Fracasso de Bolsonaro abreviará o período em que teremos de aguentá-lo

Opinião

 

* Marcos Coimbra
Aos olhos da quase totalidade da opinião pública internacional e da maioria da população brasileira, Bolsonaro não tem condições de presidir o Brasil. Pensa errado, faz errado, fala errado e acredita em coisas erradas, segundo o que pensam, fazem, falam e acreditam os cidadãos normais. Por que ainda está no poder?
Não é, com toda certeza, por respeito à regra de que a democracia padece quando as instituições estão em permanente convulsão, o que exige que sejam poupadas de choques e mudanças a toda hora. Bolsonaro ficaria porque a instabilidade provocada por sua saída seria pior do que suportá-lo.
Invocar esse argumento depois do que aconteceu com Dilma Rousseff é pura hipocrisia. Não nos esqueçamos de que ela estava no início de um mandato recém-conquistado nas urnas, quando, sem qualquer fato relevante, seu governo foi bloqueado no Congresso e teve início um processo de impeachment mal-ajambrado. Hoje, passados menos de três anos, as pesquisas mostram que apenas uma ínfima minoria consegue se lembrar de qual era a acusação e qual prova havia contra ela.
Entre Dilma e Lula, há algum paralelismo na fragilidade das acusações. Para condená-los, quem, no povo, os considera culpados, costuma utilizar-se de dois raciocínios. Por um lado, do esdrúxulo princípio da presunção da culpa: "Não sei exatamente o que fizeram, mas fala-se tanto que alguma coisa devem ter feito". De outro, da imagem de "conjunto da obra": não é por essa ou aquela acusação concreta, mas por algumas suposições inespecíficas (por isso mesmo, de comprovação impossível), em que se misturam delitos imaginados com antipatias e picuinhas.
E quanto a Bolsonaro, o conjunto de sua "obra" não é suficiente? Nos primeiros nove meses de governo, na avaliação de quem entende do assunto, não apenas perpetrou dezenas de atos que justificariam a abertura de processos de impeachment, como deixou claro que continuará a praticá-los. Fora para os malucos que acreditam nele, o capitão é o pior tipo de culpado, o que insiste em seus crimes.
Outro argumento para fazer vista grossa à sua evidente inadequação ao cargo é a "legitimidade das urnas". Ninguém discute que o respeito à manifestação dos eleitores é fundamental na democracia, o que significa aceitar o vencedor por mais deplorável que seja, mesmo depois que a maioria passa a querer vê-lo pelas costas.
Não é, contudo, o que sempre acontece no Brasil. De volta às analogias com Dilma, o questionamento da legitimidade de sua vitória em 2014, usando da tese de "estelionato eleitoral", chega a ser cômico em face das bandalheiras do bolsonarismo na eleição passada. A respeito da ex-presidenta, o máximo que se consegue dizer é que fez "promessas falsas" durante a campanha, pecado venial em nossa cultura política, cometido por dez entre dez candidatos ao Executivo.
Bolsonaro foi muito pior: ganhou a eleição na trapaça, abusando de ferramentas imorais e ilegais, e enganando uma parcela do eleitorado com o bombardeio de mentiras pelo WhatsApp. Na sua campanha, as (muitas) promessas falsas são café pequeno. Fez tanta coisa irregular que só seus cúmplices acham que o resultado é legítimo.
As pesquisas recentes também questionam a tese de que o bolsonarismo existe como expressão de um antipetismo amplo e disseminado em nossa sociedade, como se Bolsonaro fosse uma régua pela qual se mede a rejeição ao PT. A hipótese agrada a alguns que odeiam o partido (como os irmãos Marinho e seus funcionários), mas é falsa. As mesmas pesquisas mostram que o tamanho do antibolsonarismo superou (de longe) o do antipetismo.
Volta a pergunta: o que explica que Bolsonaro aí fique, apesar de tudo? Se não é por apreço à estabilidade institucional, se, em seu caso, a "legitimidade das urnas" é amplamente questionável, se exprime um sentimento minoritário e se, além disso, é um presidente de péssima qualidade, por que permanece no cargo?
O que dá sobrevida a Bolsonaro não é a minoria na sociedade que efetivamente gosta dele e o apoia, mas, por enquanto, a tolerância de alguns. Na opinião pública, daqueles que acham que é cedo para despachá-lo e, no empresariado, dos que lhe dão apoio pragmático, que persiste enquanto mantêm a expectativa de lucrar e cessará quando se convencerem de que não se concretizará.
Sua turma de coração é pequena e diminui a cada dia: os radicais amalucados do bolsonarismo (alguns no Congresso), os lavajatistas no sistema de Justiça (mesmo desmoralizados pela Vaza Jato), alguns generais (quase todos aposentados), a velha mídia. Fora esses, há os oportunistas de plantão, os primeiros que abandonam o navio.
É pouco para quem quer durar muito. E quatro anos é tempo demais para que alguém como ele sobreviva. O fracasso administrativo do governo vai abreviar o período em que seremos obrigados a aguentá-lo.
* Marcos Coimbra, sociólogo, é diretor do instituto Vox Populi

