Confissões da meia idade

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto
Fosse publicado hoje, o autor apanhava no meio da rua
Fosse publicado hoje, o autor apanhava no meio da rua

Clique nas imagens para ampliar

Publicada em 22/10/2019 às 06:47:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Ariosto Augusto de 
Oliveira é um jorna
lista de meia idade, chegado ao copo e às mulheres, igual a todos em sua volta. Dirige um Fusca velho. Cita versos batidos, sem propósito. Detesta Roberto Carlos com todas as forças.
Eis o homem, em poucas linhas. Tão breves quanto os contos reunidos em 'Caradura' (1987). Trata-se de um documento legado por outro mundo, fruto de outro tempo. Fosse publicado hoje, o autor apanhava no meio da rua. 
Escandaloso, o volume que tenho em mãos pertence ao amigo Luciano Correia, o subversivo, cuja biblioteca pode ser definida como um asilo de outsiders. Em vizinhança tão barra pesada, Pedro Juan Gutiérrez se passa por um senhor respeitável. Reinaldo Moraes é síndico de prédio. Bukowski joga dominó na praça. 
Eu não sei qual espécie Literatura ficará dos dias correntes. Mas tenho um pé atrás com a sanha higienista dos movimentos identitários. Impossível ler Ariosto, hoje, sem corar de constrangimento pelo sexismo orgulhoso de seus mini contos. E, no entanto, a sua prosa rasa ainda diverte.
O único pecado literário de Ariosto  foi o de viver em seu próprio meio, em seu próprio tempo, o mesmo crime atribuído a Monteiro Lobato. Felizmente, aos trancos e barrancos, a Cultura evolui. Um passo à frente, dois passos para trás. Já não se admite, por exemplo, piadas de cunho racista e homofóbico. Mas a leitura crítica das páginas preservadas ao longo dos anos não autoriza ninguém a queimar fogueiras de livros, numa inquisição branca promovida pelo lado certo da História.
Outro dia, sob o pretexto de alguma implicação entre jornalismo e tecnologia, Luciano Correia se dava conta de pertencer a uma geração outra, quando a força da televisão se impunha, para o bem e para o mal, incontestável. Eu, de minha parte, morro de rir com as aventuras bestas de Ariosto e sinto que estou com os dias contados.

Ariosto Augusto de  Oliveira é um jorna lista de meia idade, chegado ao copo e às mulheres, igual a todos em sua volta. Dirige um Fusca velho. Cita versos batidos, sem propósito. Detesta Roberto Carlos com todas as forças.
Eis o homem, em poucas linhas. Tão breves quanto os contos reunidos em 'Caradura' (1987). Trata-se de um documento legado por outro mundo, fruto de outro tempo. Fosse publicado hoje, o autor apanhava no meio da rua. 
Escandaloso, o volume que tenho em mãos pertence ao amigo Luciano Correia, o subversivo, cuja biblioteca pode ser definida como um asilo de outsiders. Em vizinhança tão barra pesada, Pedro Juan Gutiérrez se passa por um senhor respeitável. Reinaldo Moraes é síndico de prédio. Bukowski joga dominó na praça. 
Eu não sei qual espécie Literatura ficará dos dias correntes. Mas tenho um pé atrás com a sanha higienista dos movimentos identitários. Impossível ler Ariosto, hoje, sem corar de constrangimento pelo sexismo orgulhoso de seus mini contos. E, no entanto, a sua prosa rasa ainda diverte.
O único pecado literário de Ariosto  foi o de viver em seu próprio meio, em seu próprio tempo, o mesmo crime atribuído a Monteiro Lobato. Felizmente, aos trancos e barrancos, a Cultura evolui. Um passo à frente, dois passos para trás. Já não se admite, por exemplo, piadas de cunho racista e homofóbico. Mas a leitura crítica das páginas preservadas ao longo dos anos não autoriza ninguém a queimar fogueiras de livros, numa inquisição branca promovida pelo lado certo da História.
Outro dia, sob o pretexto de alguma implicação entre jornalismo e tecnologia, Luciano Correia se dava conta de pertencer a uma geração outra, quando a força da televisão se impunha, para o bem e para o mal, incontestável. Eu, de minha parte, morro de rir com as aventuras bestas de Ariosto e sinto que estou com os dias contados.