Profissionais do sexo e as obscuras noites no centro de Aracaju

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Profissional do sexo na noite do centro de Aracaju
Profissional do sexo na noite do centro de Aracaju

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Publicada em 26/10/2019 às 14:16:00

 

Milton Alves Júnior
Dados alarmantes apresentados pelo Mapa Internacional da Prostituição chamam a atenção para o violento e incrédulo dia-a-dia enfrentado por milhares de mulheres, muitas delas com idade entre 19 e 33 anos de idade. Paralelo à exposição hipnotizante para o acesso ao mundo das drogas ilícitas, bem como aos riscos de agressões e homicídios, os números mostram que 95% das pessoas hoje envolvidas com a profissão de exploração do corpo já sofreram assédio sexual que, caso fossem vivenciados em qualquer outro local de trabalho, seriam legalmente acionáveis ao poder judiciário. Uma fonte de renda sarcástica, humilhante, mas que em todos os estados brasileiros segue catalogando novas opções para o prazer alheio.
Ao longo dos últimos 15 dias, nossa equipe vem estudando essa realidade a fim de identificar o perfil dessas profissionais - sobretudo aquelas que atuam na região central de Aracaju - e se deparou com uma regularidade extremamente compatível com o cenário mundial. Como se não bastasse o clima de vulnerabilidade atualmente vivenciado, mais de 70% das pessoas ouvidas disseram ter sofrido algum tipo de abuso sexual ainda na fase infantil, e/ou, na pré-adolescência. Parentes, familiares mais próximos, amigos dos pais, tios, vizinhos; os relatos são extensos. O espanto fica ainda mais representativo quando percebe-se que os agressores, quase que beirando a totalidade dos casos, são pessoas próximas.
Também acima da casa dos 90% estão as mulheres que por motivos múltiplos desejam sair do ramo antes mesmo que a idade considerada por elas avançada para esse tipo de atuação profissional [a partir dos 35 anos] acabe sendo atingida e elas observem o rendimento econômico mensal despencar. Se deparando com um cenário similar ao vivenciado por travestis - casos publicados pelo JD na edição do último domingo e segunda-feira, 20 e 21 - a falta de oportunidade trabalhista em outras áreas tem contribuído para que a permanência na prostituição por tempo indeterminado acabe se tornando uma realidade. De tabela, não somente a escassez de emprego resulta na fidelidade trabalhista.
 "O dinheiro também. Por mais que a gente esteja diante de possíveis clientes maníacos agressores, o dinheiro em uma certa fase é extremamente atraente. Eu quero sair, tenho buscado outras formas de trabalhar que não seja nessa onda. O problema é que não tenho nem o ensino médio concluído. Mas, veja, tem muita gente com estudo, ou cursando faculdade particular que continua no ramo. Não é todo trabalho que chega a lhe render até R$ 500 em uma noitada. Isso sem falar nas novinhas de corpão que cobram isso [500 reais] por uma saidinha com um só homem; muitas vezes casado e da alta sociedade", declarou Lorena Borges, de 29 anos. Idade real, mas de nome fictício utilizado por ela desde que fez o primeiro programa.