* Marcos Coimbra

Aos olhos da quase totalidade da opinião pública internacional e da maioria da população brasileira, Bolsonaro não tem condições de presidir o Brasil. Pensa errado, faz errado, fala errado e acredita em coisas erradas, segundo o que pensam, fazem, falam e acreditam os cidadãos normais. Por que ainda está no poder?
Não é, com toda certeza, por respeito à regra de que a democracia padece quando as instituições estão em permanente convulsão, o que exige que sejam poupadas de choques e mudanças a toda hora. Bolsonaro ficaria porque a instabilidade provocada por sua saída seria pior do que suportá-lo.
Invocar esse argumento depois do que aconteceu com Dilma Rousseff é pura hipocrisia. Não nos esqueçamos de que ela estava no início de um mandato recém-conquistado nas urnas, quando, sem qualquer fato relevante, seu governo foi bloqueado no Congresso e teve início um processo de impeachment mal-ajambrado. Hoje, passados menos de três anos, as pesquisas mostram que apenas uma ínfima minoria consegue se lembrar de qual era a acusação e qual prova havia contra ela.
Entre Dilma e Lula, há algum paralelismo na fragilidade das acusações. Para condená-los, quem, no povo, os considera culpados, costuma utilizar-se de dois raciocínios. Por um lado, do esdrúxulo princípio da presunção da culpa: "Não sei exatamente o que fizeram, mas fala-se tanto que alguma coisa devem ter feito". De outro, da imagem de "conjunto da obra": não é por essa ou aquela acusação concreta, mas por algumas suposições inespecíficas (por isso mesmo, de comprovação impossível), em que se misturam delitos imaginados com antipatias e picuinhas.
E quanto a Bolsonaro, o conjunto de sua "obra" não é suficiente? Nos primeiros nove meses de governo, na avaliação de quem entende do assunto, não apenas perpetrou dezenas de atos que justificariam a abertura de processos de impeachment, como deixou claro que continuará a praticá-los. Fora para os malucos que acreditam nele, o capitão é o pior tipo de culpado, o que insiste em seus crimes.
Outro argumento para fazer vista grossa à sua evidente inadequação ao cargo é a "legitimidade das urnas". Ninguém discute que o respeito à manifestação dos eleitores é fundamental na democracia, o que significa aceitar o vencedor por mais deplorável que seja, mesmo depois que a maioria passa a querer vê-lo pelas costas.
Não é, contudo, o que sempre acontece no Brasil. De volta às analogias com Dilma, o questionamento da legitimidade de sua vitória em 2014, usando da tese de "estelionato eleitoral", chega a ser cômico em face das bandalheiras do bolsonarismo na eleição passada. A respeito da ex-presidenta, o máximo que se consegue dizer é que fez "promessas falsas" durante a campanha, pecado venial em nossa cultura política, cometido por dez entre dez candidatos ao Executivo.
Bolsonaro foi muito pior: ganhou a eleição na trapaça, abusando de ferramentas imorais e ilegais, e enganando uma parcela do eleitorado com o bombardeio de mentiras pelo WhatsApp. Na sua campanha, as (muitas) promessas falsas são café pequeno. Fez tanta coisa irregular que só seus cúmplices acham que o resultado é legítimo.
As pesquisas recentes também questionam a tese de que o bolsonarismo existe como expressão de um antipetismo amplo e disseminado em nossa sociedade, como se Bolsonaro fosse uma régua pela qual se mede a rejeição ao PT. A hipótese agrada a alguns que odeiam o partido (como os irmãos Marinho e seus funcionários), mas é falsa. As mesmas pesquisas mostram que o tamanho do antibolsonarismo superou (de longe) o do antipetismo.
Volta a pergunta: o que explica que Bolsonaro aí fique, apesar de tudo? Se não é por apreço à estabilidade institucional, se, em seu caso, a "legitimidade das urnas" é amplamente questionável, se exprime um sentimento minoritário e se, além disso, é um presidente de péssima qualidade, por que permanece no cargo?
O que dá sobrevida a Bolsonaro não é a minoria na sociedade que efetivamente gosta dele e o apoia, mas, por enquanto, a tolerância de alguns. Na opinião pública, daqueles que acham que é cedo para despachá-lo e, no empresariado, dos que lhe dão apoio pragmático, que persiste enquanto mantêm a expectativa de lucrar e cessará quando se convencerem de que não se concretizará.
Sua turma de coração é pequena e diminui a cada dia: os radicais amalucados do bolsonarismo (alguns no Congresso), os lavajatistas no sistema de Justiça (mesmo desmoralizados pela Vaza Jato), alguns generais (quase todos aposentados), a velha mídia. Fora esses, há os oportunistas de plantão, os primeiros que abandonam o navio.
É pouco para quem quer durar muito. E quatro anos é tempo demais para que alguém como ele sobreviva. O fracasso administrativo do governo vai abreviar o período em que seremos obrigados a aguentá-lo.

* Marcos Coimbra, sociólogo, é diretor do instituto Vox Populi

 


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