O homem que chora olhando o rio

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Publicada em 08/10/2019 às 22:03:00

 

* Antonio Passos
Ele nasceu em Itabaiana, na década de 1950, em um povoado - não especificou qual. Teve muitos irmãos e primos, a mãe está com mais de 90 anos e o pai faleceu faz pouco tempo. Todos esses parentes continuam morando em povoados de Itabaiana ou na sede daquele município. Lembra que na infância vivia vendendo lenha na cidade. Ele, os irmãos e os primos faziam aquele e outros serviços para ajudar os pais o colocar a comida na mesa.
Alguns poucos, entre toda aquela meninada, foram colocados na escola. Ele foi um desses. Muitos largaram o estudo ainda cedo e voltaram para o dia todo nas atividades da roça. Ele, nem sabe direito como, em meio a tantas adversidades, acabou chegando a um grupo escolar na sede do município. Concluiu o primário, depois o ginásio e o segundo grau… Aprendeu a acreditar na escola e se matriculou pra fazer vestibular.
Já perto de completar 30 anos de idade começou a estudar História na Universidade Federal de Sergipe… Se formou. Com o diploma na mão fez um concurso público e foi empossado professor da rede estadual de ensino. Uns vinte anos depois buscou mais uma formação. Fez um curso de Direito, o exame da ordem e se tornou advogado. Hoje é professor aposentado e mantém um escritório de advocacia no Edifício Oviêdo Teixeira.
As janelas do escritório dão para a Rua da Frente. De lá ele olha o leito do Rio Sergipe e sente a brisa ribeirinha que não para de soprar em nenhuma época do ano. Acompanha o subir e descer das águas, de acordo com o movimento da maré. Mais à frente a Barra dos Coqueiros. Olha para a direita e avista a Ponte do Imperador, a Atalaia Nova, as ondas do mar… Vira o olhar para a esquerda e lá está a ponte Aracaju-Barra…
Ele disse que toda vez que fica assim, parado, olhando a paisagem a partir desse ponto de vista conquistado, passa na memória sempre um mesmo filme que começa lá em Itabaiana. Lembra dele mesmo e das brincadeiras com os irmãos e as irmãs, com os primos e as primas… Recorda da luta do pai e da mãe, dos tios e das tias pela sobrevivência das famílias e se vê de novo andando pelas ruas oferecendo lenha…
Nesses momentos vem no peito uma comoção. Lembra que apenas algumas poucas crianças do povoado tiveram a chance de ir à escola e ele estava entre elas. Relembra o gosto que nasceu nele pelo estudo e a vontade de não largar mais a sala de aula. Depois, as muitas e muitas turmas de outros jovens dos quais ele foi professor… Nesses momentos, o homem chora porque se sente um vencedor e gostaria de compartilhar sua vitória com todo mundo. Assim, conta ele aos amigos.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Ele nasceu em Itabaiana, na década de 1950, em um povoado - não especificou qual. Teve muitos irmãos e primos, a mãe está com mais de 90 anos e o pai faleceu faz pouco tempo. Todos esses parentes continuam morando em povoados de Itabaiana ou na sede daquele município. Lembra que na infância vivia vendendo lenha na cidade. Ele, os irmãos e os primos faziam aquele e outros serviços para ajudar os pais o colocar a comida na mesa.
Alguns poucos, entre toda aquela meninada, foram colocados na escola. Ele foi um desses. Muitos largaram o estudo ainda cedo e voltaram para o dia todo nas atividades da roça. Ele, nem sabe direito como, em meio a tantas adversidades, acabou chegando a um grupo escolar na sede do município. Concluiu o primário, depois o ginásio e o segundo grau… Aprendeu a acreditar na escola e se matriculou pra fazer vestibular.
Já perto de completar 30 anos de idade começou a estudar História na Universidade Federal de Sergipe… Se formou. Com o diploma na mão fez um concurso público e foi empossado professor da rede estadual de ensino. Uns vinte anos depois buscou mais uma formação. Fez um curso de Direito, o exame da ordem e se tornou advogado. Hoje é professor aposentado e mantém um escritório de advocacia no Edifício Oviêdo Teixeira.
As janelas do escritório dão para a Rua da Frente. De lá ele olha o leito do Rio Sergipe e sente a brisa ribeirinha que não para de soprar em nenhuma época do ano. Acompanha o subir e descer das águas, de acordo com o movimento da maré. Mais à frente a Barra dos Coqueiros. Olha para a direita e avista a Ponte do Imperador, a Atalaia Nova, as ondas do mar… Vira o olhar para a esquerda e lá está a ponte Aracaju-Barra…
Ele disse que toda vez que fica assim, parado, olhando a paisagem a partir desse ponto de vista conquistado, passa na memória sempre um mesmo filme que começa lá em Itabaiana. Lembra dele mesmo e das brincadeiras com os irmãos e as irmãs, com os primos e as primas… Recorda da luta do pai e da mãe, dos tios e das tias pela sobrevivência das famílias e se vê de novo andando pelas ruas oferecendo lenha…
Nesses momentos vem no peito uma comoção. Lembra que apenas algumas poucas crianças do povoado tiveram a chance de ir à escola e ele estava entre elas. Relembra o gosto que nasceu nele pelo estudo e a vontade de não largar mais a sala de aula. Depois, as muitas e muitas turmas de outros jovens dos quais ele foi professor… Nesses momentos, o homem chora porque se sente um vencedor e gostaria de compartilhar sua vitória com todo mundo. Assim, conta ele aos amigos.

* Antonio Passos é jornalista