O que é fé? ( I )

Opinião

 

* Raymundo Mello
(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)
 
Meu pai, o 'Memorialista 
Raymundo Mello', não 
escrevia somente as 'memórias' que o fizeram tão conhecido do público leitor. Cristão-católico convicto e estudioso da fé, era sempre convidado para uma palestra aqui, outra ali, uma mensagem n'alguma reunião, uma participação num programa católico de rádio, entre outras ocasiões, e, para tudo isso, ele se preparava, escrevia o que pretendia dizer. Mas a prática às vezes o levava a "esquecer" o texto no bolso, sempre que julgava ser o que lhe vinha à mente mais pertinente à ocasião. 
Entretanto, o material ficava guardado. "Quem sabe numa outra oportunidade irá me servir?" - dizia ao recolher o texto ao seu acervo, com o assunto devidamente identificado.
Tenho 'um sem-fim' destes trabalhos. Pretendo, de forma organizada, disponibilizá-los para os interessados, num futuro próximo.
No final de 2016, o 'Padre Alfredo Boldori, SDB', então pároco da 'Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora' (Salesianos), tendo decidido implantar um 'Semanário Litúrgico-Catequético' próprio da comunidade, o convidou para escrever a coluna semanal sobre Fé e outros assuntos de natureza eclesial. Assim, a partir de 1.º de janeiro de 2017, em todas semanas - até aquela que antecedeu o seu encontro com Deus -, lá estava, no folheto distribuído nas Missas do sábado (à noite) e do domingo, a coluna por ele escrita. Escrita com a marca da sua imensa Fé!
Hoje reproduzo a primeira parte da sua 'última publicação de natureza religiosa'; completo o texto nas próximas edições, se Deus assim me permitir.
Assim escreveu Raymundo Mello:
"Neste artigo a nossa temática é fé. 'O que é fé? É uma luz que Deus nos dá para nos fazer conhecer o que Ele é e para nos esclarecer sobre as coisas que ultrapassam a nossa razão. E o que é ter fé? É crer' (Jean Guitton).
Elegi para [nossa reflexão hoje] o que está na Carta de São Paulo aos Romanos, no capítulo 8, versículo 26, que cada um de nós, [possivelmente], já leu e comentou várias vezes. Vamos reler: "O Espírito ajuda também a nossa fraqueza: porque não sabemos o que havemos de pedir, como convém; mas o mesmo Espírito ora por nós com gemidos inexplicáveis".
O homem recebeu desde o princípio quatro ferimentos pelo seu pecado: todos os quatro são terríveis.
A primeira ferida foi na parte intelectual, que ficou ofendida: a) com o esquecimento do passado, sobretudo dos benefícios recebidos, tornando-nos ingratos; b) com a inconsideração acerca do presente, pela qual não discernimos o bem verdadeiro do falso; c) com a imprudência acerca do futuro, de modo que não sabemos nem prever, nem precaver-nos do mal que nos ameaça.
A segunda ferida foi na vontade que não sabe resolver-se a abraçar o bem verdadeiro que conheceu e a rejeitar o bem falso aparente.
A terceira ferida foi na parte concupiscível, que continua a rebelar-se contra a lei racional, para satisfação dos apetites mais baixos e aviltantes.
A quarta ferida foi na parte irascível, que se retira e se esquiva das obras de virtude, assim que se apresenta alguma coisa de austero e árduo.
Destas quatro feridas vêm ao homem quatro gravíssimas enfermidades, que se chamam: ignorância, malícia, concupiscência e fraqueza, as quais, cada vez que ele volta a pecar, abrem-se horrivelmente, e nunca se curam totalmente, mesmo quando o homem está livre de pecar. Todavia, não temos ainda aqui o maior dos males.
O maior dos males é não saber tratar com o médico. Deus é o único que pode curar o homem. Mas este não recorre a Deus, não sabe tratar com Ele, nem entregar-se a Ele. Numa palavra, o homem não sabe fazer oração. Esta, se bem o considerarmos, é a enfermidade mais grave.