Em janeiro de 2014, no auge dos 24 anos e se autodeclarada de corpo esbelto, Lore Borges chegou a arrecadar R$ 6 mil. Um ano atípico com rendimento em um mês de alta estação, verão intenso e da última edição do Pré-Caju. "Festinha privê com turistas tinha, e muita. Começava cedo e seguia até o início da noite quando alguns 'filhinos de papai' saiam já arrumados da casa alugada para curtir a festa na avenida. Com meu dinheiro na bolsa preferia voltar pra casa, me banhar e beber uma cerveja com amigas. 400 em um dia, 300 no outro... assim cheguei a pouco mais de seis mil em um mês. Fato que nunca mais se repetiu. Hoje, nas ruas, esse dinheiro raramente passa de R$ 200. Eu disse raramente!", relatou.
Sustento - Paralelo à necessidade de pagar as próprias demandas financeiras, há casos de garotas de programa que se deparam com a necessidade de sustentar a própria família. Esse é o caso de Anny Gabriella [também nome social]. Hoje com 28 anos, ela alega que os pais não sabem da sua real atuação trabalhista. Mãe de uma criança de 11 anos, fruto, segundo ela, de uma gravidez indesejada ainda na fase da adolescência, a resposta para a ausência noturna é de trabalho em lojas de atendimento ao consumidor, função semelhante a atendente de call center. Tendo a escola abandonado no período da gestação, até hoje ela não conseguiu completar o ensino colegial.
 "Se alguém já chegou para falar aos meus pais, eu não sei, o que posso garantir é que a minha renda ajuda a manter o sustento da família. Sei que não estou trabalhando de forma ilegal; eu, maior de idade, me prostituir não é uma ação clandestina. Acontece que além das humilhações e de ficar exposta a violência, ter outro tipo de emprego seria melhor, mas não menos digno", destacou. No quesito violência, enaltecido por Anny Gabriella, no Brasil, de acordo com o mapa, o Nordeste é a região que concentra o número progressista de mortes envolvendo garotas de programa. O estado de Ceará se destaca no ranking negativo.
 "O Centro [de Aracaju] é o que tem restado para a gente, junto com os sites que mostram algumas fotos nossa sem rosto e o nosso número. Na Orla de Atalaia até que a gente estava tendo mais contato com turista, mas alguns moradores começaram a jogar água, e tirar fotos dos carros e clientes. A ideia era intimidar e afastar os clientes. Conseguiram. A procura caiu muito. No Centro o campo é mais livre; drogas, prostituição de adolescentes, que sou muito contra, cafetões armados... enfim, chega uma hora que a cidade parece não ter lei. Prefiro não me envolver e falar muito porque a insegurança reina também, então, quem quiser me conhecer eu costumo estar próximo à Câmara de Vereadores sempre a partir das oito e meia da noite", concluiu.

