Medo e comodismo na era do streaming

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O malandro otário Jesse Pinkman cumpre o próprio destino
O malandro otário Jesse Pinkman cumpre o próprio destino

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Publicada em 17/10/2019 às 23:48:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br 
O medo nunca deu conselho de serventia pra nada, eis uma verdade ignorada por toda a gente em aperto. Fechado entre quatro paredes, gato ocupado com novelo de fibra ótica, o sujeito hodierno assume pra si um único risco, o de trocar a vida em dados de streaming.
Os cativos da bolha talvez não tenham se dado conta, mas 'Breaking bad', disponível para fruição imediata em todo tipo de tela, completou dez anos, firme e forte. A série da Netflix provocou um impacto tão grande, a ponto de merecer agora um tardio capítulo final: o filme recém lançado 'El Camino' retoma o fio da meada para elucidar o destino do malandro otário Jesse Pinkman. 
Nada contra. O filme vale muito a pena. Mas, enquanto isso, o Cine Vitória - desde sempre mendigo de atenção, coitado -, mantém as portas abertas por força exclusiva da mais obstinada resiliência, sabe Deus até quando. Para alguns, os que teimam de pé, a simples existência é um feito heróico, desesperado.
Também pudera. Fulano não pode mais sair de casa, doente de pânico. Cicrano não vai ao centro, com receio de assalto. A humanidade se transforma, pouco a pouco, numa sociedade de confinados. Outro dia, uma amiga confessou, sem um pingo de constrangimento: tomaria, de bom grado, um avatar por namorado.
Estranho entre os seus próprios, educado para a desconfiança, o homem lobo do homem perdeu o senso de comunidade. A mesa preferida no boteco, a fila na padaria, o pôr do sol mais bonito de uma cidade, perigam virar recordação dos mais velhos, história da carochinha, passatempo dos nostálgicos.
Esse é o nosso mundo, informação e fluxo. Ruas, pontes e overdrives, a verdade da pele, já não comove.

O medo nunca deu conselho de serventia pra nada, eis uma verdade ignorada por toda a gente em aperto. Fechado entre quatro paredes, gato ocupado com novelo de fibra ótica, o sujeito hodierno assume pra si um único risco, o de trocar a vida em dados de streaming.
Os cativos da bolha talvez não tenham se dado conta, mas 'Breaking bad', disponível para fruição imediata em todo tipo de tela, completou dez anos, firme e forte. A série da Netflix provocou um impacto tão grande, a ponto de merecer agora um tardio capítulo final: o filme recém lançado 'El Camino' retoma o fio da meada para elucidar o destino do malandro otário Jesse Pinkman. 
Nada contra. O filme vale muito a pena. Mas, enquanto isso, o Cine Vitória - desde sempre mendigo de atenção, coitado -, mantém as portas abertas por força exclusiva da mais obstinada resiliência, sabe Deus até quando. Para alguns, os que teimam de pé, a simples existência é um feito heróico, desesperado.
Também pudera. Fulano não pode mais sair de casa, doente de pânico. Cicrano não vai ao centro, com receio de assalto. A humanidade se transforma, pouco a pouco, numa sociedade de confinados. Outro dia, uma amiga confessou, sem um pingo de constrangimento: tomaria, de bom grado, um avatar por namorado.
Estranho entre os seus próprios, educado para a desconfiança, o homem lobo do homem perdeu o senso de comunidade. A mesa preferida no boteco, a fila na padaria, o pôr do sol mais bonito de uma cidade, perigam virar recordação dos mais velhos, história da carochinha, passatempo dos nostálgicos.
Esse é o nosso mundo, informação e fluxo. Ruas, pontes e overdrives, a verdade da pele, já não comove.