Sobretudo para fugirmos a esta enfermidade, nos foi dado o Espírito Santo, segundo o que explica o Apóstolo Paulo: "O Espírito Santo sustenta a nossa enfermidade". E para confirmar que a nossa enfermidade não é outra coisa senão esta ignorância de que falamos, acrescenta: "Porque não sabemos o que havemos de pedir".
Praza a Deus que tenhamos aprendido, depois de tanto tempo que nos aplicamos à oração, a fazê-la como convém. Se não aprendemos bem, temos quem vem em nosso auxílio: "O Espírito Santo sustenta a nossa fraqueza".
A nossa ignorância a respeito da oração, consiste, sobretudo, em duas coisas: em não sabermos o que pedimos e em não sabermos como pedirmos.
a) Sabemos, sim, que devemos, antes de tudo, pedir as coisas que se relacionam com o nosso fim último, que é Deus e a sua glória, com as quais conseguimos a nossa bem-aventurança. Mas não o sabemos em particular. Com efeito, quanto à sua glória, que continuamos a pedir, quando dizemos "santificado seja o vosso nome", nós não sabemos qual seja a glória que Ele mais quer de nós no momento presente. Pensamos, talvez, que Ele queira glória de outros, quando Ele a quer de nós. Pensamos, talvez, que Ele quer uma certa glória de nós, quando Ele a quer de outros. "Serás tu que me edificará uma casa para que eu a habite?" (2Reis 8,5). E quanto à nossa felicidade, que pedimos com aquela outra expressão "venha a nós o vosso reino", não sabemos quando seja melhor que Ele no-la dê; pensamos, talvez, que seja melhor viver, quando o melhor é morrer. Ou o contrário. "Não sei o que escolher: estou em aperto por duas partes" (Fil 1,22-23 - adaptado).
b) Sabemos, em geral, que, tendo pedido a Deus o nosso fim, é justo que peçamos os meios, quer se trate dos nossos méritos, quer se trate das graças que Ele nos alcança. Mas, em particular, não temos certeza, porque quanto às obras para cumprir a sua vontade, que desejamos, quando dizemos "seja feita a vossa vontade", nem sempre sabemos com exatidão quais sejam. Pensaremos, talvez, na vida ativa, enquanto Ele deseja de nós a vida mais recolhida e contemplativa; ou, ao contrário. "Há caminho que parece reto ao homem, seu fim, porém, é o caminho da morte" (Prov 14,12).
Quanto aos auxílios para o nosso sustento, segundo aquilo que pedimos, "o pão nosso de cada dia nos dai hoje", não sabemos, em particular, o que nos convenha, quanto ao corpo ou quanto à alma.
"Quem pode saber o que é bom para o homem na vida, durante os dias de sua vã existência, que ele atravessa como uma sombra?" (Ecl 6,12).
c) Sabemos que, depois de termos pedido o quanto é necessário para a consecução do nosso fim último, devemos ainda pedir-lhe que nos aplaine o caminho, tirando os obstáculos que impediriam o nosso bom caminhar: pecados, tentações, circunstâncias difíceis. Depois, não sabemos nada mais em particular. Quanto aos pecados para os quais pedimos "perdoai-nos as nossas ofensas", sabemos que todas elas nos roubam a Deus, mas não sabemos quais sejam para nós as mais nocivas, aquelas das quais devemos mais desvencilhar-nos e arrepender-nos. "Quem pode, entretanto, ver as próprias faltas?" (Sl 18,13)".
Noutras edições trarei a continuação do texto, prosseguindo a reflexão sobre o tema.
Ele sempre concluía os textos com a seguinte recomendação, que faço agora: "Consultem sempre as citações bíblicas".
* * *
E.T. - Muitos desses textos que meu pai escrevia são fruto de suas inúmeras anotações nas palestras, retiros e cursilhos que participava. Ele anotava tudo o que ouvia com uma rapidez impressionante e depois 'passava-a-limpo'. É possível que parte do texto possa ter vindo de algum livro. Compreendam os leitores que minha intenção não é plagiar absolutamente nada. Necessariamente não estou atribuindo a meu pai a autoria do que está escrito. O desejo é, tão-somente, compartilhar com seus leitores um pouco do que nutria a sua espiritualidade. 
* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br

