Brexit: outro amigo de Bolsonaro tropeça

Opinião

 

* Emir Sader
O clima no sábado em todo o entorno de Westminster, o Parlamento britânico, era impressionante. Apesar da presença de um que outro adepto da saída da União Europeia, centenas de milhares de pessoas de todas as idades e origens cercaram o Parlamento, quando o primeiro ministro Boris Johnson jogava sua cartada decisiva.
Um Parlamento que não se reunia aos sábados desde a gravíssima situação da guerra das Malvinas, entrou em sessão para decidir sobre o acordo surpreendentemente conseguido pelo primeiro-ministro britânico com os 27 governos da União Europeia. Em pânico com a ameaça de saída sem acordo da parte de Londres, os governos europeus cederam em tudo o que puderam, para um divórcio mais ou menos ordenado.
Boris - como é chamado o carismático governante britânico - contava com as deserções do Partido Trabalhista para conseguir a aprovação do Brexit. Já na aprovação inicial, uma dissidência do Labour tinha votado com o governo, composta por trabalhadores do interior do pais, que se sentiam abandonados pelo seu partido, em condições sociais e de emprego muito pior que os da capital; aceitaram o argumento da direita que isso se devia à chegada desordenada e maciça de imigrantes. Isto representava uma certa quantidade de deputados trabalhistas a favor do Brexit.
Mas, ao mesmo tempo, Boris perdeu a unanimidade dentro do Partido Conservador, o que acabou sendo decisivo, junto com os votos dos escoceses e dos irlandeses, para impedir que ele conseguisse a aprovação da saída da União Europeia. Uma euforia atípica em um povo que se manifestava de forma praticamente silenciosa, com quase nenhuma música e bandeiras britânicas e da União Europeia, se impôs durante um tempo. Havia valido a pena a mobilização que pretendeu repetir a cifra de um milhão de pessoas e que ficou perto dela.
A virada conservadora da segunda década do novo século teve na inesperada vitoria do Brexit um dos seus componentes essenciais. Junto com a eleição de Trump, as duas cabeças do bloco imperialista, há mais de um século, se retiravam ou marcavam distância da globalização neoliberal que eles mesmos haviam conduzido na sua implementação, instaurando um clima conservador no mundo. Um movimento que era acompanhado pela eleição de um governo de extrema-direita na Itália que, junto aos da Hungria e da Polônia, instaurava um polo de extrema direita na Europa.
A vitoria de Macri na Argentina, de Bolsonaro no Brasil e a virada para a direita do governo de Moreno no Equador completavam esse quadro, justo na única região que havia tido um conjunto de governos antineoliberais no mundo. Governos como os do México e de Portugal destoavam desse movimento conservador, que marcou a segunda década do século XXI.
No entanto, a restauração conservadora passou a mostrar flancos débeis e enfraquecimento, com a defensiva de Trump diante do pedido de impechachment e o favoritismo que os candidatos democratas passaram a ter para as eleições do ano que vem, a derrota do governo de Salvini na Itália, assim como a derrota da extrema-direita da Hungria nas eleições municipais. Ao mesmo tempo, as dificuldade e a perda de maioria no Parlamento britânico pelos conservadores, junto com a espetacular derrota de Macri, confirmavam que a onda direitista encontrava limites. A passagem do capitalismo internacional a uma nova conjuntura recessiva, similar à de 2008, consolida um clima de crise para governos na Europa e nos EUA.
Boris não se resigna, tenta outra votação no Parlamento, reafirma que de qualquer maneira a Grã-Bretanha sairá do Brexit, voltando a acenar com o fantasma da saída selvagem da União Europeia, apesar da decisão do Parlamento de que o prazo de 31 de outubro tem que ser prorrogado até janeiro para que todas a providências legais sejam aprovadas no Parlamento. 
A jornada de sábado prevê ou uma nova votação do Brexit ou até mesmo uma nova eleição, em que o governo de Boris estará em questão. Este conta com a falta de unidade interna dos trabalhistas. Mas o fato é que a Grã-Bretanha vive agora uma situação de incerteza e instabilidade. Mais um aliado de Bolsonaro questionado e na corda bamba.
* Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

