo menos - identificadas ao que ocorreu justamente em 2014.
De um lado, os partidos reunidos em torno da candidatura presidencial de Aécio Neves não aceitaram a derrota, pela primeira vez desde a constituição do ciclo político da Nova República, como questionaram o resultado eleitoral e empurraram para o parlamento, local que detinham maioria dos votos, para - numa espécie de terceiro turno - interromper o governo democraticamente eleito da presidente Dilma Rousseff.
De outro, a operação denominada Lava Jato que integrada por parcela da elite do estamentos estatal pertencente ao sistema "U" (MPU, TCU, PJ, DPF, SRF e outros) interferiu no processo eleitoral de 2018 e em seu resultado subsequente. Ademais, atuou decisivamente também para destruir as poucas e vitais cadeias produtivas nacionais (petróleo e gás, construção civil, indústria naval, entre outras) e contribuir severamente para o aniquilamento das possibilidades de alguma vitalidade no conjunto da economia nacional.
O cenário de fratura social exposta tende a se aprofundar ainda mais no governo Bolsonaro de destruição nacional. O passo seguinte desse percurso rumo ao desastre social tende a ser derradeira materialização dos movimentos insurrecionais e desintegração da nação. Até quando?
 * Marcio Pochmann é professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas (Publicado originalmente na Rede Brasil Atual)