Teatro com o pé no chão

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Nem um milímetro de palco para a fantasia
Nem um milímetro de palco para a fantasia

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Publicada em 09/10/2019 às 00:35:00

 

Jornal do Dia - Você já me falou sobre o encontro feliz com Euler Lopes. Há carência de autores escrevendo para Teatro, em Sergipe?
Isabel Santos - Esse meu encontro com Euler Lopes em 2013, que culminou na criação e montagem do espetáculo Senhora dos Restos, foi um encontro muito feliz e tem rendido grandes frutos ao longo desses anos. Com Senhora dos Restos tivemos a oportunidade de participar de quase todos os festivais de teatro realizados no nordeste, fizemos as mostras, festivais e encontros em nosso estado, ganhamos vários prêmios de melhor espetáculo, melhor, atriz, melhor cenografia e indicação para tantos outros. Existe sim, uma carência muito grande de autores escrevendo na atualidade para o teatro em Sergipe, uma pena.
JD - É correto deduzir que há alguma espécie de elo entre Senhora dos restos e Piedade?
Isabel - Não acredito que exista alguma espécie de elo entre as duas obras a não ser o fato de serem duas mulheres. Quando recebi esse texto do Euler, umas das primeiras ideias que tive foi enviar esse material para diversas pessoas nas mais diversas áreas para que pudessem ler e opinar sobre a dramaturgia que pretendia encenar. Então pude contar com a colaboração de professores de teatro da UFS, diretoras e diretores de teatro, alunos, professores da rede estadual, atores e atrizes. Uns associavam de pronto um certo elo com Senhora dos Restos e outros não. Acredito que a narrativa e o fato de ser o mesmo autor e a marca da escrita do Euler Lopes carimbada nas duas obras contribuem muito para isso. Alguns perguntavam: qual a diferença que existe entre Senhora dos Restos e Piedade, a seu dispô? Eu sempre respondi que a primeira é uma idosa moradora de rua que para muitos aparece como "louca", mesmo sendo detentora de uma lucidez e sabedoria incalculáveis. Afinal, de perto ninguém é normal. A segunda é uma mulher de periferia, trabalhadora, mãe solteira, batalhadora, com moradia fixa, emprego e que luta para criar seus filhos com decência dentro de um sistema excludente.
JD - Mais um monólogo. Você não se assusta com a responsabilidade de assumir o palco sozinha?
Isabel - Rian, não me assusto. Fico apavorada mesmo! É uma responsabilidade muito grande e as pessoas tendem a cada vez mais lhe cobrar uma certa superação com relação aos seu trabalhos anteriores. Parece ser normal mas me deixa louca. Mas quem tá na chuva é pra se molhar, já dizia minha mãe.
JD - Você atua em Sergipe há um bom tempo. É possível comparar o cenário criativo da aldeia, antes e hoje? O ambiente cultural Serigy evoluiu, nesse intervalo?
Isabel - Comecei no teatro em 1977, no Colégio Arnaldo Dantas em Barra dos Coqueiros. De lá pra cá foram mais de 35 montagens e participação em diversos festivais dentro e fora do país. O ambiente cultural em diversos aspectos é bem diferente. A começar pelos espaços disponíveis para realização da cena com relação a ensaios e apresentações. Tínhamos teatros como o Atheneu, Juca Barreto, Maria Clara Machado, Lourival Baptista, Auditório da Biblioteca Pública. Uma das coisas que mais me encantam hoje com relação a produção dos nossos espetáculos são as possibilidades de divulgação que temos através das redes sociais. Quando comecei a fazer teatro, conseguia uma notinha ou outra em um jornal local e passava as madrugas colando cartazes no calçadão que para nossa tristeza, ao amanhece do dia estavam todos rasgados.
JD - Entre os grupos que atuam aqui e agora, algum merece a sua atenção?
Isabel - Há quatro grupos que têm uma luta diária muito grande e uma força que só nós sabemos de onde vem: Grupo Boca de Cena, A Tua Lona, Caixa Cênica e Grupo Imbuaça.
JD - A montagem de um espetáculo inédito é sempre um tiro no escuro. O que você espera comunicar com Piedade?
Isabel - E que tiro! O frio na espinha é constante, principalmente quando se aproxima o dia da estreia. Parece coisa de mãe na primeira gestação. O sono some, quando dorme sonha, quando sonha acorda, quando acorda pensa e quando pensa sempre acha uma coisa que precisa ser organizada, reorganizada, colocada de outra forma. Enfim, um caldeirão de emoções. Espero passar para as pessoas o dilema, o dia a dia, a luta, a batalha de uma mulher trabalhadora, mãe de família que quer ter seu lugar e direitos respeitados.

Isabel Santos é a maior atriz viva de Sergipe. Mas nem por isso se dá ao direito de tirar o pé do chão. Ao mudar de pele para viver mais um personagem criado sob medida pelo dramaturgo Euler Lopes, ela é tomada pela ansiedade própria de uma debutante, alterna insônia e suores noturnos, chega a sentir pavor. Isabel sabe melhor do que ninguém o quanto custa carregar um espetáculo nas costas.

Ela não é qualquer uma. A artista Isabel Santos foi moldada durante 40 anos de Teatro. E continua chutando. 'Senhora dos restos', o primeiro fruto do encontro com Euler, celebrado aqui em maus de uma oportunidade, rendeu prêmios e todos os aplausos. 'Piedade, a seu dispô', a nova empreitada da dupla, tem tudo para tomar o mesmo rumo.

