Um conselho em Guimarães Rosa

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto
\"Viver é muito perigoso\"
\"Viver é muito perigoso\"

Clique nas imagens para ampliar

Publicada em 23/08/2019 às 22:55:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Há pessoas que ja-
mais se entende-
rão com os números, gente que pouco sabe de quadrados e hipotenusas, se perde até com o troco do pão. Os opositores do governador Belivaldo Chagas devem ser destes. Derrotados no pleito eleitoral mais recente, comemoram a possibilidade de cassação da chapa vitoriosa, trauma insinuado no horizonte político do estado, como uma conquista do próprio grupo. Nada mais equivocado. Os 300 mil votos de diferença apurados nas urnas desaconselham  a euforia da turma.
Ruins de matemática, os derrotados deveriam fazer como eu: Ao invés de quebrar a cabeça para concluir que a soma de dois e dois é igual a quatro, encho a boca de palavras bonitas. Agora mesmo, ando por aí recitando o sertão imenso de Guimarães Rosa na ponta da língua. "Viver é muito perigoso". Se Valadares Filho aceitar um bom conselho, vai colher lição valiosa sobre a pretensão de chefia nas veredas da literatura.
Um acerto com o tinhoso nunca sai barato. Somente depois de negociar com a própria alma, no entanto, o personagem Riobaldo reivindica o comando do seu bando e abraça o próprio destino. Segundo Antonio Candido, no célebre ensaio 'O homem dos avessos', tamanho empenho é fruto de uma inclinação natural do espírito. Num primeiro momento, o jagunço recusa posto de liderança, imaturo. Uma vez movido pelo desejo de fazer justiça e cobrar vingança, entretanto, Riobaldo vai à encruzilhada, decidido a mudar de pele e cumprir o ritual de passagem, em sacrifício. 
"Neste ponto, sente, como todo chefe legítimo, que tais decisões não cabem nem estão ao alcance dos que não possuem as mesmas virtudes de mando".
Como se vê, para o crítico literário, o sentimento amargo irrompe no peito de Riobaldo como uma espécie de revelação.
O filho de Valadares jamais terá paz enquanto não for eleito chefe de um cargo executivo. A ambição é pública e notória, tem todos os contornos de um projeto político mesquinho. Baixo de estatura, ele jamais precisou se dar ao trabalho de construir um nome próprio. Quer a chefia de mãos beijadas, nem que seja por decreto, por direito hereditário. Sem rito de passagem. Sem assumir o risco de qualquer missão.

Há pessoas que ja- mais se entende- rão com os números, gente que pouco sabe de quadrados e hipotenusas, se perde até com o troco do pão. Os opositores do governador Belivaldo Chagas devem ser destes. Derrotados no pleito eleitoral mais recente, comemoram a possibilidade de cassação da chapa vitoriosa, trauma insinuado no horizonte político do estado, como uma conquista do próprio grupo. Nada mais equivocado. Os 300 mil votos de diferença apurados nas urnas desaconselham  a euforia da turma.
Ruins de matemática, os derrotados deveriam fazer como eu: Ao invés de quebrar a cabeça para concluir que a soma de dois e dois é igual a quatro, encho a boca de palavras bonitas. Agora mesmo, ando por aí recitando o sertão imenso de Guimarães Rosa na ponta da língua. "Viver é muito perigoso". Se Valadares Filho aceitar um bom conselho, vai colher lição valiosa sobre a pretensão de chefia nas veredas da literatura.
Um acerto com o tinhoso nunca sai barato. Somente depois de negociar com a própria alma, no entanto, o personagem Riobaldo reivindica o comando do seu bando e abraça o próprio destino. Segundo Antonio Candido, no célebre ensaio 'O homem dos avessos', tamanho empenho é fruto de uma inclinação natural do espírito. Num primeiro momento, o jagunço recusa posto de liderança, imaturo. Uma vez movido pelo desejo de fazer justiça e cobrar vingança, entretanto, Riobaldo vai à encruzilhada, decidido a mudar de pele e cumprir o ritual de passagem, em sacrifício. 
"Neste ponto, sente, como todo chefe legítimo, que tais decisões não cabem nem estão ao alcance dos que não possuem as mesmas virtudes de mando".
Como se vê, para o crítico literário, o sentimento amargo irrompe no peito de Riobaldo como uma espécie de revelação.
O filho de Valadares jamais terá paz enquanto não for eleito chefe de um cargo executivo. A ambição é pública e notória, tem todos os contornos de um projeto político mesquinho. Baixo de estatura, ele jamais precisou se dar ao trabalho de construir um nome próprio. Quer a chefia de mãos beijadas, nem que seja por decreto, por direito hereditário. Sem rito de passagem. Sem assumir o risco de qualquer missão.