* Raymundo Mello

(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)

Meu pai, o 'Memorialista  Raymundo Mello', não  escrevia somente as 'memórias' que o fizeram tão conhecido do público leitor. Cristão-católico convicto e estudioso da fé, era sempre convidado para uma palestra aqui, outra ali, uma mensagem n'alguma reunião, uma participação num programa católico de rádio, entre outras ocasiões, e, para tudo isso, ele se preparava, escrevia o que pretendia dizer. Mas a prática às vezes o levava a "esquecer" o texto no bolso, sempre que julgava ser o que lhe vinha à mente mais pertinente à ocasião. 
Entretanto, o material ficava guardado. "Quem sabe numa outra oportunidade irá me servir?" - dizia ao recolher o texto ao seu acervo, com o assunto devidamente identificado.
Tenho 'um sem-fim' destes trabalhos. Pretendo, de forma organizada, disponibilizá-los para os interessados, num futuro próximo.
No final de 2016, o 'Padre Alfredo Boldori, SDB', então pároco da 'Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora' (Salesianos), tendo decidido implantar um 'Semanário Litúrgico-Catequético' próprio da comunidade, o convidou para escrever a coluna semanal sobre Fé e outros assuntos de natureza eclesial. Assim, a partir de 1.º de janeiro de 2017, em todas semanas - até aquela que antecedeu o seu encontro com Deus -, lá estava, no folheto distribuído nas Missas do sábado (à noite) e do domingo, a coluna por ele escrita. Escrita com a marca da sua imensa Fé!
Hoje reproduzo a primeira parte da sua 'última publicação de natureza religiosa'; completo o texto nas próximas edições, se Deus assim me permitir.
Assim escreveu Raymundo Mello:
"Neste artigo a nossa temática é fé. 'O que é fé? É uma luz que Deus nos dá para nos fazer conhecer o que Ele é e para nos esclarecer sobre as coisas que ultrapassam a nossa razão. E o que é ter fé? É crer' (Jean Guitton).
Elegi para [nossa reflexão hoje] o que está na Carta de São Paulo aos Romanos, no capítulo 8, versículo 26, que cada um de nós, [possivelmente], já leu e comentou várias vezes. Vamos reler: "O Espírito ajuda também a nossa fraqueza: porque não sabemos o que havemos de pedir, como convém; mas o mesmo Espírito ora por nós com gemidos inexplicáveis".O homem recebeu desde o princípio quatro ferimentos pelo seu pecado: todos os quatro são terríveis.
A primeira ferida foi na parte intelectual, que ficou ofendida: a) com o esquecimento do passado, sobretudo dos benefícios recebidos, tornando-nos ingratos; b) com a inconsideração acerca do presente, pela qual não discernimos o bem verdadeiro do falso; c) com a imprudência acerca do futuro, de modo que não sabemos nem prever, nem precaver-nos do mal que nos ameaça.
A segunda ferida foi na vontade que não sabe resolver-se a abraçar o bem verdadeiro que conheceu e a rejeitar o bem falso aparente.
A terceira ferida foi na parte concupiscível, que continua a rebelar-se contra a lei racional, para satisfação dos apetites mais baixos e aviltantes.
A quarta ferida foi na parte irascível, que se retira e se esquiva das obras de virtude, assim que se apresenta alguma coisa de austero e árduo.
Destas quatro feridas vêm ao homem quatro gravíssimas enfermidades, que se chamam: ignorância, malícia, concupiscência e fraqueza, as quais, cada vez que ele volta a pecar, abrem-se horrivelmente, e nunca se curam totalmente, mesmo quando o homem está livre de pecar. Todavia, não temos ainda aqui o maior dos males.
O maior dos males é não saber tratar com o médico. Deus é o único que pode curar o homem. Mas este não recorre a Deus, não sabe tratar com Ele, nem entregar-se a Ele. Numa palavra, o homem não sabe fazer oração. Esta, se bem o considerarmos, é a enfermidade mais grave.
Sobretudo para fugirmos a esta enfermidade, nos foi dado o Espírito Santo, segundo o que explica o Apóstolo Paulo: "O Espírito Santo sustenta a nossa enfermidade". E para confirmar que a nossa enfermidade não é outra coisa senão esta ignorância de que falamos, acrescenta: "Porque não sabemos o que havemos de pedir".
