Crack: droga que move o centro de Aracaju na calada da noite

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Durante a noite, o centro de Aracaju se transforma em palco para traficantes e viciados
Durante a noite, o centro de Aracaju se transforma em palco para traficantes e viciados

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Publicada em 06/10/2019 às 11:03:00

 

Milton Alves Júnior 
"Aos olhos da sociedade a gente é invisível. O Poder público não se preocupa com a gente, as pessoas que dão comida são raras; avaliar nossa saúde... é que não aparecem mesmo. Ser notado mesmo apenas por agentes da Guarda Municipal ou vez ou outra pela Polícia Militar. Ninguém aqui é abordado, a não ser para receber a oferta de drogas; 90% do nosso tempo vivemos no nosso mundo da alucinação. É esse mundo invertido que nos move". Aos 38 anos de idade, José Ricardo A. dos Santos, nascido e criado na zona Oeste de Aracaju, é apenas um soldado do exército de usuários de crack que em 2011 adotou as ruas do centro comercial da capital sergipana como seu lar.
Pai de uma criança hoje com 11 anos, e desempregado há uma década, na noite da última quinta-feira (3), ele aceitou conversar com o JORNAL DO DIA e se disse frustrado com a vida, bem como ter perdido a expectativa de largar o vício e reformular a própria vida. Consciente da pouca idade, José Ricardo - nome real - relatou que o mundo oferecido ao consumir este tipo de entorpecentes gera ao usuário sensação de liberdade; uma espécie de atenção interna, justamente no momento em que a sociedade e o poder público lhes dão as costas. Se considerando ex-integrante de uma família de classe média, ele disse ter implorado para ser conduzido para uma clínica de reabilitação. Fato que jamais aconteceu.
 "A gente vive do que o lixo dos mercados nos oferecem; do que grupos de solidariedade nos dão, na maioria dos casos sopas e pães de sal. Um jantar e tanto para quem não tem nada. A impressão que passa é que a cada novo dia de vida nós perdemos em média cinco ou dez dias se comparado com quem não usa essa droga que é o crack. Sei que ele é o causador de toda essa destruição na minha vida, e na vida de outras antas pessoas aqui comigo nas calçadas; o problema, ou a solução, é que apenas o crack é a nossa companhia fiel."
Número de viciados aumenta - A realidade vivenciada no coração econômico da capital sergipana também está presente no mapa das drogas ilícitas consumidas no país. Dados obtidos pelo 3° Levantamento estão disponíveis no Repositório Institucional da Fiocruz (Arca), mostram que, atualmente, pelo menos 1,8 milhão de pessoas entre 12 e 65 anos relatam ter feito uso de crack e similares alguma vez na vida, o que corresponde a 0,9% da população de pesquisa, com um diferencial pronunciado entre homens (1,4%) e mulheres (0,4%). Nos 12 meses anteriores ao levantamento, o uso dessa droga foi reportado por 0,3% da população.
Essa estatística pode ser ainda maior já que o relatório não consegue analisar de forma fiel os usuários que não se sentem à vontade para relatar publicamente o respectivo uso do entorpecente, não se encontram regularmente domiciliadas ou aqueles grupos de usuários os quais estão em situações especiais, como por exemplo acolhidos em abrigos, sentenciados em unidades socioeducativas ou prisionais. De acordo com a Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP/SE), paralelo à ações educativas realizadas pelo Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe e pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc), a Polícia Civil, por meio do Departamento de Narcóticos (Denarc), tem realizado um trabalho ostensivo no combate ao uso e tráfico do produto.
Rota da 'Cracolândia' -  Assim como ocorre ao longo dos últimos 15 anos - com maior intensidade de 2012 pra cá - basta transitar após às 19h pelas ruas José do Prado Franco, Santa Rosa, Florentino Menezes e Apulcro Mota, próximas aos mercados centrais de Aracaju, que não terá dificuldades em encontrar marquises de lojas e bancos de praças tomados por viciados em crack. O fluxo de zumbis cresce e domina a região com a aproximação e início das madrugadas. Ponto fixo de encontro não existe; já a região de maior aglomeração, sim. Nas imediações do atracadouro de embarcações pesqueiras, nos entornos do Mercado Albano Franco e nas proximidades da parada dos táxis lotação é possível se deparar com dezenas de usuários circulando em busca de um ponto sem fim.
 "Quem não usa, ou não vende, não vem aqui. Quem vem é corajoso ou não conhece o nosso meio de vida; você usa?", questionou a usuária Albertina Silva, de aproximadamente 28 anos, à equipe do JORNAL DO DIA. Com a negativa direcionada à resposta, ela completou: "então você é corajoso. A gente não bate em ninguém, a questão é que as pessoas acham que aqui é um campo minado, e é, mas a gente não é violento, só queremos fumar. Quando a gente vê uma pessoa como você, andando de carro por aqui, a gente acha que é alguém procurando parentes envolvidos nessa miséria de droga. Já experimentei outras [drogas], mas essa de longe é a pior."
No que se refere à avaliação feita por Albertina a respeito da intensidade do crack, estudos mostram que, quando inalado, o crack chega ao cérebro em dez segundos. A droga aumenta os níveis de dopamina, que dá a sensação de prazer e saciedade. No entanto, tais efeitos duram em média cinco minutos, o que leva o usuário a usar o crack muitas vezes em curtos períodos de tempo, tornando-se dependente. O baixo custo da pedra também se torna atraente aos usuários. Enquanto um papelote de cocaína custa em torno de R$ 20, uma pedra de crack que produz efeito mais representativo à mente do usuário sai em média por R$ 4.
 "Fumo pouco em comparação a outras pessoas por aqui, mesmo assim já perdi uns dez quilos, e pior do que isso, perdi minha alma. Dei muito trabalho a minha família e ela parece ter me abandonado. Tenho uma filha de cinco anos que não vejo pelo menos há três. Isso é doloroso, mas o crack ainda é mais forte e me domina", relatou Albertina Silva. Uma vez viciado, o cidadão perde, em média, entre oito e dez quilos por mês. Os dois personagens que toparam dialogar com o JD e relatar suas experiências de vida apresentavam condições mínimas de falar por possuir - segundo eles - mais de 1h30 pós consumo.
Acolhimento - Em junho deste ano, durante as atividades alusivas à Semana Nacional de Políticas sobre Drogas, a Prefeitura de Aracaju, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, reforçou que os Centros de Atendimento Psicossocial (Caps), têm trabalhado diariamente na perspectiva de acolher um maior número de viciados em drogas. A proposta é ofertar serviço de saúde 24 horas voltado para adultos - de ambos os sexos - que necessitam de cuidados, bem como desenvolver ações de conscientização sobre o uso de drogas, assim como também auxiliar nas políticas de tratamento de dependentes químicos. Paralelo ao trabalho desenvolvido nos Caps, existe ainda o Projeto de Redução de Danos que atua na prevenção ao uso de drogas no local da cena de uso.
Por ano, cerca de 1.300 usuários são atendidos nos serviços Caps Ad Primavera III, Caps Infanto Juvenil III e na UAA. Não se tem um número fixo de quantos pacientes acolhidos são usuários de crack.

