Minha mãe foi ali

Opinião

 

*Rangel Alves da Costa
Alguém já disse que o amor pela mãe é sempre mais reconhecido quando a mesma já não está ao lado do seu. E talvez com plena razão. A mãe presente, bem ao lado ou logo perto, ou mesmo na distância, e o filho como se fosse postergando a demonstração de um amor sentido. Então, no dia que ela parte em adeus, eis que o mundo parece revirar e a saudade se eterniza como ferro abrasado no peito.
Toda mãe deve ser amada agora, no instante passado e no seguinte. E assim porque toda mãe ama seu filho, no seu jeito próprio de amar, mas com sentimento verdadeiro. E quando o filho demonstra carinho, afeito, cuidado e atenção, em gestos que nunca se desapartam do ventre materno, logo a mãe sente por dentro o orgulho bom de sua criação. E também a certeza que não gestou nem criou o seu para o mundo nem para o mundo do esquecimento.
Amor de filho que será sempre retribuição. Afeto de filho que reconhece o esforço de uma vida em nome da sua. Jamais desamparar, esquecer, pois. Jamais se achar adulto demais que não deseje mais um colo, mais um cafuné e até um conselho de vez em quando. Muitas delas estão por aí orando pelos seus, lavando e passando, preparando o alimento, recebendo o abraço de um ou de outro que chega. São muitas situações que elas podem estar vivendo agora, ainda que nesse dia lhes coubessem o repouso e o reconhecimento pela dádiva de existirem.
Muitas mães que estão por aí, contudo, nem sequer lembradas pelos seus filhos. Infelizmente muitos destes espelham a letra da música de Erasmo que, ligeiramente transformada, diz assim: Ei mãe, não sou mais menino. Não é justo que também queira parir meu destino. Você já fez a sua parte me pondo no mundo. Agora sou o meu dono mãe e nos meus planos não está você...
Filhos ingratos existem sim, mas sobre mãe ingrata preciso acreditar. Ainda nesse dia - e em todos os dias -, mesmo esquecidas que sejam pela sua prole, não será difícil encontrá-las ajoelhadas diante da imagem sacra e rogando pela família, pedindo proteção para os seus, entabulando murmúrios que somente os santos podem decifrar.
Mulheres fortes na fragilidade da vida, mães sertanejas, matutas, caboclas, senhoras de tez recortada pelo tempo e cabelos esbranquiçados pelo pó dos dias infindos. Mães envelhecidas, encurvadas, de passos lentos e olhos embaçados. Ou mães jovens, na flor da idade, ainda mocinhas que escolheram a maternidade cumprindo o desígnio da procriação.
Todas elas e de qualquer matiz. Todo credo e toda condição de existência e subsistência, seja ainda jovem ou já se tornando criança novamente, serão as mesmas mães perante os filhos que nelas puderem enxergar a razão maior de estarem presentes neste mundo e trazendo consigo o caderno moral com as tantas lições recebidas.
Ora, que ninguém se esqueça dos dissabores de uma gravidez, de mês após mês numa eternidade, das dores do parto, das noites insones, do seio adoçado para a boca faminta, dos chás e remédios caseiros, dos temores pela vida afora. A criança chorando e a mão embalando o berço, a cantiga de ninar ecoando pela janela, o bicho-papão fugindo com medo do amor de mãe.
Todas as mães merecem o justo reconhecimento pela vida inteira. Contudo, filhos existem que nem no dia dedicado às mães lembram suas existências. Talvez por isso mesmo tenham anunciado o segundo domingo de maio como o seu dia para que os filhos possam se redimir de suas ausências e, ao procurá-las para um simples gesto, poder renovar a aliança que jamais deixou de existir.
Que bom que os filhos possam encontrar, reencontrar, vivenciar suas mães hoje e sempre. Uns levam à mão uma flor, outros um presente embrulhado, e ainda outros vão carregados de abraços, sorrisos e doces palavras. Mas para a mãe nada disso soa mais importante do que a própria presença do filho. É o senti-lo que lhe enche de seiva de vida e contentamento.
Mas nesse dia, como já faço desde mais de três anos, irei encontrar minha mãe de um modo diferente. Na saudade, na lembrança, na recordação, na sensação de estar na sua presença. Naquele 23 de junho de 2009 ela ouviu o chamado de Deus e foi. Ela não está mais aqui porque foi ali. 
Minha mãe foi ali e fiquei esperando o seu retorno. Mas o tempo foi passando e ela não veio. Meu pai foi ao seu encontro e sei que um dia também partirei. Avisto o caminho e reconheço a estrada. Tenho que aprender na vida o caminho por onde terei de seguir. E ao reencontrá-la, um dia, entregarei o presente que tenho guardado ao longo desses anos.
A joia da honra, minha mãe. A preciosa joia da honra, do caráter, da dignidade. Esse presente mais precioso que possa existir num filho teu.
