A hora e a vez dos negativos

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Publicada em 29/10/2019 às 10:45:00

 

* Antonio Passos
Há dois modos opostos de expressar posições: positivamente ou negativamente. Como está explícito nas palavras, posicionar-se positivamente é dizer e curtir aquilo do que se gosta, enquanto comportar-se negativamente é priorizar a rejeição, o que pode descambar para viver mais atento ao gosto alheio que ao próprio e até para um caminhar de mãos dadas com o agouro.
No futebol - tão massificado entre nós - esses diferentes modos de portar-se são bem visíveis. Há os torcedores que torcem pelos seus respectivos times e pronto! Assistem aos jogos, vibram, comemoram as vitórias e resignam-se nas temporadas de maré baixa.
Eu mesmo faço isso com três clubes: o Sergipe, o Bahia e o Flamengo. Curto esse amor distribuído entre algumas equipes e não concentrado em apenas uma. Assim, é improvável estar completamente por cima ou por baixo. Agora mesmo, o Sergipe está no fundo do poço, em 2020 disputará apenas o campeonato estadual na esperança de conquistar um melhor calendário para o ano seguinte. O Bahia, bicampeão brasileiro, atravessa uma temporada intermediária: não conquistará o tricampeonato nacional neste ano, mas, também está livre do fantasma do rebaixamento e luta para encerrar a temporada nacional com um posicionamento importante na tabela. Já o Flamengo, campeão mundial em 1981, tem clara possibilidade de colocar uma segunda estrela dourada acima do escudo, agora em 2019 - sem contar os demais títulos em jogo. E mais: torço para qualquer um dos sergipanos em disputas externas…
No futebol, a história prova, a alternância da superioridade tem sido a regra. Os torcedores que conservam um mínimo de bom senso sabem que torcer é, necessariamente, alternar contentamento e frustração - assim como nas duas máscaras que simbolizam o Teatro. Uma distorção é cair no fanatismo e tentar impor um domínio retórico e permanente na marra, contra a realidade.
Porém, há por aí - os conheço desde sempre - antagonistas que, embora possam ter preferência por um ou outro time, deixam nítido que o que os faz gozar mesmo é viver espezinhando os outros (ou um específico outro): esses são os anti. Isso sempre houve, repito. Contudo, de uns tempos pra cá, parece que estamos vivendo no Brasil (alguns dizem que no mundo) um surto de negativos, uma epidemia da postura anti.
Agora parece não importar muito ter ideais positivos e solidários. Escolhas estão sendo feitas não por esperança, mas, para negar, frustrar, encruar a iniciativa ou a alegria de outros. No caso da política, por exemplo: o que propõe o ministro do meio ambiente? O que propõe o ministro da educação? Quais são as propostas afirmativas dos prepostos federais de modo geral? Talvez um terrível garimpo encontre algum medonho cascalho. Todos, porém, deixam claro uma coisa: o que querem destruir.
Isso me fez lembrar uma anedota que certa vez me foi contada pelo artista Mingo Santana. Disse ele haver uma fila de panelas cheias de caranguejos, cada uma representando um dos estados brasileiros. As caçarolas estão todos abertas e os caranguejos circulavam livremente. Apenas do caldeirão que representa Sergipe não sai nada, bicho nenhum. Sabe por que? Perguntou Mingo e ele mesmo respondeu: porque quando um caranguejo tenta sair da panela de Sergipe os conterrâneos, prisioneiros da mesma vasilha, puxam a perna do fujão e assim afora… Se não me engano, essa mesma fábula, com pequenas variações, me foi contada em outra oportunidade pelo também artista Adelson Alves… Bom, mas este é outro assunto.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Há dois modos opostos de expressar posições: positivamente ou negativamente. Como está explícito nas palavras, posicionar-se positivamente é dizer e curtir aquilo do que se gosta, enquanto comportar-se negativamente é priorizar a rejeição, o que pode descambar para viver mais atento ao gosto alheio que ao próprio e até para um caminhar de mãos dadas com o agouro.
No futebol - tão massificado entre nós - esses diferentes modos de portar-se são bem visíveis. Há os torcedores que torcem pelos seus respectivos times e pronto! Assistem aos jogos, vibram, comemoram as vitórias e resignam-se nas temporadas de maré baixa.
Eu mesmo faço isso com três clubes: o Sergipe, o Bahia e o Flamengo. Curto esse amor distribuído entre algumas equipes e não concentrado em apenas uma. Assim, é improvável estar completamente por cima ou por baixo. Agora mesmo, o Sergipe está no fundo do poço, em 2020 disputará apenas o campeonato estadual na esperança de conquistar um melhor calendário para o ano seguinte. O Bahia, bicampeão brasileiro, atravessa uma temporada intermediária: não conquistará o tricampeonato nacional neste ano, mas, também está livre do fantasma do rebaixamento e luta para encerrar a temporada nacional com um posicionamento importante na tabela. Já o Flamengo, campeão mundial em 1981, tem clara possibilidade de colocar uma segunda estrela dourada acima do escudo, agora em 2019 - sem contar os demais títulos em jogo. E mais: torço para qualquer um dos sergipanos em disputas externas…
No futebol, a história prova, a alternância da superioridade tem sido a regra. Os torcedores que conservam um mínimo de bom senso sabem que torcer é, necessariamente, alternar contentamento e frustração - assim como nas duas máscaras que simbolizam o Teatro. Uma distorção é cair no fanatismo e tentar impor um domínio retórico e permanente na marra, contra a realidade.
Porém, há por aí - os conheço desde sempre - antagonistas que, embora possam ter preferência por um ou outro time, deixam nítido que o que os faz gozar mesmo é viver espezinhando os outros (ou um específico outro): esses são os anti. Isso sempre houve, repito. Contudo, de uns tempos pra cá, parece que estamos vivendo no Brasil (alguns dizem que no mundo) um surto de negativos, uma epidemia da postura anti.
Agora parece não importar muito ter ideais positivos e solidários. Escolhas estão sendo feitas não por esperança, mas, para negar, frustrar, encruar a iniciativa ou a alegria de outros. No caso da política, por exemplo: o que propõe o ministro do meio ambiente? O que propõe o ministro da educação? Quais são as propostas afirmativas dos prepostos federais de modo geral? Talvez um terrível garimpo encontre algum medonho cascalho. Todos, porém, deixam claro uma coisa: o que querem destruir.
Isso me fez lembrar uma anedota que certa vez me foi contada pelo artista Mingo Santana. Disse ele haver uma fila de panelas cheias de caranguejos, cada uma representando um dos estados brasileiros. As caçarolas estão todos abertas e os caranguejos circulavam livremente. Apenas do caldeirão que representa Sergipe não sai nada, bicho nenhum. Sabe por que? Perguntou Mingo e ele mesmo respondeu: porque quando um caranguejo tenta sair da panela de Sergipe os conterrâneos, prisioneiros da mesma vasilha, puxam a perna do fujão e assim afora… Se não me engano, essa mesma fábula, com pequenas variações, me foi contada em outra oportunidade pelo também artista Adelson Alves… Bom, mas este é outro assunto.

* Antonio Passos é jornalista