Milton Alves Júnior 

"Aos olhos da sociedade a gente é invisível. O Poder público não se preocupa com a gente, as pessoas que dão comida são raras; avaliar nossa saúde... é que não aparecem mesmo. Ser notado mesmo apenas por agentes da Guarda Municipal ou vez ou outra pela Polícia Militar. Ninguém aqui é abordado, a não ser para receber a oferta de drogas; 90% do nosso tempo vivemos no nosso mundo da alucinação. É esse mundo invertido que nos move". Aos 38 anos de idade, José Ricardo A. dos Santos, nascido e criado na zona Oeste de Aracaju, é apenas um soldado do exército de usuários de crack que em 2011 adotou as ruas do centro comercial da capital sergipana como seu lar.
Pai de uma criança hoje com 11 anos, e desempregado há uma década, na noite da última quinta-feira (3), ele aceitou conversar com o JORNAL DO DIA e se disse frustrado com a vida, bem como ter perdido a expectativa de largar o vício e reformular a própria vida. Consciente da pouca idade, José Ricardo - nome real - relatou que o mundo oferecido ao consumir este tipo de entorpecentes gera ao usuário sensação de liberdade; uma espécie de atenção interna, justamente no momento em que a sociedade e o poder público lhes dão as costas. Se considerando ex-integrante de uma família de classe média, ele disse ter implorado para ser conduzido para uma clínica de reabilitação. Fato que jamais aconteceu.
 "A gente vive do que o lixo dos mercados nos oferecem; do que grupos de solidariedade nos dão, na maioria dos casos sopas e pães de sal. Um jantar e tanto para quem não tem nada. A impressão que passa é que a cada novo dia de vida nós perdemos em média cinco ou dez dias se comparado com quem não usa essa droga que é o crack. Sei que ele é o causador de toda essa destruição na minha vida, e na vida de outras antas pessoas aqui comigo nas calçadas; o problema, ou a solução, é que apenas o crack é a nossa companhia fiel."

