JK E O AFILHADO DO BARRACÃO

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Publicada em 30/08/2019 às 23:02:00

 

* Manoel Moacir Costa Macêdo
Um lugar ali, nem perto, nem longe, mais escuro do que claro, cercado pelos rios itapicuru e real. Esse último emprestou o atual nome. Antes 'Brejo Grande' dos coronéis de patentes compradas e donos de cabras para os serviços de mando. Depois 'Barracão' dos senhores de escravos da 'Furada'. Hoje 'Rio Real', pobre, violento e desigual. Uma divisa gêmea entre a 'Bahia e Sergipe'. Naquele tempo, as moças passeavam de mãos-dadas, os roceiros eram ingênuos e a justiça era divina. Não se criminalizavam os apelidos, ao contrário, os identificavam. 'Fiel', um religioso agiota. 'Jesus', um diabo nas travessuras infantis e 'Daniel de João Barbeiro', um seminarista que se transformou no perigoso guerrilheiro careca e barbudo. 'Maninha', no dizer local não paria, mas era uma mãe zelosa de um time de filhos. O seu primogênito registrado no cartório das 'Beijas' como 'José da Silva Cerqueira', nascido de parteira na 'Rua da Gameleira', estreita e histórica. 
'Zé de Zequinha Cerqueira', carregava o nome do pai, um costume do local. Depois de empregado, passou a se chamar 'Zé Cerqueira da Leste'. Ao casar com uma moça bonita e prendada da família dos 'Dantas', passou a ser identificado como 'Zé de Jacilda'. Quando criança, o primogênito de 'Dona Maninha', acordava sob as ordens paternas de 'Seu Zequinha' às cinco da manhã. Transportava no lombo do jegue, o leite das vacas pé-duro das roças 'Camboatá e Mamona', distantes uma légua da cidade. Aventura dura para uma criança. Numa das manhãs, chorando alto e olhando aos céus, procurando ser ouvido por 'Deus' escondido nas nuvens distantes e azuis do mês árido de São José, suplicou alto e com fé: "Deus dos pobres e esquecidos me dê outro modo de vida. Não quero acabar os meus dias de vida na roça".
'Dona Maninha' com o sentimento materno aguçado, sentiu o lamento sofrido do primogênito e em lágrimas orou em silêncio, rogando a 'Deus' piedade e misericórdia. Naquela terra, não tinha a quem socorrer. Lembrou do 'Presidente da República Juscelino Kubistchek - JK', conhecido pela 'Voz do Brasil e o Repórter Esso'. Um homem simples, alegre e da 'bossa nova'. Iria construir Brasília e interiorizar o progresso do Brasil: "cinquenta anos em cinco". Com coragem e fé passou um telegrama para 'JK'. A comunicação do 'Barracão' à Capital do Brasil, era pelos fios da 'Leste', ditados pela linguagem do 'Código Morse'. Disse ela: "Doutor Juscelino Kubistchek, Presidente do Brasil. O meu filho mais velho José da Silva Cerqueira, conhece as primeiras letras e tem capacidade para o serviço de radioamador e telegrafista da Leste. Rogo por Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, esse emprego na Estação de Trem da Leste do Barracão. Respeitosamente, Maninha Cerqueira".
A mesma 'Leste' do seu marido. Os empregos eram raros e ocupados pelos afilhados políticos de 'Mangabinha', dos 'Valença', dos 'Mattos' e dos 'Moreiras'. Apegou-se também a 'Nossa Senhora do Livramento', padroeira do 'Barracão' e sua vizinha na 'Praça da Igreja'. Em preces de 'mãe para mãe', prometeu se o seu filho fosse empregado na 'Leste', seria batizado em 'Brasília' e o padrinho seria o 'Presidente JK'. Passado um ano, nenhuma notícia do 'Planalto Central', exceto a construção festejada da 'Capital do Brasil'.
Um dia, lá pelas quatro da tarde, bate à porta da casa, sempre aberta, uma voz conhecida, era o telegrafista, o filho de 'Seu Bião': "Dona Maninha, ttteeellleeegggrrraaammmaaa". Recebeu pelas trêmulas, bondosas e abençoadas mãos, tomou coragem, temendo o que diria o marido 'Zequinha', abriu delicadamente o telegrama, colado com goma de tapioca e leu em voz baixa e solitária: "Senhora Dona Maninha, comunico que o seu filho José da Silva Cerqueira, irá tomar posse em primeiro de outubro de 1957 como telegrafista da Leste de Barracão. Atenciosamente, Juscelino Kubistchek de Oliveira, Presidente da República Federativa do Brasil". Em choro, exclamou em voz alta: "milagre no Barracão". Encomendou uma missa de ação de graças em intenção de 'JK'. 'Dona Maninha' e 'JK' morreram. 'Zé de Jacilda' continua vivo, feliz, aposentado, casado e cantarolando no Barracão. Não foi batizado na 'Capital Federal', mas 'JK' continua sendo o seu padrinho pelo emprego arranjado. Renovam os pedidos, os padrinhos, as graças e os santos, mas os milagres continuam os mesmos.
* Manoel Moacir Costa Macêdo, Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