Praza a Deus que tenhamos aprendido, depois de tanto tempo que nos aplicamos à oração, a fazê-la como convém. Se não aprendemos bem, temos quem vem em nosso auxílio: "O Espírito Santo sustenta a nossa fraqueza".
A nossa ignorância a respeito da oração, consiste, sobretudo, em duas coisas: em não sabermos o que pedimos e em não sabermos como pedirmos.
a) Sabemos, sim, que devemos, antes de tudo, pedir as coisas que se relacionam com o nosso fim último, que é Deus e a sua glória, com as quais conseguimos a nossa bem-aventurança. Mas não o sabemos em particular. Com efeito, quanto à sua glória, que continuamos a pedir, quando dizemos "santificado seja o vosso nome", nós não sabemos qual seja a glória que Ele mais quer de nós no momento presente. Pensamos, talvez, que Ele queira glória de outros, quando Ele a quer de nós. Pensamos, talvez, que Ele quer uma certa glória de nós, quando Ele a quer de outros. "Serás tu que me edificará uma casa para que eu a habite?" (2Reis 8,5). E quanto à nossa felicidade, que pedimos com aquela outra expressão "venha a nós o vosso reino", não sabemos quando seja melhor que Ele no-la dê; pensamos, talvez, que seja melhor viver, quando o melhor é morrer. Ou o contrário. "Não sei o que escolher: estou em aperto por duas partes" (Fil 1,22-23 - adaptado).
b) Sabemos, em geral, que, tendo pedido a Deus o nosso fim, é justo que peçamos os meios, quer se trate dos nossos méritos, quer se trate das graças que Ele nos alcança. Mas, em particular, não temos certeza, porque quanto às obras para cumprir a sua vontade, que desejamos, quando dizemos "seja feita a vossa vontade", nem sempre sabemos com exatidão quais sejam. Pensaremos, talvez, na vida ativa, enquanto Ele deseja de nós a vida mais recolhida e contemplativa; ou, ao contrário. "Há caminho que parece reto ao homem, seu fim, porém, é o caminho da morte" (Prov 14,12).
Quanto aos auxílios para o nosso sustento, segundo aquilo que pedimos, "o pão nosso de cada dia nos dai hoje", não sabemos, em particular, o que nos convenha, quanto ao corpo ou quanto à alma.
"Quem pode saber o que é bom para o homem na vida, durante os dias de sua vã existência, que ele atravessa como uma sombra?" (Ecl 6,12).
c) Sabemos que, depois de termos pedido o quanto é necessário para a consecução do nosso fim último, devemos ainda pedir-lhe que nos aplaine o caminho, tirando os obstáculos que impediriam o nosso bom caminhar: pecados, tentações, circunstâncias difíceis. Depois, não sabemos nada mais em particular. Quanto aos pecados para os quais pedimos "perdoai-nos as nossas ofensas", sabemos que todas elas nos roubam a Deus, mas não sabemos quais sejam para nós as mais nocivas, aquelas das quais devemos mais desvencilhar-nos e arrepender-nos. "Quem pode, entretanto, ver as próprias faltas?" (Sl 18,13)".
Noutras edições trarei a continuação do texto, prosseguindo a reflexão sobre o tema.
Ele sempre concluía os textos com a seguinte recomendação, que faço agora: "Consultem sempre as citações bíblicas".

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E.T. - Muitos desses textos que meu pai escrevia são fruto de suas inúmeras anotações nas palestras, retiros e cursilhos que participava. Ele anotava tudo o que ouvia com uma rapidez impressionante e depois 'passava-a-limpo'. É possível que parte do texto possa ter vindo de algum livro. Compreendam os leitores que minha intenção não é plagiar absolutamente nada. Necessariamente não estou atribuindo a meu pai a autoria do que está escrito. O desejo é, tão-somente, compartilhar com seus leitores um pouco do que nutria a sua espiritualidade. 

* Raymundo Mello é Memorialistaraymundopmello@yahoo.com.br

 


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