ANARQUISMO, A PALAVRA PROIBIDA

Opinião

 

 * Lelê Teles
É certo que ambos, pela audácia, acabaram esmagados: um, deserdado e expulso da vida idílica ao lado do pai poderoso e dono do mundo; o outro, crucificado num penhasco pedregoso, assistindo, inerte, a uma águia roer o seu fígado ad eternum.
Porém, a chama que trouxeram nunca se apagou. Depois deles vieram Proudhon, Bakunin, Emma Goldman... uma legião: archote numa mão, bandeira negra na outra, olhos e corações em brasa. 
Digo isso à guisa de introdução, mas quero mesmo é dizer outra coisa. Os protestos que vemos hoje no Chile são, claramente, de matriz anarquista. O Chile, é bom que você saiba, tem uma longa tradição anarquista.
Mas antes, é bom saber, em abril de 1888, seis mil pessoas protestavam em frente à estátua de San Martín, na Alameda, contra o aumento de meio centavo no bilhete do bonde da Companhia Ferroviária Urbana de Santiago.
O presidente da empresa era Eduardo Matte Pérez, patriarca de uma das famílias mais poderosas do Chile, daqueles que mandam e desmandam, matam e desmatam.
Esse sujeito, que à época desdenhou de seus compatriotas explorados, disse pouco tempo depois: "os donos do Chile somos nós, donos do capital e da terra; o resto é uma massa influenciável e vendável; não pesa como opinião nem como prestígio".
O bisneto dele, o bilionário Eliodoro Matte Larraín, com grande trânsito no Palácio La Moneda, consta na revista Forbes como um dos homens mais ricos da América Latina e é, como não, um dos responsáveis pelas revoltas dos chilenos nos tempos atuais, porque sua riqueza é fruto da exploração dos seus patrícios.
A família Matte, com negócios grandiosos e diversificados, tem influência em todas os setores importantes da vida dos chilenos, desde a cultura até a política. E esse diabo, o Eliodoro, fez MBA em Chicago, onde mais?
Não nos esqueçamos que foi na Haymarket Square, em Chicago - onde mais - que em 1886 ocorreu o sangrento massacre contra os anarquistas. À época, os trabalhadores, esfolados, reivindicavam redução na jornada de trabalho para oito horas laborais!
Mas... voltemos à tradição anarquista chilena. Seguimos para a La Gran Huelga de Lancheros (a Greve dos Barqueiros), iniciada no ano de 1890, que tumultuou as cidades de Valparaíso, Iquique, Antofagasta e Concepcíon.
Passando pela greve de 1903, realizada pelos trabalhadores da Compañia Sud Americana de Vapores, na bela cidade de Valparaíso, esmagada impiedosamente pelo braço armado da alta burguesia. Porém, a empresa foi incendiada. Os archotes em punho mantiveram os corações anarquistas em brasa.
Outro protesto conhecido como La Roja explodiu em 1905, na forma de uma greve geral contra o aumento do imposto sobre a importação de carne. A rebelião pegou fogo, em 48 horas os trabalhadores deixaram seus bairros e ganharam a capital, sabotando os serviços telegráficos e ferroviários e ameaçando invadir o palácio do governo.
Os plutocratas impuseram toque de recolher e seu braço armado, uma vez mais, assassinou trabalhadores impiedosamente. Tudo se parece com o que vemos hoje: os de baixo contra os de cima, e o exército e as polícias ao lado dos que usam punhos de renda.
Naquele tempo, como agora, a revolta se dava pelo empobrecimento da população pela ganância cada vez maior de uma burguesia demofóbica, violenta, falsamente religiosa e viciada em lucro. Sim, absurdamente violenta.
Ninguém jamais se esquece La Massacre de la Escuela de Santa Maria de Iquique, onde o exercito fuzilou, a sangue frio, milhares de trabalhadores que estavam em greve, na noite de 21 de dezembro de 1907.
Você sabe, a máquina que gera dinheiro tem que continuar a produzir, com o suor, a carne e o sangue dos trabalhadores. A luta que vemos hoje, nas ruas de Santiago, não é simplesmente contra o governo Piñera é, de forma abrangente, contra os eternos donos do Chile.
Sim, o Chile tem donos, são umas poucas famílias abastadas que controlam o PIB chileno, e que vivem das falcatruas das privatizações, ou roubam territórios mapuche para exploração desenfreada, ou extraem minérios sem pagar impostos, ou soterram mineiros sem pagarem penas judiciais...
Esses plutocratas têm praias e lagos privados!, extorquem o povo no preço de pedágios, medicamentos, monopolizam as farmácias e os supermercados com seus conglomerados transnacionais, controlam a indústria têxtil, a agricultura, o diabo.
Repito, a revolta que vemos hoje, archotes nas mãos, é de matriz anarquista e mimetiza as revoltas do passado lideradas pelos libertários. Você sabe, as esquerdas burocráticas costumam protestar com passeatas pacíficas, cartazes nas mãos e blimps de centrais sindicais erguidos ao ar; depois se sentam e fazem acordos com a burguesia, em troca de migalhas. A paciência do povo oprimido tem limites. 
Ora, direis, ouvir estrelas! Sim, há quem ouça o barulho dos astros em movimento, aguça tua audição, diligente internauta.  Ah, dirás, mas essa gente, jovens em sua maioria, não leu Bakunin, não traz nas mãos a bandeira vermelha e negra...
Lembro-te que no lendário filme Um Rei em Nova Iorque, Charles Chaplin, interpretando o personagem Shadov, pergunta ao menino Rupert, um terrível infante anarquista, que encontra sentado lendo Karl Marx. "você é comunista?", ao que o pequeno retruca: "acaso é necessário ser comunista para ler Marx?"
Dito isto, digo mais. Bachelet (Chile), como Cristina Kirchner (Argentina), bem como Rafael Correa (Equador), assim como Lula, tiveram sua chance; terão outra. Porém, não nos esqueçamos, eles não romperam o pacto absurdo com a burguesia.
Ou o fazem agora, ou a bandeira vermelha será trocada pelo estandarte negro. e, ao invés do diálogo de surdos, pode vir a fúria dos homens e mulheres de archotes nas mãos. Só para lembrar, os anarquistas assassinaram um presidente nos Estados Unidos (Willian McKinley); o rei Humberto I, da Itália; o rei Jorge I, da Grécia e três primeiros ministros na Espanha.
Como disse Vladimir Safatle em um texto primoroso publicado a pouco: "chega de diálogo, não é de diálogo que o Brasil (América Latina, digo eu) precisa, é de ruptura".
Palavra da salvação.
* Lelê Teles, jornalista, publicitário e roteirista

Não se deixe enganar, Lúcifer, a Aurora, o portador da luz, personagem da fábula bíblica, não é aquele caricato diabo de chifres, rabo de seta e língua bifurcada criado tardiamente pela Igreja. Ele é o mesmo Prometeu do mito grego, o que arranca o archote das mãos dos deuses e traz o fogo, a luz, a iluminação aos corações e mentes gelados do povo oprimido. 

* Lelê Teles

É certo que ambos, pela audácia, acabaram esmagados: um, deserdado e expulso da vida idílica ao lado do pai poderoso e dono do mundo; o outro, crucificado num penhasco pedregoso, assistindo, inerte, a uma águia roer o seu fígado ad eternum.
Porém, a chama que trouxeram nunca se apagou. Depois deles vieram Proudhon, Bakunin, Emma Goldman... uma legião: archote numa mão, bandeira negra na outra, olhos e corações em brasa. 
Digo isso à guisa de introdução, mas quero mesmo é dizer outra coisa. Os protestos que vemos hoje no Chile são, claramente, de matriz anarquista. O Chile, é bom que você saiba, tem uma longa tradição anarquista.
Mas antes, é bom saber, em abril de 1888, seis mil pessoas protestavam em frente à estátua de San Martín, na Alameda, contra o aumento de meio centavo no bilhete do bonde da Companhia Ferroviária Urbana de Santiago.
O presidente da empresa era Eduardo Matte Pérez, patriarca de uma das famílias mais poderosas do Chile, daqueles que mandam e desmandam, matam e desmatam.
Esse sujeito, que à época desdenhou de seus compatriotas explorados, disse pouco tempo depois: "os donos do Chile somos nós, donos do capital e da terra; o resto é uma massa influenciável e vendável; não pesa como opinião nem como prestígio".
O bisneto dele, o bilionário Eliodoro Matte Larraín, com grande trânsito no Palácio La Moneda, consta na revista Forbes como um dos homens mais ricos da América Latina e é, como não, um dos responsáveis pelas revoltas dos chilenos nos tempos atuais, porque sua riqueza é fruto da exploração dos seus patrícios.
A família Matte, com negócios grandiosos e diversificados, tem influência em todas os setores importantes da vida dos chilenos, desde a cultura até a política. E esse diabo, o Eliodoro, fez MBA em Chicago, onde mais?
Não nos esqueçamos que foi na Haymarket Square, em Chicago - onde mais - que em 1886 ocorreu o sangrento massacre contra os anarquistas. À época, os trabalhadores, esfolados, reivindicavam redução na jornada de trabalho para oito horas laborais!
Mas... voltemos à tradição anarquista chilena. Seguimos para a La Gran Huelga de Lancheros (a Greve dos Barqueiros), iniciada no ano de 1890, que tumultuou as cidades de Valparaíso, Iquique, Antofagasta e Concepcíon.
Passando pela greve de 1903, realizada pelos trabalhadores da Compañia Sud Americana de Vapores, na bela cidade de Valparaíso, esmagada impiedosamente pelo braço armado da alta burguesia. Porém, a empresa foi incendiada. Os archotes em punho mantiveram os corações anarquistas em brasa.
Outro protesto conhecido como La Roja explodiu em 1905, na forma de uma greve geral contra o aumento do imposto sobre a importação de carne. A rebelião pegou fogo, em 48 horas os trabalhadores deixaram seus bairros e ganharam a capital, sabotando os serviços telegráficos e ferroviários e ameaçando invadir o palácio do governo.