'Zé de Zequinha Cerqueira', carregava o nome do pai, um costume do local. Depois de empregado, passou a se chamar 'Zé Cerqueira da Leste'. Ao casar com uma moça bonita e prendada da família dos 'Dantas', passou a ser identificado como 'Zé de Jacilda'

* Manoel Moacir Costa Macêdo

Um lugar ali, nem perto, nem longe, mais escuro do que claro, cercado pelos rios itapicuru e real. Esse último emprestou o atual nome. Antes 'Brejo Grande' dos coronéis de patentes compradas e donos de cabras para os serviços de mando. Depois 'Barracão' dos senhores de escravos da 'Furada'. Hoje 'Rio Real', pobre, violento e desigual. Uma divisa gêmea entre a 'Bahia e Sergipe'. Naquele tempo, as moças passeavam de mãos-dadas, os roceiros eram ingênuos e a justiça era divina. Não se criminalizavam os apelidos, ao contrário, os identificavam. 'Fiel', um religioso agiota. 'Jesus', um diabo nas travessuras infantis e 'Daniel de João Barbeiro', um seminarista que se transformou no perigoso guerrilheiro careca e barbudo. 'Maninha', no dizer local não paria, mas era uma mãe zelosa de um time de filhos. O seu primogênito registrado no cartório das 'Beijas' como 'José da Silva Cerqueira', nascido de parteira na 'Rua da Gameleira', estreita e histórica. 
'Zé de Zequinha Cerqueira', carregava o nome do pai, um costume do local. Depois de empregado, passou a se chamar 'Zé Cerqueira da Leste'. Ao casar com uma moça bonita e prendada da família dos 'Dantas', passou a ser identificado como 'Zé de Jacilda'. Quando criança, o primogênito de 'Dona Maninha', acordava sob as ordens paternas de 'Seu Zequinha' às cinco da manhã. Transportava no lombo do jegue, o leite das vacas pé-duro das roças 'Camboatá e Mamona', distantes uma légua da cidade. Aventura dura para uma criança. Numa das manhãs, chorando alto e olhando aos céus, procurando ser ouvido por 'Deus' escondido nas nuvens distantes e azuis do mês árido de São José, suplicou alto e com fé: "Deus dos pobres e esquecidos me dê outro modo de vida. Não quero acabar os meus dias de vida na roça".
'Dona Maninha' com o sentimento materno aguçado, sentiu o lamento sofrido do primogênito e em lágrimas orou em silêncio, rogando a 'Deus' piedade e misericórdia. Naquela terra, não tinha a quem socorrer. Lembrou do 'Presidente da República Juscelino Kubistchek - JK', conhecido pela 'Voz do Brasil e o Repórter Esso'. Um homem simples, alegre e da 'bossa nova'. Iria construir Brasília e interiorizar o progresso do Brasil: "cinquenta anos em cinco". Com coragem e fé passou um telegrama para 'JK'. A comunicação do 'Barracão' à Capital do Brasil, era pelos fios da 'Leste', ditados pela linguagem do 'Código Morse'. Disse ela: "Doutor Juscelino Kubistchek, Presidente do Brasil. O meu filho mais velho José da Silva Cerqueira, conhece as primeiras letras e tem capacidade para o serviço de radioamador e telegrafista da Leste. Rogo por Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, esse emprego na Estação de Trem da Leste do Barracão. Respeitosamente, Maninha Cerqueira".
A mesma 'Leste' do seu marido. Os empregos eram raros e ocupados pelos afilhados políticos de 'Mangabinha', dos 'Valença', dos 'Mattos' e dos 'Moreiras'. Apegou-se também a 'Nossa Senhora do Livramento', padroeira do 'Barracão' e sua vizinha na 'Praça da Igreja'. Em preces de 'mãe para mãe', prometeu se o seu filho fosse empregado na 'Leste', seria batizado em 'Brasília' e o padrinho seria o 'Presidente JK'. Passado um ano, nenhuma notícia do 'Planalto Central', exceto a construção festejada da 'Capital do Brasil'.
Um dia, lá pelas quatro da tarde, bate à porta da casa, sempre aberta, uma voz conhecida, era o telegrafista, o filho de 'Seu Bião': "Dona Maninha, ttteeellleeegggrrraaammmaaa". Recebeu pelas trêmulas, bondosas e abençoadas mãos, tomou coragem, temendo o que diria o marido 'Zequinha', abriu delicadamente o telegrama, colado com goma de tapioca e leu em voz baixa e solitária: "Senhora Dona Maninha, comunico que o seu filho José da Silva Cerqueira, irá tomar posse em primeiro de outubro de 1957 como telegrafista da Leste de Barracão. Atenciosamente, Juscelino Kubistchek de Oliveira, Presidente da República Federativa do Brasil". Em choro, exclamou em voz alta: "milagre no Barracão". Encomendou uma missa de ação de graças em intenção de 'JK'. 'Dona Maninha' e 'JK' morreram. 'Zé de Jacilda' continua vivo, feliz, aposentado, casado e cantarolando no Barracão. Não foi batizado na 'Capital Federal', mas 'JK' continua sendo o seu padrinho pelo emprego arranjado. Renovam os pedidos, os padrinhos, as graças e os santos, mas os milagres continuam os mesmos.

* Manoel Moacir Costa Macêdo, Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra