Made in Brasil

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Cheios de dedos
Cheios de dedos

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Publicada em 27/08/2019 às 22:35:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com 
Quem tem uma vio
la só chora se qui
ser. O achado é de uma banda de forró eletrônico, muito popular em meu tempo de menino, quando a festa de São João foi transformada em evento de palco e público imenso, em prejuízo das fogueiras acesas nas portas das casas. Não tem origem erudita, como se vê. De todo modo, não deixa de traduzir a satisfação elevada de atacar as cordas atadas a um pedaço de madeira nobre, sob o pretexto de fazer vibrar os músculos e os nervos dos outros. Serve para Itzhack Perlman, citado com o fim exclusivo de resgatar a minha autoridade intelectual, e também para os cantadores de feira. No meio do caminho, uma síntese dos extremos, Caetano já falou sobre a delícia de tocar um instrumento.
O leitor certamente notou, resolvi soltar as rédeas do pensamento, a ver onde vai dar a cabeça povoada de ideias. Escrevo sem método, ao sabor dos arpejos do trio Madeira Brasil, com data marcada para chegar à terrinha. Salvo engano, o disco mais recente dos bambas foi gravado ao vivo, há uns bons quatro anos. Nem por isso perdeu o viço.
Entre o popular e o erudito, o choro nativo e as bachianas de Villa Lobos, o trio de violão, bandolim e sete cordas formado por José Paulo Becker, Ronaldo do Bandolim e Marcello Gonçalves evoca algo de artesanal e autêntico, como se reivindicasse o selo de qualidade Made in Brasil. Já serviu aos trinados da cantora Roberta Sá, no álbum 'Quando o canto é reza' (2015), fabuloso. Cheios de dedos, no entanto, os três geralmente dispensam o artifício do discurso verbal e falam de um lugar quente que conhecem como a palma da própria mão, sem nenhuma necessidade de abrir a boca e apelar à brutalidade mundana da palavra.
Por pouco não cedo à tentação do ufanismo. Se os americanos podem se orgulhar das canções de trabalho entoadas pelos escravos nos campos de algodão, matriz da qual deriva a música mais pungente do século passado, nós temos Pixinguinha e Cia Ltda. Aqui, os pretos fizeram uma música urbana de entortar os dedos, dotada de acento muito original. Os primeiros chorões bem nos valem. A tradição musical brasileira não deixa nada a dever ao blues e o jazz de seu ninguém.
Sem mais o que fazer, eu passaria dias inteiros numa espécie de transe ritmado, sem querer saber de outra coisa, além  do lamento destas cordas tropicais. Se o mundo é grande, foi emprenhado por lamentos e fados, mais vasto é o meu coração.

Quem tem uma vio la só chora se qui ser. O achado é de uma banda de forró eletrônico, muito popular em meu tempo de menino, quando a festa de São João foi transformada em evento de palco e público imenso, em prejuízo das fogueiras acesas nas portas das casas. Não tem origem erudita, como se vê. De todo modo, não deixa de traduzir a satisfação elevada de atacar as cordas atadas a um pedaço de madeira nobre, sob o pretexto de fazer vibrar os músculos e os nervos dos outros. Serve para Itzhack Perlman, citado com o fim exclusivo de resgatar a minha autoridade intelectual, e também para os cantadores de feira. No meio do caminho, uma síntese dos extremos, Caetano já falou sobre a delícia de tocar um instrumento.
O leitor certamente notou, resolvi soltar as rédeas do pensamento, a ver onde vai dar a cabeça povoada de ideias. Escrevo sem método, ao sabor dos arpejos do trio Madeira Brasil, com data marcada para chegar à terrinha. Salvo engano, o disco mais recente dos bambas foi gravado ao vivo, há uns bons quatro anos. Nem por isso perdeu o viço.
Entre o popular e o erudito, o choro nativo e as bachianas de Villa Lobos, o trio de violão, bandolim e sete cordas formado por José Paulo Becker, Ronaldo do Bandolim e Marcello Gonçalves evoca algo de artesanal e autêntico, como se reivindicasse o selo de qualidade Made in Brasil. Já serviu aos trinados da cantora Roberta Sá, no álbum 'Quando o canto é reza' (2015), fabuloso. Cheios de dedos, no entanto, os três geralmente dispensam o artifício do discurso verbal e falam de um lugar quente que conhecem como a palma da própria mão, sem nenhuma necessidade de abrir a boca e apelar à brutalidade mundana da palavra.
Por pouco não cedo à tentação do ufanismo. Se os americanos podem se orgulhar das canções de trabalho entoadas pelos escravos nos campos de algodão, matriz da qual deriva a música mais pungente do século passado, nós temos Pixinguinha e Cia Ltda. Aqui, os pretos fizeram uma música urbana de entortar os dedos, dotada de acento muito original. Os primeiros chorões bem nos valem. A tradição musical brasileira não deixa nada a dever ao blues e o jazz de seu ninguém.
Sem mais o que fazer, eu passaria dias inteiros numa espécie de transe ritmado, sem querer saber de outra coisa, além  do lamento destas cordas tropicais. Se o mundo é grande, foi emprenhado por lamentos e fados, mais vasto é o meu coração.