Vozes anoitecidas

Geral


  • Um gênio

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
'Clandestino', o único trabalho audível de Manu Chao, completou 20 anos, mais atual do que nunca. Os protestos impregnados de fumo de um ser desgarrado, desafiando as fronteiras do mundo civilizado, evocam as diásporas de ontem e de hoje, a ordem econômica mundial, o nacionalismo verde e amarelo, a política migratória de Donald Trump... A gravadora Because aproveitou a oportunidade e promoveu um novo lançamento do disco, com o acréscimo de três faixas bônus, a fim de colocar o artista mais uma vez sob os holofotes. A mim, contudo, a estratégia não convence. A balançar o esqueleto por sugestão de melodia cansada, prefiro reviver as páginas devastadas de 'Terra sonâmbula' , do moçambicano Mia Couto. 
A leitura do livro não impede a audição do álbum, claro. No entanto, convém sublinhar a linguagem pungente do primeiro, a maravilha de horror e sonho narrada por um escritor comprometido com a história de guerras e violências incrustradas na feição de um pedaço esquecido do mundo. Quando um furacão varreu Moçambique, há poucos meses, para azar de uma centena de mortos, a tragédia não teve grande repercussão, apesar do rastro imenso de destruição. É triste, mas economia e política são fatores cruciais em qualquer manifestação de solidariedade entre os povos.
Há quem diga que a literatura deriva sempre de trauma. A sentença é questionável, mas talvez explique a força das palavras na obra de Mia Couto. Moçambique é uma ferida banhada pelo oceano índico, desde a chegada de Vasco da Gama, em 1498. Anexada pelo Império Português, conquistou a independência política somente em 1975, quatro séculos mais tarde. Dois anos após a fundação da República Popular, entretanto, o país mergulhou em uma guerra civil prolongada, que durou de 1977 a 1992. Em 1994, o país realizou as primeiras eleições multipartidárias de sua história e se mantém como uma república presidencial relativamente estável, até notícia em sentido contrário.
Longe de mim, a intenção de relativizar o drama de uns e outros. Cada um sabe dos próprios calos. Em desfavor de Manu Chao, no entanto, conservo a lembrança desagradável de um show nas areias da Atalaia, em evento promovido pela Prefeitura de Aracaju, há uns bons dez anos. No palco, ele se esgoelou em diversas línguas, uma caricatura multicultural. Por pouco, não saudou o público em sânscrito. Mas, em verdade, todo o seu poder de comunicação está concentrado em apenas duas canções ('Clandestino', realmente convincente, e 'Minha galera', de lirismo inesperado). Quando o artista voltou a estas praias, alguns anos depois, novamente a convite do poder público, eu nem me dei ao trabalho de sair de casa.
A Manu Chao eu concedo o valor de um artista sensível às pelejas travadas à margem da ordem legal. Não é pouca coisa. Também não é a última bolacha do pacote. Mia Couto, sim, tem história pra contar e o faz com o devido vigor desde a publicação de 'Vozes anoitecidas' (1987), um gênio.

'Clandestino', o único trabalho audível de Manu Chao, completou 20 anos, mais atual do que nunca. Os protestos impregnados de fumo de um ser desgarrado, desafiando as fronteiras do mundo civilizado, evocam as diásporas de ontem e de hoje, a ordem econômica mundial, o nacionalismo verde e amarelo, a política migratória de Donald Trump... A gravadora Because aproveitou a oportunidade e promoveu um novo lançamento do disco, com o acréscimo de três faixas bônus, a fim de colocar o artista mais uma vez sob os holofotes. A mim, contudo, a estratégia não convence. A balançar o esqueleto por sugestão de melodia cansada, prefiro reviver as páginas devastadas de 'Terra sonâmbula' , do moçambicano Mia Couto. 
A leitura do livro não impede a audição do álbum, claro. No entanto, convém sublinhar a linguagem pungente do primeiro, a maravilha de horror e sonho narrada por um escritor comprometido com a história de guerras e violências incrustradas na feição de um pedaço esquecido do mundo. Quando um furacão varreu Moçambique, há poucos meses, para azar de uma centena de mortos, a tragédia não teve grande repercussão, apesar do rastro imenso de destruição. É triste, mas economia e política são fatores cruciais em qualquer manifestação de solidariedade entre os povos.
Há quem diga que a literatura deriva sempre de trauma. A sentença é questionável, mas talvez explique a força das palavras na obra de Mia Couto. Moçambique é uma ferida banhada pelo oceano índico, desde a chegada de Vasco da Gama, em 1498. Anexada pelo Império Português, conquistou a independência política somente em 1975, quatro séculos mais tarde. Dois anos após a fundação da República Popular, entretanto, o país mergulhou em uma guerra civil prolongada, que durou de 1977 a 1992. Em 1994, o país realizou as primeiras eleições multipartidárias de sua história e se mantém como uma república presidencial relativamente estável, até notícia em sentido contrário.
Longe de mim, a intenção de relativizar o drama de uns e outros. Cada um sabe dos próprios calos. Em desfavor de Manu Chao, no entanto, conservo a lembrança desagradável de um show nas areias da Atalaia, em evento promovido pela Prefeitura de Aracaju, há uns bons dez anos. No palco, ele se esgoelou em diversas línguas, uma caricatura multicultural. Por pouco, não saudou o público em sânscrito. Mas, em verdade, todo o seu poder de comunicação está concentrado em apenas duas canções ('Clandestino', realmente convincente, e 'Minha galera', de lirismo inesperado). Quando o artista voltou a estas praias, alguns anos depois, novamente a convite do poder público, eu nem me dei ao trabalho de sair de casa.
A Manu Chao eu concedo o valor de um artista sensível às pelejas travadas à margem da ordem legal. Não é pouca coisa. Também não é a última bolacha do pacote. Mia Couto, sim, tem história pra contar e o faz com o devido vigor desde a publicação de 'Vozes anoitecidas' (1987), um gênio.

 


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