Os plutocratas impuseram toque de recolher e seu braço armado, uma vez mais, assassinou trabalhadores impiedosamente. Tudo se parece com o que vemos hoje: os de baixo contra os de cima, e o exército e as polícias ao lado dos que usam punhos de renda.
Naquele tempo, como agora, a revolta se dava pelo empobrecimento da população pela ganância cada vez maior de uma burguesia demofóbica, violenta, falsamente religiosa e viciada em lucro. Sim, absurdamente violenta.
Ninguém jamais se esquece La Massacre de la Escuela de Santa Maria de Iquique, onde o exercito fuzilou, a sangue frio, milhares de trabalhadores que estavam em greve, na noite de 21 de dezembro de 1907.
Você sabe, a máquina que gera dinheiro tem que continuar a produzir, com o suor, a carne e o sangue dos trabalhadores. A luta que vemos hoje, nas ruas de Santiago, não é simplesmente contra o governo Piñera é, de forma abrangente, contra os eternos donos do Chile.
Sim, o Chile tem donos, são umas poucas famílias abastadas que controlam o PIB chileno, e que vivem das falcatruas das privatizações, ou roubam territórios mapuche para exploração desenfreada, ou extraem minérios sem pagar impostos, ou soterram mineiros sem pagarem penas judiciais...
Esses plutocratas têm praias e lagos privados!, extorquem o povo no preço de pedágios, medicamentos, monopolizam as farmácias e os supermercados com seus conglomerados transnacionais, controlam a indústria têxtil, a agricultura, o diabo.
Repito, a revolta que vemos hoje, archotes nas mãos, é de matriz anarquista e mimetiza as revoltas do passado lideradas pelos libertários. Você sabe, as esquerdas burocráticas costumam protestar com passeatas pacíficas, cartazes nas mãos e blimps de centrais sindicais erguidos ao ar; depois se sentam e fazem acordos com a burguesia, em troca de migalhas. A paciência do povo oprimido tem limites. 
Ora, direis, ouvir estrelas! Sim, há quem ouça o barulho dos astros em movimento, aguça tua audição, diligente internauta.  Ah, dirás, mas essa gente, jovens em sua maioria, não leu Bakunin, não traz nas mãos a bandeira vermelha e negra...
Lembro-te que no lendário filme Um Rei em Nova Iorque, Charles Chaplin, interpretando o personagem Shadov, pergunta ao menino Rupert, um terrível infante anarquista, que encontra sentado lendo Karl Marx. "você é comunista?", ao que o pequeno retruca: "acaso é necessário ser comunista para ler Marx?"
Dito isto, digo mais. Bachelet (Chile), como Cristina Kirchner (Argentina), bem como Rafael Correa (Equador), assim como Lula, tiveram sua chance; terão outra. Porém, não nos esqueçamos, eles não romperam o pacto absurdo com a burguesia.
Ou o fazem agora, ou a bandeira vermelha será trocada pelo estandarte negro. e, ao invés do diálogo de surdos, pode vir a fúria dos homens e mulheres de archotes nas mãos. Só para lembrar, os anarquistas assassinaram um presidente nos Estados Unidos (Willian McKinley); o rei Humberto I, da Itália; o rei Jorge I, da Grécia e três primeiros ministros na Espanha.
Como disse Vladimir Safatle em um texto primoroso publicado a pouco: "chega de diálogo, não é de diálogo que o Brasil (América Latina, digo eu) precisa, é de ruptura".
Palavra da salvação.

* Lelê Teles, jornalista, publicitário e roteirista

 


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