É hora de humanizar a sociedade globalizada

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Publicada em 21/06/2012 às 12:11:00

* Othon Henry Leonardos

Há certos momentos históricos quando sociedades atingem níveis patológicos de dominação do outro, quando ganham território e poder, mas perdem pertencimento e territorialidade, quando se acham desligadas da teia da vida que a sustenta, destruindo-a e a si próprias,  elas são acordadas.
Na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento popularizada como ECO 92, um número recorde de representantes de 179 países aprovou por consenso uma Agenda para o século que se despertava. Com ela estava a esperança da construção de um mundo ecologicamente responsável e equilibrado iniciada em Estocolmo em 1972, inaugurando a era e o paradigma do desenvolvimento sustentável. Seu nome anterior, eco-desenvolvimento, etimologicamente auto-explicativo, foi ali vetado pelos Estados Unidos da América e substituído pela expressão desenvolvimento sustentável.
A contradição semântica do novo paradigma permitiria àquele país continuar na liderança das nações, mantendo a economia perversa, sem a sustentabilidade ecológica que se pretendia, então, exigir. A ECO 92 terminava sem a elaboração de uma carta dos princípios e valores internacionalmente construídos em reuniões anteriores que acompanharia a Agenda 21.
Sincronicamente sensível a novas mudanças e ao despertar de uma nova consciência o Brasil já havia incorporado o espírito destes novos princípios universais na sua própria Constituição, especialmente nos artigos 225 e 231. A carta magna da Terra de princípios e valores ficava adiada, entretanto para a Rio+5. Desde então, não houve mais consenso entre as nações sobre onde estaria a mudança paradigmática tão necessária. Os princípios e valores do paradigma que se pensava haver sido construído dissolveram-se gradativamente em cartas da terra de âmbito local. As de alcance continental, como as da América Latina, perderam-se na indiferença ou no medo dos que poderiam assumi-las.
O conceito do desenvolvimento sustentável ficava, então, um discurso vazio do poder político-econômico, livre para ser apropriado pelos que compram e vendem natureza como mercadoria e sem responsabilidade quanto a perpetuidade humana. Estados fingem ocupar-se de uma governança ambiental. No Brasil, o próprio Congresso Nacional tornado Constituinte em 1988 procurava desconstruir as conquistas sociais e ambientais da sociedade, dominados por uma bancada ruralista que impôs um código florestal que permite desmatar ainda mais.
O debate da Rio+20 sobre mudanças paradigmáticas que sustentem a evolução humana na natureza, juntamente com os povos tradicionais, que seguem o fluxo da natureza, deverá ser uma das principais tônicas da Rio+20. Programas como a Cúpula dos Povos, Acampamento Terra Livre, a Karioka, a Exposição Séculos Indígenas devem complementar a programação oficial do Ministério da Cultura: Seminário Culturas Indígenas.
A programação oficial dos países "desenvolvidos"  procurará promover uma maquiagem verde para manter seu sistema marrom, procurando sair de sua crise econômica sem mudanças paradigmáticas, transferindo para os países em desenvolvimento o ônus dos custos ambientais da produção e não os do consumo insustentável.
Esperamos sair do discurso hipócrita na Rio+20 e iniciar a prática da solidariedade que aproxima os seres e promove a evolução geológica da vida, ausente no sistema econômico vigente. O desenvolvimento atual é desumano e insustentável? Não há amor. Percebemos que somos filhos da Terra e da flecha do tempo e que eles é que fazem tanto nossa gestão quanto a dos pássaros e das flores que nos acompanham?
Em face deste despertar da consciência, tornamo-nos inquietos e nossas sociedades também.  "A TERRA ESTÁ INQUIETA - Qual é a força moral para um contrato social para o século XXI?" é um exemplo dos muitos títulos de temas que serão tratados na Rio+20 e objeto do seminário que o Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB está produzindo em colaboração com o Institut International de Recherche, Politique de Civilisation presidido por Edgard Morin.
Acreditamos que a Rio+20 é um dos poucos espaços onde poderão ser feitos a leitura de nosso tempo e o diagnóstico dos sintomas patológicos que nossa sociedade globalizada está vivendo. Está mais que na hora de humanizá-la. Há milhares de idéias e remédios sendo propostos para sairmos do discurso do desenvolvimento sustentável e colocá-lo e corrigi-lo na prática implantando uma nova Agenda 21. A programação oficial é sempre conservadora e as soluções deverão vir dos fóruns paralelos.
A imprensa deve ficar atenta para o que sairá da Cúpula dos Povos. O sucesso ou não da Rio+20 dependerá, fundamentalmente, de como seus resultados serão comunicados e filtrados. É hora de se testar os meios livres de comunicação, sobretudo da força das SECOM das universidades, onde o livre pensamento ainda não está totalmente dominado.

* Othon Henry Leonardos é pesquisador colaborador do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS), da UnB, onde exerce a função de vice-diretor e coordenador do Mestrado Profissional em Desenvolvimento Sustentável junto a povos e terras indígenas. Geólogo pela UFRJ, M.A pela Universidade da Califórnia e Ph.D pela Universidade de Manchester na área de Geologia