Uma euforia atípica em um povo que se manifestava de forma praticamente silenciosa, com quase nenhuma música e bandeiras britânicas e da União Europeia, se impôs durante um tempo

* Emir Sader

O clima no sábado em todo o entorno de Westminster, o Parlamento britânico, era impressionante. Apesar da presença de um que outro adepto da saída da União Europeia, centenas de milhares de pessoas de todas as idades e origens cercaram o Parlamento, quando o primeiro ministro Boris Johnson jogava sua cartada decisiva.
Um Parlamento que não se reunia aos sábados desde a gravíssima situação da guerra das Malvinas, entrou em sessão para decidir sobre o acordo surpreendentemente conseguido pelo primeiro-ministro britânico com os 27 governos da União Europeia. Em pânico com a ameaça de saída sem acordo da parte de Londres, os governos europeus cederam em tudo o que puderam, para um divórcio mais ou menos ordenado.
Boris - como é chamado o carismático governante britânico - contava com as deserções do Partido Trabalhista para conseguir a aprovação do Brexit. Já na aprovação inicial, uma dissidência do Labour tinha votado com o governo, composta por trabalhadores do interior do pais, que se sentiam abandonados pelo seu partido, em condições sociais e de emprego muito pior que os da capital; aceitaram o argumento da direita que isso se devia à chegada desordenada e maciça de imigrantes. Isto representava uma certa quantidade de deputados trabalhistas a favor do Brexit.
Mas, ao mesmo tempo, Boris perdeu a unanimidade dentro do Partido Conservador, o que acabou sendo decisivo, junto com os votos dos escoceses e dos irlandeses, para impedir que ele conseguisse a aprovação da saída da União Europeia. Uma euforia atípica em um povo que se manifestava de forma praticamente silenciosa, com quase nenhuma música e bandeiras britânicas e da União Europeia, se impôs durante um tempo. Havia valido a pena a mobilização que pretendeu repetir a cifra de um milhão de pessoas e que ficou perto dela.
A virada conservadora da segunda década do novo século teve na inesperada vitoria do Brexit um dos seus componentes essenciais. Junto com a eleição de Trump, as duas cabeças do bloco imperialista, há mais de um século, se retiravam ou marcavam distância da globalização neoliberal que eles mesmos haviam conduzido na sua implementação, instaurando um clima conservador no mundo. Um movimento que era acompanhado pela eleição de um governo de extrema-direita na Itália que, junto aos da Hungria e da Polônia, instaurava um polo de extrema direita na Europa.
A vitoria de Macri na Argentina, de Bolsonaro no Brasil e a virada para a direita do governo de Moreno no Equador completavam esse quadro, justo na única região que havia tido um conjunto de governos antineoliberais no mundo. Governos como os do México e de Portugal destoavam desse movimento conservador, que marcou a segunda década do século XXI.
No entanto, a restauração conservadora passou a mostrar flancos débeis e enfraquecimento, com a defensiva de Trump diante do pedido de impechachment e o favoritismo que os candidatos democratas passaram a ter para as eleições do ano que vem, a derrota do governo de Salvini na Itália, assim como a derrota da extrema-direita da Hungria nas eleições municipais. Ao mesmo tempo, as dificuldade e a perda de maioria no Parlamento britânico pelos conservadores, junto com a espetacular derrota de Macri, confirmavam que a onda direitista encontrava limites. A passagem do capitalismo internacional a uma nova conjuntura recessiva, similar à de 2008, consolida um clima de crise para governos na Europa e nos EUA.
Boris não se resigna, tenta outra votação no Parlamento, reafirma que de qualquer maneira a Grã-Bretanha sairá do Brexit, voltando a acenar com o fantasma da saída selvagem da União Europeia, apesar da decisão do Parlamento de que o prazo de 31 de outubro tem que ser prorrogado até janeiro para que todas a providências legais sejam aprovadas no Parlamento. 
A jornada de sábado prevê ou uma nova votação do Brexit ou até mesmo uma nova eleição, em que o governo de Boris estará em questão. Este conta com a falta de unidade interna dos trabalhistas. Mas o fato é que a Grã-Bretanha vive agora uma situação de incerteza e instabilidade. Mais um aliado de Bolsonaro questionado e na corda bamba.

* Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

 


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