Milton Alves Júnior

Dados alarmantes apresentados pelo Mapa Internacional da Prostituição chamam a atenção para o violento e incrédulo dia-a-dia enfrentado por milhares de mulheres, muitas delas com idade entre 19 e 33 anos de idade. Paralelo à exposição hipnotizante para o acesso ao mundo das drogas ilícitas, bem como aos riscos de agressões e homicídios, os números mostram que 95% das pessoas hoje envolvidas com a profissão de exploração do corpo já sofreram assédio sexual que, caso fossem vivenciados em qualquer outro local de trabalho, seriam legalmente acionáveis ao poder judiciário. Uma fonte de renda sarcástica, humilhante, mas que em todos os estados brasileiros segue catalogando novas opções para o prazer alheio.
Ao longo dos últimos 15 dias, nossa equipe vem estudando essa realidade a fim de identificar o perfil dessas profissionais - sobretudo aquelas que atuam na região central de Aracaju - e se deparou com uma regularidade extremamente compatível com o cenário mundial. Como se não bastasse o clima de vulnerabilidade atualmente vivenciado, mais de 70% das pessoas ouvidas disseram ter sofrido algum tipo de abuso sexual ainda na fase infantil, e/ou, na pré-adolescência. Parentes, familiares mais próximos, amigos dos pais, tios, vizinhos; os relatos são extensos. O espanto fica ainda mais representativo quando percebe-se que os agressores, quase que beirando a totalidade dos casos, são pessoas próximas.
Também acima da casa dos 90% estão as mulheres que por motivos múltiplos desejam sair do ramo antes mesmo que a idade considerada por elas avançada para esse tipo de atuação profissional [a partir dos 35 anos] acabe sendo atingida e elas observem o rendimento econômico mensal despencar. Se deparando com um cenário similar ao vivenciado por travestis - casos publicados pelo JD na edição do último domingo e segunda-feira, 20 e 21 - a falta de oportunidade trabalhista em outras áreas tem contribuído para que a permanência na prostituição por tempo indeterminado acabe se tornando uma realidade. De tabela, não somente a escassez de emprego resulta na fidelidade trabalhista.
 "O dinheiro também. Por mais que a gente esteja diante de possíveis clientes maníacos agressores, o dinheiro em uma certa fase é extremamente atraente. Eu quero sair, tenho buscado outras formas de trabalhar que não seja nessa onda. O problema é que não tenho nem o ensino médio concluído. Mas, veja, tem muita gente com estudo, ou cursando faculdade particular que continua no ramo. Não é todo trabalho que chega a lhe render até R$ 500 em uma noitada. Isso sem falar nas novinhas de corpão que cobram isso [500 reais] por uma saidinha com um só homem; muitas vezes casado e da alta sociedade", declarou Lorena Borges, de 29 anos. Idade real, mas de nome fictício utilizado por ela desde que fez o primeiro programa.
Em janeiro de 2014, no auge dos 24 anos e se autodeclarada de corpo esbelto, Lore Borges chegou a arrecadar R$ 6 mil. Um ano atípico com rendimento em um mês de alta estação, verão intenso e da última edição do Pré-Caju. "Festinha privê com turistas tinha, e muita. Começava cedo e seguia até o início da noite quando alguns 'filhinos de papai' saiam já arrumados da casa alugada para curtir a festa na avenida. Com meu dinheiro na bolsa preferia voltar pra casa, me banhar e beber uma cerveja com amigas. 400 em um dia, 300 no outro... assim cheguei a pouco mais de seis mil em um mês. Fato que nunca mais se repetiu. Hoje, nas ruas, esse dinheiro raramente passa de R$ 200. Eu disse raramente!", relatou.

Sustento - Paralelo à necessidade de pagar as próprias demandas financeiras, há casos de garotas de programa que se deparam com a necessidade de sustentar a própria família. Esse é o caso de Anny Gabriella [também nome social]. Hoje com 28 anos, ela alega que os pais não sabem da sua real atuação trabalhista. Mãe de uma criança de 11 anos, fruto, segundo ela, de uma gravidez indesejada ainda na fase da adolescência, a resposta para a ausência noturna é de trabalho em lojas de atendimento ao consumidor, função semelhante a atendente de call center. Tendo a escola abandonado no período da gestação, até hoje ela não conseguiu completar o ensino colegial.
 "Se alguém já chegou para falar aos meus pais, eu não sei, o que posso garantir é que a minha renda ajuda a manter o sustento da família. Sei que não estou trabalhando de forma ilegal; eu, maior de idade, me prostituir não é uma ação clandestina. Acontece que além das humilhações e de ficar exposta a violência, ter outro tipo de emprego seria melhor, mas não menos digno", destacou. No quesito violência, enaltecido por Anny Gabriella, no Brasil, de acordo com o mapa, o Nordeste é a região que concentra o número progressista de mortes envolvendo garotas de programa. O estado de Ceará se destaca no ranking negativo.
 "O Centro [de Aracaju] é o que tem restado para a gente, junto com os sites que mostram algumas fotos nossa sem rosto e o nosso número. Na Orla de Atalaia até que a gente estava tendo mais contato com turista, mas alguns moradores começaram a jogar água, e tirar fotos dos carros e clientes. A ideia era intimidar e afastar os clientes. Conseguiram. A procura caiu muito. No Centro o campo é mais livre; drogas, prostituição de adolescentes, que sou muito contra, cafetões armados... enfim, chega uma hora que a cidade parece não ter lei. Prefiro não me envolver e falar muito porque a insegurança reina também, então, quem quiser me conhecer eu costumo estar próximo à Câmara de Vereadores sempre a partir das oito e meia da noite", concluiu.