*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Alguém já disse que o amor pela mãe é sempre mais reconhecido quando a mesma já não está ao lado do seu. E talvez com plena razão. A mãe presente, bem ao lado ou logo perto, ou mesmo na distância, e o filho como se fosse postergando a demonstração de um amor sentido. Então, no dia que ela parte em adeus, eis que o mundo parece revirar e a saudade se eterniza como ferro abrasado no peito.
Toda mãe deve ser amada agora, no instante passado e no seguinte. E assim porque toda mãe ama seu filho, no seu jeito próprio de amar, mas com sentimento verdadeiro. E quando o filho demonstra carinho, afeito, cuidado e atenção, em gestos que nunca se desapartam do ventre materno, logo a mãe sente por dentro o orgulho bom de sua criação. E também a certeza que não gestou nem criou o seu para o mundo nem para o mundo do esquecimento.
Amor de filho que será sempre retribuição. Afeto de filho que reconhece o esforço de uma vida em nome da sua. Jamais desamparar, esquecer, pois. Jamais se achar adulto demais que não deseje mais um colo, mais um cafuné e até um conselho de vez em quando. Muitas delas estão por aí orando pelos seus, lavando e passando, preparando o alimento, recebendo o abraço de um ou de outro que chega. São muitas situações que elas podem estar vivendo agora, ainda que nesse dia lhes coubessem o repouso e o reconhecimento pela dádiva de existirem.
Muitas mães que estão por aí, contudo, nem sequer lembradas pelos seus filhos. Infelizmente muitos destes espelham a letra da música de Erasmo que, ligeiramente transformada, diz assim: Ei mãe, não sou mais menino. Não é justo que também queira parir meu destino. Você já fez a sua parte me pondo no mundo. Agora sou o meu dono mãe e nos meus planos não está você...
Filhos ingratos existem sim, mas sobre mãe ingrata preciso acreditar. Ainda nesse dia - e em todos os dias -, mesmo esquecidas que sejam pela sua prole, não será difícil encontrá-las ajoelhadas diante da imagem sacra e rogando pela família, pedindo proteção para os seus, entabulando murmúrios que somente os santos podem decifrar.
Mulheres fortes na fragilidade da vida, mães sertanejas, matutas, caboclas, senhoras de tez recortada pelo tempo e cabelos esbranquiçados pelo pó dos dias infindos. Mães envelhecidas, encurvadas, de passos lentos e olhos embaçados. Ou mães jovens, na flor da idade, ainda mocinhas que escolheram a maternidade cumprindo o desígnio da procriação.
Todas elas e de qualquer matiz. Todo credo e toda condição de existência e subsistência, seja ainda jovem ou já se tornando criança novamente, serão as mesmas mães perante os filhos que nelas puderem enxergar a razão maior de estarem presentes neste mundo e trazendo consigo o caderno moral com as tantas lições recebidas.
Ora, que ninguém se esqueça dos dissabores de uma gravidez, de mês após mês numa eternidade, das dores do parto, das noites insones, do seio adoçado para a boca faminta, dos chás e remédios caseiros, dos temores pela vida afora. A criança chorando e a mão embalando o berço, a cantiga de ninar ecoando pela janela, o bicho-papão fugindo com medo do amor de mãe.
Todas as mães merecem o justo reconhecimento pela vida inteira. Contudo, filhos existem que nem no dia dedicado às mães lembram suas existências. Talvez por isso mesmo tenham anunciado o segundo domingo de maio como o seu dia para que os filhos possam se redimir de suas ausências e, ao procurá-las para um simples gesto, poder renovar a aliança que jamais deixou de existir.
Que bom que os filhos possam encontrar, reencontrar, vivenciar suas mães hoje e sempre. Uns levam à mão uma flor, outros um presente embrulhado, e ainda outros vão carregados de abraços, sorrisos e doces palavras. Mas para a mãe nada disso soa mais importante do que a própria presença do filho. É o senti-lo que lhe enche de seiva de vida e contentamento.
Mas nesse dia, como já faço desde mais de três anos, irei encontrar minha mãe de um modo diferente. Na saudade, na lembrança, na recordação, na sensação de estar na sua presença. Naquele 23 de junho de 2009 ela ouviu o chamado de Deus e foi. Ela não está mais aqui porque foi ali. 
Minha mãe foi ali e fiquei esperando o seu retorno. Mas o tempo foi passando e ela não veio. Meu pai foi ao seu encontro e sei que um dia também partirei. Avisto o caminho e reconheço a estrada. Tenho que aprender na vida o caminho por onde terei de seguir. E ao reencontrá-la, um dia, entregarei o presente que tenho guardado ao longo desses anos.
A joia da honra, minha mãe. A preciosa joia da honra, do caráter, da dignidade. Esse presente mais precioso que possa existir num filho teu.

*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com

 


COMPARTILHAR NAS REDES SOCIAIS