O espetáculo não cede um milímetro à fantasia. Piedade, uma empregada doméstica, é abordada e interrogada no meio da noite, no trajeto de volta para casa. Cansada, após um dia inteiro de trabalho, ela devolve tamanha grosseria com a sua verdade.  Na narrativa de Piedade, ela expõe toda a luta para criar os filhos, educa-los e mantê-los vivos.

'Piedade, a seu dispô' estreia no próximo dia 10 de outubro, às 19 horas, no Museu da Gente Sergipana, dentro do Projeto Teatro no Museu. Depois, o espetáculo segue em breve temporada, nos dias 10, 17, 24 e 31 de outubro.

Jornal do Dia - Você já me falou sobre o encontro feliz com Euler Lopes. Há carência de autores escrevendo para Teatro, em Sergipe?

Isabel Santos - Esse meu encontro com Euler Lopes em 2013, que culminou na criação e montagem do espetáculo Senhora dos Restos, foi um encontro muito feliz e tem rendido grandes frutos ao longo desses anos. Com Senhora dos Restos tivemos a oportunidade de participar de quase todos os festivais de teatro realizados no nordeste, fizemos as mostras, festivais e encontros em nosso estado, ganhamos vários prêmios de melhor espetáculo, melhor, atriz, melhor cenografia e indicação para tantos outros. Existe sim, uma carência muito grande de autores escrevendo na atualidade para o teatro em Sergipe, uma pena.

JD - É correto deduzir que há alguma espécie de elo entre Senhora dos restos e Piedade?

Isabel - Não acredito que exista alguma espécie de elo entre as duas obras a não ser o fato de serem duas mulheres. Quando recebi esse texto do Euler, umas das primeiras ideias que tive foi enviar esse material para diversas pessoas nas mais diversas áreas para que pudessem ler e opinar sobre a dramaturgia que pretendia encenar. Então pude contar com a colaboração de professores de teatro da UFS, diretoras e diretores de teatro, alunos, professores da rede estadual, atores e atrizes. Uns associavam de pronto um certo elo com Senhora dos Restos e outros não. Acredito que a narrativa e o fato de ser o mesmo autor e a marca da escrita do Euler Lopes carimbada nas duas obras contribuem muito para isso. Alguns perguntavam: qual a diferença que existe entre Senhora dos Restos e Piedade, a seu dispô? Eu sempre respondi que a primeira é uma idosa moradora de rua que para muitos aparece como "louca", mesmo sendo detentora de uma lucidez e sabedoria incalculáveis. Afinal, de perto ninguém é normal. A segunda é uma mulher de periferia, trabalhadora, mãe solteira, batalhadora, com moradia fixa, emprego e que luta para criar seus filhos com decência dentro de um sistema excludente.

JD - Mais um monólogo. Você não se assusta com a responsabilidade de assumir o palco sozinha?

Isabel - Rian, não me assusto. Fico apavorada mesmo! É uma responsabilidade muito grande e as pessoas tendem a cada vez mais lhe cobrar uma certa superação com relação aos seu trabalhos anteriores. Parece ser normal mas me deixa louca. Mas quem tá na chuva é pra se molhar, já dizia minha mãe.

JD - Você atua em Sergipe há um bom tempo. É possível comparar o cenário criativo da aldeia, antes e hoje? O ambiente cultural Serigy evoluiu, nesse intervalo?

Isabel - Comecei no teatro em 1977, no Colégio Arnaldo Dantas em Barra dos Coqueiros. De lá pra cá foram mais de 35 montagens e participação em diversos festivais dentro e fora do país. O ambiente cultural em diversos aspectos é bem diferente. A começar pelos espaços disponíveis para realização da cena com relação a ensaios e apresentações. Tínhamos teatros como o Atheneu, Juca Barreto, Maria Clara Machado, Lourival Baptista, Auditório da Biblioteca Pública. Uma das coisas que mais me encantam hoje com relação a produção dos nossos espetáculos são as possibilidades de divulgação que temos através das redes sociais. Quando comecei a fazer teatro, conseguia uma notinha ou outra em um jornal local e passava as madrugas colando cartazes no calçadão que para nossa tristeza, ao amanhece do dia estavam todos rasgados.

JD - Entre os grupos que atuam aqui e agora, algum merece a sua atenção?

Isabel - Há quatro grupos que têm uma luta diária muito grande e uma força que só nós sabemos de onde vem: Grupo Boca de Cena, A Tua Lona, Caixa Cênica e Grupo Imbuaça.

JD - A montagem de um espetáculo inédito é sempre um tiro no escuro. O que você espera comunicar com Piedade?

Isabel - E que tiro! O frio na espinha é constante, principalmente quando se aproxima o dia da estreia. Parece coisa de mãe na primeira gestação. O sono some, quando dorme sonha, quando sonha acorda, quando acorda pensa e quando pensa sempre acha uma coisa que precisa ser organizada, reorganizada, colocada de outra forma. Enfim, um caldeirão de emoções. Espero passar para as pessoas o dilema, o dia a dia, a luta, a batalha de uma mulher trabalhadora, mãe de família que quer ter seu lugar e direitos respeitados.