Número de viciados aumenta - A realidade vivenciada no coração econômico da capital sergipana também está presente no mapa das drogas ilícitas consumidas no país. Dados obtidos pelo 3° Levantamento estão disponíveis no Repositório Institucional da Fiocruz (Arca), mostram que, atualmente, pelo menos 1,8 milhão de pessoas entre 12 e 65 anos relatam ter feito uso de crack e similares alguma vez na vida, o que corresponde a 0,9% da população de pesquisa, com um diferencial pronunciado entre homens (1,4%) e mulheres (0,4%). Nos 12 meses anteriores ao levantamento, o uso dessa droga foi reportado por 0,3% da população.
Essa estatística pode ser ainda maior já que o relatório não consegue analisar de forma fiel os usuários que não se sentem à vontade para relatar publicamente o respectivo uso do entorpecente, não se encontram regularmente domiciliadas ou aqueles grupos de usuários os quais estão em situações especiais, como por exemplo acolhidos em abrigos, sentenciados em unidades socioeducativas ou prisionais. De acordo com a Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP/SE), paralelo à ações educativas realizadas pelo Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe e pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc), a Polícia Civil, por meio do Departamento de Narcóticos (Denarc), tem realizado um trabalho ostensivo no combate ao uso e tráfico do produto.

Rota da 'Cracolândia' -  Assim como ocorre ao longo dos últimos 15 anos - com maior intensidade de 2012 pra cá - basta transitar após às 19h pelas ruas José do Prado Franco, Santa Rosa, Florentino Menezes e Apulcro Mota, próximas aos mercados centrais de Aracaju, que não terá dificuldades em encontrar marquises de lojas e bancos de praças tomados por viciados em crack. O fluxo de zumbis cresce e domina a região com a aproximação e início das madrugadas. Ponto fixo de encontro não existe; já a região de maior aglomeração, sim. Nas imediações do atracadouro de embarcações pesqueiras, nos entornos do Mercado Albano Franco e nas proximidades da parada dos táxis lotação é possível se deparar com dezenas de usuários circulando em busca de um ponto sem fim.
 "Quem não usa, ou não vende, não vem aqui. Quem vem é corajoso ou não conhece o nosso meio de vida; você usa?", questionou a usuária Albertina Silva, de aproximadamente 28 anos, à equipe do JORNAL DO DIA. Com a negativa direcionada à resposta, ela completou: "então você é corajoso. A gente não bate em ninguém, a questão é que as pessoas acham que aqui é um campo minado, e é, mas a gente não é violento, só queremos fumar. Quando a gente vê uma pessoa como você, andando de carro por aqui, a gente acha que é alguém procurando parentes envolvidos nessa miséria de droga. Já experimentei outras [drogas], mas essa de longe é a pior."
No que se refere à avaliação feita por Albertina a respeito da intensidade do crack, estudos mostram que, quando inalado, o crack chega ao cérebro em dez segundos. A droga aumenta os níveis de dopamina, que dá a sensação de prazer e saciedade. No entanto, tais efeitos duram em média cinco minutos, o que leva o usuário a usar o crack muitas vezes em curtos períodos de tempo, tornando-se dependente. O baixo custo da pedra também se torna atraente aos usuários. Enquanto um papelote de cocaína custa em torno de R$ 20, uma pedra de crack que produz efeito mais representativo à mente do usuário sai em média por R$ 4.
 "Fumo pouco em comparação a outras pessoas por aqui, mesmo assim já perdi uns dez quilos, e pior do que isso, perdi minha alma. Dei muito trabalho a minha família e ela parece ter me abandonado. Tenho uma filha de cinco anos que não vejo pelo menos há três. Isso é doloroso, mas o crack ainda é mais forte e me domina", relatou Albertina Silva. Uma vez viciado, o cidadão perde, em média, entre oito e dez quilos por mês. Os dois personagens que toparam dialogar com o JD e relatar suas experiências de vida apresentavam condições mínimas de falar por possuir - segundo eles - mais de 1h30 pós consumo.

Acolhimento - Em junho deste ano, durante as atividades alusivas à Semana Nacional de Políticas sobre Drogas, a Prefeitura de Aracaju, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, reforçou que os Centros de Atendimento Psicossocial (Caps), têm trabalhado diariamente na perspectiva de acolher um maior número de viciados em drogas. A proposta é ofertar serviço de saúde 24 horas voltado para adultos - de ambos os sexos - que necessitam de cuidados, bem como desenvolver ações de conscientização sobre o uso de drogas, assim como também auxiliar nas políticas de tratamento de dependentes químicos. Paralelo ao trabalho desenvolvido nos Caps, existe ainda o Projeto de Redução de Danos que atua na prevenção ao uso de drogas no local da cena de uso.
Por ano, cerca de 1.300 usuários são atendidos nos serviços Caps Ad Primavera III, Caps Infanto Juvenil III e na UAA. Não se tem um número fixo de quantos pacientes acolhidos são usuários de crack.