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Publicada em 21/06/2012 às 12:11:00

* Rômulo Rodrigues

Quem militou nas lidas sindicais no tempo da ditadura militar tem lembrança do quanto era arriscado fazer uma reivindicação por mais singela que fosse.
Tem também a consciência do quanto os operários eram criativos para trocarem opiniões, formularem propostas e fazerem funcionar redes de comunicações que internet nenhuma chega perto.
Os picos dos aumentos de temperatura eram sempre as aproximações das datas base e do 1° de maio. Eram nestes momentos, que tanto patrões como trabalhadores travavam suas guerras surdas e partiam em busca dos aliados.
Neste quesito, os patrões, tinham seus espiões e amaciadores dentro das fábricas e cuja tática mais explícita de atuação era divulgar boatos aterrorizantes. Exemplo; naquelas rodinhas tradicionais da folga do almoço, onde o dominó, o truco e o buraco serviam de disfarce para algumas mobilizações, os agentes patronais estavam sempre a alardear que estavam sabendo de fonte fidedigna de que listas de dispensas estavam sendo feitas nos setores e que estava para rolar o maior facão.
Um episódio marcante do final da década de 1970 me veio à lembrança neste momento político. O ditador de plantão era o general Ernesto Geisel que com toda a pompa e circunstância iria inaugurar uma grande obra no município de Suzano/SP, justamente onde estava, e ainda está, a poderosa fábrica de papel e celulose, com 3.550 trabalhadores. Foram colocados ônibus em todas as fábricas do município para levarem os empregados para prestigiarem o ato. Como se tratava de uma unidade de produção contínua, apenas os operadores não podiam ir. O restante sofreu uma emulação sem precedentes. Mesmo com toda a boataria, a resposta da peãozada foi não arredar pé e os ônibus ficaram estacionados no pátio da fábrica, demonstrando que boato e pressão de cima para baixo, podem até assustar, mas não fazem história. Por incrível que pareça, naquele ano conquistamos mais do que nossa expectativa. A mobilização venceu o medo e a tática patronal não surtiu efeito.
Passadas quase quatro décadas, eis que me deparo com a velha tática da boataria, agora disfarçada de pequenas notas de jornais e blogs, dando conta da preferência maciça por um candidato da base governista a prefeito da capital. Todo santo dia é dado como certeza que o candidato já está escolhido. Há dois ou três meses atrás foi a pesquisa de um semanário que decretou tal óbvio.
O discurso era veemente, o candidato do PT não cresce nas pesquisas e ainda tem muita rejeição. Semana passa, vem outra pesquisa que coloca o candidato do PT, ligeiramente na frente, começando a vencer o estado inercial, em ligeiro processo de ascensão e ainda por cima, com a clara manifestação que o povo quer ver a polarização da disputa entre os candidatos do PT e do DEM. Se cada um tem o direito de interpretar pesquisas da forma que melhor favoreça sua pregação, eu também tenho e é assim que leio a pesquisa mais recente.
Retomando à reação dos operários da fábrica de celulose frente à visita do ditador, a vereadora Rosângela Santana e o vereador Emanuel Nascimento saíram em defesa do pré- candidato do PT em pronunciamentos oportunos. Foi o bastante para que vozes mostrassem qual o X desta questão e fizeram com clareza. O que existe não é ver quem é melhor, e sim, um veto ao nome do candidato do PT.
Estes últimos dias de junho serão decisivos e o tempo não é tão curto que não possibilite uma reflexão demorada. Se vozes que podem falar pelo PT, quiserem, o desfecho pode ser favorável.
Nada tenho contra que o candidato venha a ser de um partido aliado, o que me incomoda são os métodos.
Na minha lista de critérios está como destaque que o candidato tenha garra para ir para um duelo de titãs e nunca admita que o objetivo é provocar um 2° turno. Ora pois, isso de admitir que a disputa vai para o 2° turno é tática dos chamados candidatos nanicos e não de quem entra para ganhar.
Ai que saudade do grito de guerra que ecoou na Avenida Barão de Maruim no dia 07 de setembro de 2000, quando nosso candidato ainda estava em 2° lugar nas pesquisas.
"Aracaju, eu não me engano. Segundo turno, nem daqui a oito anos".
Quem quiser botar o apurado no mato ou, chutar o balde de leite com 50 litros, que o faça. Só que a história vai cobrar.

* É militante político